Depois da leitura de Nostromo, o regresso à obra de Conrad era inevitável. Em O Coração das Trevas, referência obrigatória na bibliografia do autor de origem polaca, encontram-se algumas semelhanças com o livro anteriormente referido: volta a contar-se uma história de marinheiros – o facto de Conrad se ter feito ao mar aos dezassete anos não será alheio a esta influência; aborda-se de novo a colonização de uma terra; a mina, que era fonte de riqueza em Nostromo, dá lugar ao marfim; em ambos há um personagem de grande reputação, força motriz de cada uma das narrativas.
A viagem ao coração da selva africana é na verdade uma viagem ao lado mais escuro do coração humano. É possível reparar que Marlow, o narrador desta história, se vai transformando à medida que o vapor vai subindo o rio. De forma semelhante, Kurtz – o notável Sr. Kurtz – vai morrendo lentamente assim que se vai afastando da densa selva.
O Coração das Trevas é, tal como Nostromo, uma brilhante e pessimista caracterização do homem. Apesar da maior notoriedade do primeiro, que chegou a servir de inspiração a Francis Ford Coppola para o seu Apocalypse Now, a leitura de Nostromo acaba por se revelar mais envolvente e colocar mais em evidência a qualidade de Conrad enquanto escritor – um escritor que, pasme-se, aprende inglês depois dos vinte anos e se notabiliza a escrever nessa língua. Obrigatório.
Vivemos como sonhamos – sozinhos.
O pessimismo podia levar-me a dizer que gastei 8€. O optimismo podia levar-me a dizer que poupei quase 2€ (ou 20%, fosse o optimismo maior). O altruísmo podia levar-me a dizer que fiz um pequeno contributo para a pequena Feira do Livro de Matosinhos. Qualquer dos casos corresponderia à verdade.
A leitura de Nostromo bastaria para saber o que esperar de Conrad. No entanto, os repetidos elogios que António Lobo Antunes, escritor de gosto exigente, tece a O Coração das Trevas
Eu queria publicar esse livro na minha biblioteca, mas numa edição bilingue. É um escritor admirável e, em inglês, é um livro dentro de um livro, dentro de um livro, dentro de um livro e tecnicamente é fodido de fazer. É um livro em que o personagem principal não aparece ou, por outra, aparece muito pouco e quase não fala. É um livro em que se entra por imensas portas! Ele considerava-se um escritor simbolista e eu percebo o que é que ele quer dizer com isso. Eu fico feliz com a felicidade da prosa e de tal maneira metido na maneira como fazem aquilo – talvez tenha a ver com o fazer o mesmo ofício – que me deslumbro.
Uma longa viagem com António Lobo Antunes
fazem aumentar ainda mais a expectativa em relação a esta obra.
Assim que tiver lido O Coração das Trevas, espero poder dizer que, na realidade, o valor pago não faz justiça àquelas páginas.
Nostromo, personagem do romance com o mesmo nome, é a imagem perfeita do pessimismo que se diz típico de Conrad. Este homem, destemido e admirado por todo o imaginário território de Costaguana, o incorruptível capataz dos cargadores, até nas suas qualidades consegue revelar algo de negativo. Nascido na Polónia e depois radicado em Inglaterra, Conrad parte para a escrita desta obra depois de uma história que ouviu numa das suas expedições – o autor foi também mestre marinheiro. Contava-se então que um homem teria roubado um barco carregado de prata, durante uma revolução. Anos depois, Conrad voltaria a encontrar esta história num velho livro que leu. Mas Nostromo não é apenas a história de um roubo, é uma impiedosa caracterização humana, um ensaio sobre o que a riqueza material é capaz de fazer no homem. É também uma história de amor e de ambição. Esta obra é uma história da beira-mar, como diz o seu subtítulo, e do mar sempre se diz ser incerto. Como o homem e como este Nostromo.
[No final do livro, percebem-se as potencialidades desta narrativa - não sendo o livro tão narrativo quanto isso - para uma adaptação ao cinema. Curiosamente, venho a descobrir que David Lean, cineasta responsável por clássicos como A Ponte do Rio Kwai e Dr. Jivago, morreu sem concretizar esse desejo.]
Uma transgressão ou um crime, penetrando na existência humana, devoram-na como um tumor maligno, consomem-na como uma febre.
Era um homem arruinado em todos os sentidos, mas um homem possuído pela paixão não estará nunca falido.