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Ler Cortázar quando já se leu O jogo do mundo (Rayuela, no original) pode ser complicado. Percebi isso quando comecei a ler A volta ao dia em oitenta mundos. Não que o livro seja mau, mas porque não pode ombrear com um romance da categoria de O jogo do mundo. Com este Bestiário, livro de contos, acontece o mesmo. Ainda assim, entre os oito contos desta obra, há muito do bom Julio Cortázar que conhecemos do já citado romance. Há até um conto que valia o livro por si só – As portas do Céu. Outros há que, por serem mais “fantásticos” ou ficarem demasiado abertos, não preenchem os requisitos que o leitor se habituou a “exigir” do autor argentino.
Bestiário é, como quase todos os livros do género, ideal para intermediar duas leituras mais pesadas, ou para alturas em que o tempo e a disponibilidade mental não abundam. E leva o selo de Cortázar, de quem volto a aconselhar vivamente, correndo o risco de me tornar repetitivo, O jogo do mundo.


Eu não sei, olha, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que a esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e vê-se que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.
Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada de cair e aniquilar-se. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.

Julio Cortázar, O esmagamento das gotas
[Só quatro exemplos de muitas horas felizes]


Se  O Jogo do Mundo é um livro fantástico, o seu sétimo capítulo é uma aproximação perfeita da prosa à poesia. É também uma espécie de carta de amor – arriscando-se ao ridículo, como estas. Começa com o desenho de uma boca em que hão-de caber perfumes, silêncios, flores e até peixes. Uma boca onde a dor há-de ser doce.

[Pela boca do próprio Cortázar.]

- Minha senhora – disse-lhe eu -, não espere muita coerência desta volta ao dia. De facto, o que encontramos neste A volta ao dia em 80 mundos é um conjunto de textos sobre os mais variados temas, desde a música – o jazz, principalmente -, ao boxe, com as obrigatórias passagens pela literatura. Com esta escolha de escritos e imagens, Cortázar volta a mostrar-se um dos autores  mais inovadores que tive oportunidade de ler. Em O jogo do mundo, podemos encontrar dois livros, ou duas formas de ler um livro: uma primeira mais tradicional, do primeiro ao 56º capítulo, e uma segunda, começando no capítulo setenta e três e seguindo uma ordem definida numa tábua de orientação. Num dos textos que A volta ao dia em 80 mundos reúne, Julio Cortázar apresenta aquela que seria a ideia para uma máquina de ler O jogo do mundo (Rayuela). Teria a designação de Rayuela-o-matic e consistiria numa espécie de armário com o número de gavetas correspondente ao número de capítulos do livro. Depois, consoante a forma de leitura que se tivesse escolhido, as gavetas iam abrindo na sequência definida, à medida que o leitor fosse terminando cada capítulo. Outro dos pedaços interessantes desta obra é o conto A carícia mais profunda, em que um homem se vai sentindo afundar no solo sem que mais ninguém se aperceba disso. Há ainda uma interessante escolha de poemas e uma série de opiniões que nos levam a pensar que Cortázar teria sido um blogger de mão cheia.
As palavra finais vão para a Cavalo de Ferro: a edição deste A volta ao dia em 80 mundos está excelente e a notícia de que está já prevista a edição de Papéis inesperados não lhe fica atrás. Assumo-me como seguidor.

Escuto uma vez mais Mano a Mano, que prefiro a qualquer outro tango e a todas as gravações de Gardel. A letra, implacável no seu balanço da vida de uma mulher que é uma mulher da vida, contém em muito poucas estrofes «la suma de los actos» e o vaticínio infalível da decadência final. Vergado aos pés desse destino com o qual por um momento conviveu, o cantor não expressa nem cólera, nem despeito. Perturbado na sua tristeza, evoca-a e vê que foi na sua pobre vida miserável apenas uma boa mulher. Até ao fim, e apesar das aparências, defenderá a honradez essencial da sua antiga amiga. E desejará o melhor para ela, insistindo na qualificação:
Que el bacán que te acamala tenga pesos duraderos,
que te abrás en las paradas con cafishos milongueros,
y que digan los muchachos: «Es una buena mujer.»

A volta ao dia em 80 mundos, Julio Cortázar


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