Don DeLillo foi um daqueles casos que me prendeu ao primeiro livro. Foi com o magistral Submundo que fiquei a conhecer a escrita deste prolífico autor norte-americano – Ponto Ómega é o seu 16º romance e o 11º a ser editado em Portugal. Essa primeira leitura foi suficiente para querer conhecer um pouco mais da obra de DeLillo. Ruído branco, O homem em queda e Os nomes foram os títulos que logo me saltaram à vista. Quis o destino que este recém-editado Ponto Ómega, por força da ideia presente na sua sinopse, tivesse prioridade sobre estes últimos.
No deserto do Arizona. Um jovem realizador obcecado com uma ideia para um filme: um único plano-sequência, uma única personagem. Frente à câmara e encostado à parede (“como num assalto ou num fuzilamento”), está Richard Elster, um intelectual que, ao serviço do Pentágono, traçou a cartografia conceptual da Guerra do Iraque (“eu queria uma guerra em haiku… uma guerra em três versos”). Quando a filha de Elster entra em cena, o fio da conversa filosófica dos dois homens é abruptamente cortado e a dinâmica da história conhece uma dramática inflexão.
O livro começa por nos transportar para uma sala do MoMA. Aí, um homem contempla 24 Hour Psycho, uma vídeo-instalação de Douglas Gordon, que consiste em nada mais do que a projecção do original Psycho de Hitchcock a uma velocidade de dois fotogramas por segundo, fazendo-o durar umas exactas vinte e quatro horas. Nesta fase, a capacidade descritiva de DeLillo é levada ao expoente máximo. Segue-se a visita do jovem realizador a Elster. Entre o convite para a participação num filme invulgar – um único plano-sequência, uma única personagem -, entre o aparecimento e o desaparecimento da filha de Elster, é da consciência, do tempo e da percepção que dele temos que se fala. O romance termina da forma como começa, na sala do MoMA em que se projecta 24 Hour Psycho.
Ponto Ómega está na rota oposta de Submundo. O primeiro é uma reflexivo, introspectivo; o segundo é activo e reactivo. O primeiro é voltado para dentro; o segundo quer abarcar toda uma época norte-americana.
Em Ponto Ómega a escrita de Don DeLillo não apresenta mácula, mas depois de Submundo é difícil dizer que entusiasmou. A sua leitura, ainda assim, é uma empreitada que vale bem a pena.


