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Desde a primeira sessão de terapia que te topei. És uma réplica fiel do que eu fui um dia, convencido de que ninguém tinha nada de útil a dizer-me, de que já sabia tudo o que havia para saber.
(a falar por falar, a ouvir por ouvir)
Desde que te apresentaste
     Olá, sou o Valter, tenho 35 anos e consumo desde os 17.
que te percebi as mesmas desculpas, a mesma dificuldade em entender que o problema estava em ti e que se o problema estava em ti, a solução só podia estar em ti. Imaginei-te a pensares nas mesmíssimas coisas em que pensei, a imaginar uma mulher e até um filho, ou uma filha.
(atirar para os ombros de alguém a responsabilidade de um estado que nos foge ao controlo)
Eu que tempos depois pude comprovar que não podia haver engano maior. Eu que nos primeiros tempos até me vi livre deste pesadelo, fui feliz, tive uma filha. Pude comprovar que não havia engano maior assim que a minha mulher decidiu tomar outro rumo e me vi retomar o que anteriormente seguia.
Estaremos aqui enquanto nos enganarmos.

Se um dia tivesse encontrado alguém, uma mulher disposta a passar todos os dias comigo e a aceitar-me com as minhas falhas, a ter paciência comigo, a não desistir ao primeiro problema. Ou ao segundo, uma vez que me conheço e sei que ia errar mais que isso. Se pelo menos daí tivesse nascido alguma coisa, talvez encontrasse fora de mim a força necessária para me livrar desta droga de que nem com outra droga me livrei.

Já tentei tanta coisa disparatada que também não me custa nada aguentar isto até ao fim, a fazer de conta que me importo com o que me vão dizendo e dando a entender que acho útil contar como tornei a minha vida inútil.
(terapia motivacional, terapia familiar, terapia individual, terapia cognitivo-comportamental, agora terapia de grupo)
Já tentei tanta coisa que não adianta arranjarem métodos novos, testados e com resultados comprovados. Espreito em mim e não há réstia de esperança, procuro acreditar e não acredito. Esta coisa entranhou-se-me e não me vai deixar mais.
(inicialmente até tentei a metadona, droga para deixar a droga, que deixei por sentir que ao invés de me curar me estavam a matar)

Olá, sou o Valter, tenho 35 anos e consumo desde os 17.
(para que raio me havia de dar, não resolvi os meus problemas até agora, não é a falar para gente com os mesmos problemas, talvez até piores, que os vou resolver)
Eu a esboçar um sorriso assim que mais alguém acabava de se apresentar
     Sou o João, tenho 37 anos e consumo desde os 20.
     Chamo-me Cidália, fiz 40 anos ainda no mês passado e também comecei a consumir aos 20.
     O meu nome é Renato, mas todos me tratam por Nato. Tenho 46 anos e comecei a consumir aos 18.

quando o que me apetecia era correr dali para fora, uma vez que não era por falar para um grupo de drogaditos como eu que ia resolver o meu problema, da mesma forma que nenhum deles o resolveu.

A história de Valter tem nomes que nunca mais acabam. No lugar de Valter podia estar João, Cidália ou Nato. Todas histórias de dependência e desespero, por mais diferentes que possam parecer.

[Continua durante o dia de hoje, em entradas já agendadas.]
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