Archives for posts with tag: O Mundo Alucinante

E foi assim que chegámos a dois grandes charcos de água, e um estava gelado e os pedaços de gelo flutuavam no centro, e o outro deitava fumo e a água borbulhava, a tal ponto fervia. E em ambos havia muita gente a nadar; e passavam de um charco para o outro, mas somente uma vez, pois a mudança era tão brusca que imediatamente ficavam a boiar, mortos. Alguns que a princípio só faziam uso de um banho (conservando assim a vida), utilizavam-nos como balsas e navegavam sobre eles até paragens distantes. Mas acabavam quase sempre por trocar de charco, e assim se convertiam em balsas. E nem perguntei nada, pois achei desnecessário. Bem sabia que esse era o lugar dos insatisfeitos…

Reinaldo Arenas, O mundo alucinante

Servando Teresa de Mier, reza a história, foi um frade mexicano. Consta também que um seu sermão foi o suficiente para colher inúmeros inimigos e consequentes problemas. Por altura dos festejos do aniversário da aparição da Virgem de Guadalupe, com uma audiência bem representativa dos poderes da altura, questionou o argumento da evangelização que os espanhóis usavam para justificar a conquista e destruição das civilizações nativas. Daí ao exílio foi um instante. Sucessivas fugas e detenções levaram Servando a viajar por Espanha, França, Portugal, Itália, Inglaterra, Estados Unidos e Cuba. Se a parte mais biográfica da vida deste frade mexicano já estava bem entregue aos historiadores, é mais que evidente que este tipo de resumo ignora muita coisa. O mais importante, talvez.

A História recolhe a data de uma batalha, os mortos que ilustraram a mesma, quer dizer, o evidente. Estes temíveis memoriais resumem (e bastante) o fugaz. O efeito, não a causa.

Reinaldo Arenas, apercebendo-se das potencialidades de uma personagem como Servando Teresa de Mier, tratou de juntar a estas notas históricas toda a ausente e necessária metáfora.

Por isso, mais do que na História, procuro no tempo. Nesse tempo incessante e diverso, o homem é a sua metáfora. Porque o homem é, afinal, a metáfora da História, a sua vítima, mesmo quando aparentemente procure modificá-la e, segundo alguns, o faça.

O resultado desse exercício é este O Mundo Alucinante, série de entusiasmantes aventuras e desventuras de um frade que, pela imaginação de Reinaldo Arenas, vai construindo uma realidade alternativa na qual acabarão por caber todas as outras. Afinal, ao escritor cubano interessava apenas o romance.

Esta é a vida de frei Servando Teresa de Mier, tal como foi, tal como pode ter sido, tal como eu gostaria que tivesse sido. Mais do que um romance histórico ou biográfico pretende ser tão-só um romance.

Tal como o mundo, é um livro alucinante.

E por isso largaste a correr: bem sabes que a maldade não está no momento que se quis desfrutar, mas na escravidão que se segue a ele, na constante dependência em que se cai. A procura incansável, a perpétua insatisfação do encontrado… E correste a fugir de ti mais que dos outros.

Reinaldo Arenas, O Mundo Alucinante

A História recolhe a data de uma batalha, os mortos que ilustraram a mesma, quer dizer, o evidente. Estes temíveis memoriais resumem (e bastante) o fugaz. O efeito, não a causa. Por isso, mais do que na História, procuro no tempo. Nesse tempo incessante e diverso, o homem é a sua metáfora. Porque o homem é, afinal, a metáfora da História, a sua vítima, mesmo quando aparentemente procure modificá-la e, segundo alguns, o faça. Em geral, os historiadores vêem o tempo como algo linear na sua infinitude. De que provas se dispõe para demonstrar que assim é? Com o elementar raciocínio de que mil e quinhentos é anterior a mil e setecentos, ou que a guerra de Tróia foi anterior à decapitação de Maria Antonieta? Como se ao tempo interessassem para alguma coisa tais signos, como se o tempo soubesse de cronologias, de progressos, como se o tempo pudesse avançar…

Reinaldo Arenas, O Mundo Alucinante

Como já aqui tinha feito referência, uma aposta deu-me direito a um crédito em livros. A espera pela edição de O Terceiro Reich deu-me tempo para escolher os outros, daí que a passagem pelas prateleiras tenha sido feita em tempo record.
Sem sair da América do Sul e ultrapassando em trinta e dois cêntimos o valor da aposta, acrescentei hoje três títulos às prateleiras cá de casa.

Atendendo a que Nostromo caminha a passos largos para o final, não tardarei em pegar numa destas obras.

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