Esta é a história de um homem comum e, como toda a história de homens, começa pelo seu nascimento. A 8 de Julho de 1979, um homem nasceu pela primeira vez.
(Não me interrompam para dizer que os homens só nascem uma vez, por favor.)
Esse homem nasceu grande, mas ainda menino, como manda a natureza. O menino viveu e cresceu com toda a naturalidade: brincou, aprendeu, errou e aprendeu. Deixou de ser menino para ser rapaz e deixou de ser rapaz para ser homenzinho. Já não era rapaz e ainda não era homem.
Sem se dar conta de nada de anormal, começava a aprender o que era a vida. Só muitos anos depois da data do seu nascimento descobriu que um bocado de si tinha nascido noutra altura. Tinha então vinte e seis anos quando percebeu que também tinha nascido a 17 de Janeiro – como esta não é apenas a história de um homem, omita-se o ano.
(Peço-vos que não me interrompam para voltar a dizer que os homens só nascem uma vez.)
O homem de quem se conta a história não se lembra de ter sentido nada de diferente a um 17 de Janeiro, mas reconhece que a memória não é o seu forte. Esta é a história de um homem com uma sorte pouco comum. Foi também por essa altura que se foi libertando do homenzinho que era para se mostrar como homem. Não tardou muito até sentir, talvez por já estar mais alerta para situações dessas, que tinha nascido uma terceira vez. Foi na manhã de 24 de Setembro de 2010. Achou estranho ter nascido uma terceira vez e, ao mesmo tempo, ter sentido uma inquietação naquele seu bocado nascido a 17 de Janeiro, como se esse nascimento se tivesse renovado.
(Se insistem em dizer-me que os homens só nascem uma vez ou que três vezes é exagero, eu adianto já que não está colocada de parte a hipótese de nascer uma quarta vez.)
Esta é a história de um homem comum com uma sorte fora do comum.
