Monthly Archives: Novembro 2008

Canário

Com o seu último romance, Rodrigo Guedes de Carvalho volta a conseguir transportar-nos para o meio de uma história de pessoas como nós, com o temperamento e os defeitos que muitas vezes os livros preferem esconder. Há um escritor conceituado, um preso e duas mulheres dedicadas. Não se poderá dizer que há uma personagem principal. Há ainda uma prostituta, um advogado, uma criança e um padre. Não se poderá dizer que qualquer delas prescindível. Às tantas, damos por nós na esfera de cada uma destas criações, alternadamente. E parece que vivemos, quase conseguimos sentir. Tudo porque a acutilância da escrita de Rodrigo Guedes de Carvalho nos arrasta para o papel. O exercício mais complicado é mesmo resistir a isso, manter alguma distância.

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Ray LaMontagne – Gossip in the grain

Gossip in the grain Só a distracção justifica  (não é que justifique, mas à falta de melhor termo, fique esse) justifica que não me tivesse apercebido mais cedo da saída o terceiro álbum de Ray LaMontagne. Depois de Trouble e Till the sun turns black, surge Gossip in the grain. A voz continua a ser a identidade de Ray, ainda que este trabalho se tenha assumido como mais aberto, tanto na escolha das músicas – It was time to open up a little bit more, not be quite so reserved in my choice of songs that I wanted to record – como nas participações, integrando elementos da banda de tour e contando ainda com participação vocal de Leona Naess em dois temas – A falling through e I still care for you. O folk está lá, mas desta vez não  está sozinho: Ray LaMontagne mantém-se fiel à sua linha, sem se tornar repetitivo. Daí Gossip in the grain ser mais um álbum a não perder.

Let it be me

[Passada uma semana da data de publicação, é possível que o ficheiro áudio fique indisponível.]
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Ensaio sobre a cegueira

Este texto está aqui. Tão visível quanto a condição animal do homem. Escondido, mas presente. E é essa espécie de cegueira que, tal como Saramago afirma, nos faz sempre mais ou menos cegos. Sobretudo para o que é fundamental. Na adaptação cinematográfica do romance, Meirelles consegue passar a metáfora na perfeição. A crítica não foi unânime, mas o filme reproduz de forma fiel o livro. Na impossibilidade de se reproduzirem todas as páginas do romance, até a escolha das principais cenas me parece bem conseguida. Mais discutível foi a escolha do realizador para o predomínio da acção passada no manicómio. O exterior porderia ter dado uma imagem maior do caos associado à propagação da misteriosa cegueira. No entanto, a fasquia estaria mais alta, o risco seria maior e talvez houvesse um passo em falso. Assim, a parte final do filme, consegue mostrar o estado a que a civilização chegou sem perder a força e a crua realidade das cenas filmadas em interior.

O grande problema do filme é o livro. A comparação nunca poderá ser justa. No cinema não é possível superar o árduo trabalho de construção mental a que um livro como Ensaio sobre a cegueira nos obriga. Ainda assim, filme a não perder.

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Expressão urbana [A crise]

Expressão urbana [A crise]

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Bom Inverno

Depois de se saber que Janeiro será o mês do lançamento dos novos trabalhos de Antony and The Johnsons e de Andrew Bird, sabe-se que Bon Iver lançará na mesma altura o EP Blood Bank.

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Once

Não é preciso muita coisa para fazer um bom filme. Isto não sou eu a dizer que o fazia, mas Once é a prova disso. Com uns escassos 130,000 € – e aqui o escassos aplica-se apenas por comparação a outras produções cinematográficas – John Carney conseguiu uma história que prende pela simplicidade. Glenn Hansard e Markéta Irglová dão corpo às personagens principais que, como os próprios, são músicos. O filme, não sendo um musical, tem na música uma das suas mais importantes componentes, sendo esta a responsável pelo ritmo da história. Todos os temas do filme foram compostos pela dupla de actores e Falling Slowly conquistou mesmo um Oscar para melhor música original.

