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O título do livro não engana e é verdade que há nestas páginas um retrato dos Estados Unidos da América pós-guerra. São muitas as alusões à terra das oportunidades, à grande potência mundial e à diversidade cultural e racial do país – as personagens de Philip Roth chocam muitas vezes com a questão do sentir-se americano. O essencial deste Pastoral americana podia, no entanto, transportar-se para outro país e para outra época. O essencial deste romance está nas ideias de família e de normalidade. Seymour Levov, o «Sueco», cresce no seio de uma família judia, é um brilhante e popular atleta universitário, dá seguimento ao próspero negócio do pai, casa com uma ex-miss e tem uma filha a quem pode proporcionar tudo. A viverem numa zona calma, afastada da cidade, os Levov levam a vida tranquila que sempre desejaram e são a imagem de uma família bem estruturada. Porém, esta tranquilidade e esta “normalidade” começam a desmoronar de um dia para o outro, à força de uma bomba. E é exactamente aqui que se põem à prova os conceitos de família e os limites do «Sueco».
Não há, neste livro, a economia de palavras que encontramos em Todo-o-mundo e em A humilhação; não há, neste livro, o humor presente em O complexo de Portnoy; aqui a escrita é torrencial, crua e dura. Pastoral Americana é um livro obrigatório, “uma bomba que conta toda esta estuporada história”.

Isto chama-se uma máquina de polir e aquilo é um esticador e tu chamas-te querida e eu chamo-me Papá e isto chama-se viver e o contrário é morrer e isto chama-se loucura e isto chama-se chorar e isto chama-se inferno, inferno puro, e temos de ter laços bem apertados para conseguirmos aguentar, isto chama-se tentar-continuar-como-se-nada-se-tivesse-passado e isto chama-se pagar-por-tudo-mas-sem-saber-porquê, isto chama-se querer-morrer-e-querer-encontrá-la-e-matá-la-e-salvá-la-daquilo-por-que-ela-está-a-passar-onde-quer-que-esteja-neste-momento, este exteriorizar desabrido chama-se deitar-tudo-cá-para-fora…

Philip Roth, Pastoral Americana

O pano sobe, os focos voltam-se para Simon Axler, aclamado actor do teatro americano e, de um dia para o outro, o talento deixa de subir ao palco com ele. A partir daí, está dado o mote para este livro de perdas: perdem-se capacidades, perde-se confiança, perde-se estabilidade, perde-se o amor próprio e a vontade de viver. No seu trigésimo livro, Philip Roth volta a debruçar-se sobre a condição humana com a habilidade que já lhe havia sido reconhecida em Todo-o-Mundo. Em A humilhação, o recente vencedor do International Man Booker Prize, consegue essa proeza com uma impressionante poupança de palavras. As pouco mais de cem páginas do livro lêem-se num ápice e, no final, não parece haver um parágrafo deslocado, coisa que apenas está ao alcance de um escritor dotado e experimentado.
Lidos Todo-o-Mundo, O Complexo de Portnoy e este A humilhação, fica garantida a atenção para outros dos seus títulos que aguardam vez na prateleira. É questão de tempo.

Quando um actor representa o papel de alguém que está a desmoronar-se, fá-lo com organização e coerência; quando é ele próprio que está a desmoronar-se, e representa o papel do seu próprio fim, isso é outra coisa, uma coisa transbordante de terror e medo.

Philip Roth, A humilhação

Abrir este livro é abrir a porta do consultório onde Alexander Portnoy vai descrevendo, num engraçado monólogo, os principais episódios da sua vida. Nascido e criado na cultura judaica, é da sua educação e dos seus costumes que surgem algumas das mais irónicas considerações. Depois, há ainda o pormaior da sua sexualidade quase (quase?) compulsiva, que está na origem das mais cómicas linhas de O Complexo de Portnoy. Mais cómicas e mais obscenas, uma vez que Philip Roth não poupa nas palavras que escolhe para ir descrevendo os comportamentos sexuais de Alexander – não será, por isso mesmo, recomendável para os mais sensíveis a este tipo de linguagem. Uma educação de apertadas regras e proibições não resulta obrigatoriamente (resultará alguma vez?). No caso do protagonista desta obra, esta mão pesada apenas se vai verificando nos problemas de consciência de Portnoy.
Só alguns anos e alguns livros depois de O Complexo de Portnoy é que Philip Roth se tornou num crónico candidato ao Nobel da Literatura, mas haverá nesse feito, seguramente, algum contributo desta obra.

Como fizeste nessa noite quente de Primavera, no meu apartamento de Yellow Springs, de cueca alta e sutiã, com farinha nas orelhas e a risca do cabelo molhada de suor – lembras-te? para me mostrares, apesar da temperatura, a que é que sabe o pão verdadeiro? E eu tinha o coração tão derretido que o podias ter amassado também!

Philip Roth, O Complexo de Portnoy

Uma vez que a data de divulgação do Nobel da literatura se aproxima e que a blogosfera já se agita em torno disso (aqui, aqui, aqui e aqui, só como exemplo), talvez não fique mal abrir também aqui as apostas. A exemplo do Tiago Sousa Garcia, inclino-me para Roth. Não que o meu voto (a tê-lo) fosse para o autor de Indignação, mas por há muito o continente americano estar arredado da lista de vencedores. Outros nomes prováveis são Mário Vargas Llosa e Joyce Carol Oates, de quem, por desconhecimento, nada posso dizer.
Tivesse eu lugar na academia sueca e António Lobo Antunes ou Kundera seriam nomes prioritários.

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