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Começamos por seguir a entrada de um jovem num estádio onde se disputaria uma final de basebol. As primeiras páginas de Submundo bastam para evidenciar a excelência de DeLillo, numa incrível descrição de toda a atmosfera desse encontro, no Polo Grounds. Nessa noite, com a tacada que se ouviu em todo o mundo (vídeo), Bobby Thomson deu aos Giants a vitória sobre os Dodgers. A bola perdeu-se nas bancadas, mas na obra de Don DeLillo é o jovem Cotter Martin a levá-la para casa. A partir daí, o destino da bola vai-se confundindo com as vidas dos vários personagens que vão surgindo. Durante a leitura das mais de oitocentas páginas de Submundo, vamos percebendo que a bola é um pretexto para descrever toda uma época. O desenvolvimento, a ameaça nuclear e a cultura vão moldando personalidades e condicionando relações. É pela acção do homem que o mundo se vai alterando e é pela acção desse mundo que o homem se vai moldando.
Numa obra extensa como esta, são normais as oscilações entre momentos de leitura empolgante e outros de menor interesse. Em Submundo, no entanto, estes últimos nunca se alongam em demasia.
Depois desta leitura, a restante obra de DeLillo revestiu-se de um interesse acrescido. Já editados em Portugal, também pela Sextante, podemos encontrar Ruído Branco e O Homem em Queda. Qualquer deles obrigatório. Qualquer deles questão de tempo.

Erica estava na cozinha, a fazer mousse de frango com gelatina para o jantar. Três chávenas de caldo natural de galinha ou três cubos de caldo de galinha dissolvidos em três chávenas de água a ferver. Duas embalagens de gelatina de limão. Uma colher de chá de sal. Um oitavo de colher de chá de pimenta-de-caiena. Três colheres de sopa de vinagre. Uma chávena e mais um terço de sucedâneo de natas batidas. Dois terços de uma chávena de maionese. Duas chávenas de frango cozido, cortado em pedacinhos pequenos. Duas chávenas de aipo, cortado bem fino. Duas colheres de sopa de pimento picado.
Depois coze-se e verte-se e mexe-se e mistura-se bem. Verte-se a gelatina devidamente temperada, já fria, sobre a pasta de frango. Com uma colher, despeja-se numa forma de pão com 25×12 cm. Põe-se no frigorífico até ficar bem firme. Desenforma-se. Enfeita-se com alface estaladiça e azeitonas recheadas (caso assim se deseje). Serve-se como entrada para seis pessoas.

Submundo, Don DeLillo

[Recordo que já aqui tinha ficado uma receita encontrada em 2666, de Bolaño.]

Se esta página não tem sido actualizada com a regularidade habitual é porque os intervalos entre os afazeres (que agora incluem uma nova categoria de bricolage) não chegam para passar pelas ruas do Harlem, pelo Texas, ou pelo Bronx. Não literalmente, mas literariamente. A culpa é de um admirável Submundo.

Eu notava como as pessoas fingiam que eram executivos, quando, na realidade, detinham mesmo cargos executivos. Será que eu próprio também o fazia? Mantemos uma distância flutuante entre nós próprios e o nosso emprego. Há um espaço constrangido, uma consciência da encenação cerimoniosa que é uma espécie de pânico suspenso, e talvez o revelemos num gesto forçado ou no pigarrear ritual. Qualquer coisa saída da infância sibila neste espaço, uma percepção dos jogos e das personalidades ainda incompletas, mas não é que estejamos a fingir ser alguém que não somos. Estamos a fingir que somos exactamente quem somos. Eis o que é mais curioso.

Don DeLillo, Submundo

No mesmo dia, dois tão esperados lançamentos: Escrever, escrever, viver e Submundo. O primeiro, um documentário sobre António Lobo Antunes e a sua escrita; o segundo, um premiado livro de Don DeLillo. 23 de Abril foi dia feito para gastar dinheiro.

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