Amores distantes e sentimentos próximos. A história passa-se em Dublin. Histórias semelhantes devem passar-se muitas vezes em tantas outras cidades.

When Your Mind’s Made Up

[Passada uma semana da data de publicação, é possível que o ficheiro áudio fique indisponível.]

[As tuas surpresas são sempre assim, especiais.]

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Um regresso nunca é a mais

Aguda

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Entre ler murs

Fotografia autêntica do que se vive na actual escola, chegou aos nossos cinemas com o título de A turma. François Bégaudeau interpreta François Bégaudeau, o professor e autor do livro que dá origem a este filme. E só um professor poderia fazer-nos ver o que é, hoje em dia, dar aulas. Das salas de uma escola de Paris às salas de uma qualquer escola Portuguesa, não haverá grande diferença.

 Se é verdade que o mundo que espera os alunos de hoje é mais competitivo, mais exigente, não é menos verdade que a tarefa dos professores se complicou para além desse sentido. A escola  de hoje tem, muitas vezes, que substituir a casa: o ensinar passa para segundo plano, quando o educar é prioridade. As regras que deviam permitir o bom ambiente necessário para o desenrolar de uma aula não vêm apreendidas, pelo que o professor, antes disso, terá que ser pai. Com a desvantagem de ver o seu trabalho descontinuado assim que o aluno sai da escola. Talvez mesmo antes, ao sair da sala de aula. As complicações assumem outras proporções quando nos alunos – que deviam ser receptivos – está cada vez mais presente a ideia de que crescer é ser irreverente, protestar e até desrespeitar. Quando na verdade aprenderão que crescer é aceitar mesmo quando discordamos. Valores trocados. A responsabilidade dificilmente será do professor, mas a tarefa de os ordenar cai-lhe novamente nas mãos. E quantas vezes os pais, incapazes de verem o quanto estão a falhar na tarefa de educar, exigem mais do professor?

O filme mostra tudo isso e mais. Nas aulas acontecerá tudo isso e mais.

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Obama

Histórico e mudança. Talvez as palavras mais ouvidas/lidas hoje. A primeira, mesmo que apenas pela mais óbvia das razões, não precisará de confirmação. Em relação à mudança há mais dúvidas. Hipóteses: manter-se tudo igual, mudar para melhor ou mudar para pior. Se acreditar no melhor é sempre aconselhável, rejeito as euforias antecipadas. Amanhã não vamos acordar no mundo em que sonhamos viver. Amanhã o pão não se multiplicará onde há falta dele e as redes não passarão a sair da água cheias de peixe. Esquerda, direita e centro pouco valem. Assim como democratas e republicanos. Assim como Obama ou McCain. Por si só, nenhuma destas palavras será solução para o estado das coisas. Daí que a campanha do eleito Presidente dos Estados Unidos da América repetisse um acertado Yes, we can. Obama poderá ter vontade e habilidade para ser uma força aglutinadora, mas somos nós que podemos. Dará trabalho e levará sempre algum tempo, ainda assim.

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b fachada

Descoberta recente, pelas páginas do Ípsilon. Um cantautor de palavras tão mundanas quanto arredadas do habitual panorama musical. Músico da Merzbau, lançou agora um novo EP com o apoio da Flor Caveira, editora de artistas como Samuel Úria e Tiago Guillul. Viola Braguesa sucede a até toboso, b sings the Lusitanian Blues e mini CD. À excepção do agora editado, todos os trabalhos estão disponíveis para download a partir do MySpace de b fachada.

Agora que o tempo começa a fazer justiça à época do ano, sou eu quem troca as voltas, deixando por aqui A Primavera, de mini CD. Pelo menos durante estes três minutos e pouco os pássaros, homens e viúvas cantarão. Todos ao som da viola de b fachada.

[Passada uma semana da data de publicação, é possível que o ficheiro áudio fique indisponível.]
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