É no final do livro, no posfácio, que se encontram as razões que levaram Herta Müller a escrevê-lo. O facto de a sua mãe ter passado cinco anos num campo de trabalho russo certamente não foi alheio. Em 2001, começou a registar testemunhos de pessoas que tinham passado pela mesma experiência, entre as quais se encontrava Oskar Pastior. Das conversas regulares, nasceu a vontade de escreverem um livro em conjunto. No entanto, Oskar acaba por falecer em 2006, deixando Herta com quatro cadernos de anotações. A morte de Oskar foi um choque para a escritora, pela proximidade que entretanto tinham ganho. Um ano depois, o impulso para escrever o romance a título pessoal impôs-se. Em boa hora, dirá o leitor destas quase trezentas páginas.
Cinco anos num campo de trabalho russo não são coisa fácil de descrever e Herta Müller percebeu que documentar não bastava. Assim, cometeu a inimaginável proeza de juntar aos registos de Oskar uma poesia que dificilmente se associa às penosas vivências destes deportados. O facto é que essa poesia acaba por ser o trunfo desta obra. É ela que dá corpo à história, que agarra o leitor e que o faz sofrer na pele dos personagens. Cinco anos num campo de trabalho russo não podem ser resumidos a fome e a saudades de casa.

Temos piolhos na cabeça, nas sobrancelhas, na nuca, nas axilas, nos pêlos da púbis. Temos percevejos na armação da cama. Temos fome. Mas não dizemos: Tenho piolhos e percevejos e fome. Dizemos: Tenho saudades de casa. Como se nós precisássemos.

Cinco anos num campo de trabalho russo, ainda que penosos, árduos e tortuosos, revelam tesouros.

Pequenos tesouros são aqueles em que está escrito: Aqui estou eu.
Maiores tesouros são aqueles em que está escrito: Ainda te lembras.
Os tesouros mais belos, contudo, são aqueles em que estará escrito: Também lá estive.

Terminada a leitura de Tudo o que eu tenho trago comigo, o leitor sentirá que lá esteve.