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Adelaide vestia preto, a cor que carregava interiormente. Não por ter perdido o amor, que esse já o tinha perdido antes de a tal onda levar Firmino, mas pelo sentimento de culpa, pelas palavras que lhe disse antes dele ter partido para a sua última faina. A culpa não morre solteira, mas pode morrer viúva.

- É para isto que voltas, Firmino? Para te enfiares todo o dia no café? Para vires a casa comer e dormir, mais valia teres ficado em mar alto. Espera uma mulher três meses, agoniada, para depois servir de sopeira. Isto anda-me a cansar de uma maneira que não imaginas. Para a semana voltas a fazer-te ao mar e cá fico eu enfiada em casa. Se não podíamos dar um passeio juntos, se não podíamos fazer umas remodelações na sala, os dois, que é como as coisas têm mais valor. Não! Tens que sair porque há bilhar, ou porque há futebol, ou porque não sei mais o quê. Tens que ir beber. Só não tinhas era que voltar sempre aos caídos, com esse hálito e esse mau feitio. Isto não é vida para uma mulher. Não há uma onda que me livre disto? Não há bacalhau que inverta os papéis e te pesque?

Tanto tempo sozinha, algum dia havia de lhe dar para pensar no efeito dos produtos de limpeza: a brancura da tijoleira depois de esfregada com lixívia, sem vestígios de sujidade. E imaginou-se assim por dentro, de um branco imaculado, também ela sem vestígio de qualquer coisa que a tivesse marcado, limpa. Num gesto, sem se permitir reflectir, levou a garrafa de lixívia à boca e bebeu o suficiente para lavar o chão a três divisões.

Antes de adormecer, uma oração. Ao acordar, outra oração. Entre as orações, tempo para os programas da manhã, as telenovelas e as limpezas. Mesmo numa casa onde não entrava ninguém além de Adelaide, a limpeza era tarefa diária. Por vezes, o mesmo sítio era lavado pela segunda vez sem que o pó tivesse tido tempo de ali pousar. Talvez para que os apresentadores dos tais programas e as personagens das telenovelas – às vezes o mesmo actor em mais que uma personagem – pudessem testemunhar o seu asseio.

Um dia o mar levou-lhe o marido e com ele foram-se também as cores do seu guarda-roupa. Adelaide veste preto. Calças, saias, camisas ou camisolas. Pretas. Por vezes um lenço, ou um cachecol. Acessório garantido, apenas o terço. Também preto.

[Continua durante o dia de hoje, em entradas já agendadas.]
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