Se a história de Angola trocou as voltas à história de muitos portugueses, a obra de António Lobo Antunes confirma que o autor foi um deles. Em Comissão das lágrimas Angola vive o período pós-independência, mas não é esta história que mais interessa. Sem se preocupar com o rigor do retrato histórico, político e social da época, Lobo Antunes volta a centrar-se nas personagens e nas suas vivências. Angola, a independência, as lutas internas pelo poder, o fraccionismo, o sangue e as lágrimas só interessam verdadeiramente quando interferem com as memórias de uma menina que abandonou o país com cinco anos. É pela voz feita de lembranças (umas muito presentes, outras estranhamente presentes e outras resgatadas muito a custo) desta menina que se vão compondo as restantes personagens.
António Lobo Antunes mantém neste livro todas características literárias que o distinguem dos demais. A narrativa (se é que se lhe pode chamar narrativa) é novamente feita de avanços e de recuos, sob a forma de uma torrente de vozes, recordações e pequenos acontecimentos. No meio de tudo isto estão as habitualmente bem escritas frases e as mais brilhantes metáforas.
Comissão das lágrimas, mais que história, é sentimento. Comissão das lágrimas é culpa, mágoa, vingança, vergonha, medo, saudade. Pode estranhar-se e até desdenhar-se a escrita de Lobo Antunes, mas é impossível ficar-se indiferente à sua intensidade.

Não li o livro mas sei uma coisa, Angola está viva no pensamento de muitos como uma sombra do que já foi. Angola é um país duro, desorganizado, caótico, desordenado, com necessidades básicas gritantes que contrastam com uma ostentação pornográfica de uma riqueza artificial financiada pelo petróleo.
Sonha-se muito com uma coisa que não existe há já quase 40 anos !
Parabéns pelo blogue caro amigo.
Cresci a ouvir histórias de uma Angola que tarda em recompor-se. Talvez um dia. Eu gostava, os meus pais gostavam.
Abraço e obrigado