Monthly Archives: Janeiro 2009

morrer de amor

e ela já sabia que não penaria ali nunca mais, não penaria viva, esfregando o coração no chão, limpando cada nódoa que, mesmo depois de tirada, continuaria escurecendo o seu interior. ela não ficaria mais tempo na praça, não ela, uma mulher que fazia o seu próprio juízo e queria morrer de amor.

o apocalipse dos trabalhadores, valter hugo mãe

[com este livro, valter hugo mãe “obriga-me” a, mais dia menos dia, ler o seu anterior e premiado o remorso de baltazar serapião.]

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1, 2, experiência

É basicamente isto que tenho feito pelo Twitter. Experiências. Muito se tem escrito acerca desta espécie de rede social. Por enquanto, tenho pouco a dizer. Pode ser que se venha a tornar engraçado, com a adesão de amigos e família. A ver vamos.

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A [de Antony e de Andrew]

Antony And The JohnsonsAndrew Bird O Ípsilon conseguiu trazer à sua capa, por duas edições consecutivas, aquelas que tenho – e isto é uma opinião muito pessoal – como figuras maiores do panorama musical actual.
Antony, com a ajuda da sua voz ao mesmo tempo poderosa e harmoniosa, transporta-nos para um lugar diferente de todos os lugares que conhecemos. Ouvi-lo é uma experiência interior. Ouvi-lo não é só ouvir; metade é sentir. Em Novembro de 2006, no Theatro Circo, em Braga, aconteceu o minuto mais sentido a que me lembro de ter assistido num concerto: ouvia-se I Fell In Love With a Dead Boy e, numa pausa da música, o silêncio arrastou-se por um pouco mais de tempo; a sala estava cheia, mas podia dizer-se que ninguém lá estava; podia dizer-se muita outra coisa e continuar sem se conseguir explicar o que ali aconteceu. É de momentos destes que se faz a música de Antony Hegarty. Maio marcará o seu regresso a Portugal. Depois de I Am a Bird Now, será altura de apresentar o recente The Crying Light, um álbum que considera mais pessoal e introspectivo. As letras referem muito a natureza e as paisagens, mas também são paisagens emocionais.
[A entrevista pode ser encontrada aqui.]
Antony And The Johnsons – One Dove [The Crying Light]

Andrew Bird é diferente. Não só diferente de Antony, mas diferente de tudo. Rui Tavares escreve, a propósito do músico de Chicago, que numa tradição musical obcecada em encontrar o novo Bob Dylan, os novos Beatles ou o novo Leonard Cohen, ele não é ninguém senão ele. Mas virão a existir certamente alguns “novos Andrew Bird” – e esses terão uma missão ingrata no futuro. Não podia concordar mais. Nesta breve entrevista [links 1 e 2], aliás, não me recordo de não estar de acordo com o que quer que Rui Tavares tenha escrito. O multi-instrumentalista Bird também passou pelo Theatro Circo de Braga, em Junho de 2007. Aqui, o que nos prende é o génio de Bird, a forma como vai juntando sons, como os vai sobrepondo até criar músicas incríveis. Uma espreitadela a álbuns anteriores leva-me a pensar se aquelas músicas, mesmo paradas, não terão melhorado. A cada audição pareço encontrar mais qualquer coisa que me agarra, mais qualquer som, mais qualquer pedaço de letra. É uma música construída em camadas e é com o tempo que as vamos descobrindo melhor. No seu recente Noble Beast, nem foi preciso muito tempo; não encontro um tema de que não goste. A passagem por Portugal, para promoção do álbum ainda não está agendada – espero que seja apenas uma questão de ainda.
As palavras de Rui Tavares serão agora minhas, ainda que repetidas: na música, Andrew Bird é o meu génio vivo preferido.
Andrew Bird – Tenuousness [Noble Beast]

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Fashion victim

Fashion victim

[Ou como o penteado à Paulo Bento nem um coelho favorece.]
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Da vida

Sobrevivemos porque fingimos. A vida é demasiado rica, demasiado complexa, demasiado incerta. A vida resiste ao método. A vida não pode ser examinada. Não podemos pegar nela e estendê-la diante de nós.

O Peso dos Números, Simon Ings
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Provincianismo crónico

Continuo sem perceber a fixação da SIC – talvez não tenha sido caso isolado, mas foi o único em que consegui reparar – na Casa Branca. Não na de Washington, que isso seria natural, mas na de Sousel, no Alentejo. Vários directos e uma insistência que se tornou ridícula. Junte-se o episódio do cão de água. Que mais? Usará Barak Obama meias compradas na feira de Espinho?

Sintomas de um provincianismo crónico.

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Mundial Ibérico 2018

Portugal e Espanha deram hoje o primeiro passo para uma candidatura conjunta ao Mundial de 2018. Já há quem ache que vamos sair a perder e que, de Espanha, nem bons ventos, nem bons casamentos. Pessoalmente, entre juntar-me a espanhóis ou a Gilberto Madaíl, acho que não levava muito tempo a decidir. Seguro qué no!

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Da cura

Carne mole em pedra dura bate à procura de cura.

João Coração, Corpo de Água [EP Nº1. lado b – download gratuito aqui]

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Código de Barras

Completa hoje quatro anos. Em tempo de blogosfera, já quer dizer qualquer coisa. Se é uma data importante para o blogue, é uma data importante para nós. Não tivesse sido o Código de Barras uma parte responsável pelo nosso presente.

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Do teu sorriso

Habituei-me a ter no teu sorriso o remédio para todos os males. Mas os hábitos também têm alguns males e a tua ausência deixava-me desprevenido. Daí que tenha sentido necessidade de guardar em mim uma imagem desse sorriso. Uma espécie fraca de medicamento genérico. Algo que deixe os sintomas em estado latente até voltar a ter o verdadeiro remédio.

Deixas-me mais forte e, ao mesmo tempo, mais vulnerável.

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Folheto Informativo

Indicações terapêuticas: para qualquer ocasião, mas com especiais vantagens em dias cinzentos.

Contra-indicações: não aplicáveis.

Posologia: tomar nas doses máximas possíveis.

Efeitos secundários: em alguns casos pode verificar-se comportamento efusivo.

Sobredosagem: não aplicável.

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Mensagem de esperança em directo

Em todos os serviços noticiosos, para fugir ao habitual cenário negro (económico, politico e social), uma mensagem de esperança: um avião com mais de uma centena de pessoas tem problemas mecânicos – as razões disso também fazem parte da notícia, mas são aqui dispensáveis – e tem que aterrar de emergência; acaba por ter de o fazer num rio de águas quase geladas. Parece que não há nem um morto. Desligue-se a televisão enquanto é tempo.

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Da expressão

Da expressão

É mais fácil pintarmos  o que vemos do que o que sentimos.

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casadeosso

Chama-se assim mesmo, sem maiúsculas e sem espaços.  É o blogue de valter hugo mãe – também sem maiúsculas e dispensando apresentações – e de alguém que assina como stage blood. Conheci-o por ter passado a fazer parte da família de blogues do Público.

Uma vista de olhos rápida mostra que vale a pena. Esta entrada, por si só, já valeria. Não sei se é mesmo uma declaração, se é só o trocadilho com o título do projecto que agora integra, se é uma mistura das duas coisas. E vale, também, por isso.

Junta-se a isto o facto de o apocalipse dos trabalhadores ser o próximo livro na minha lista de leituras – se eu não sucumbir à vontade de comprar os dois volumes de O homem sem qualidades, de Musil – e a minha curiosidade pela escrita de valter hugo mãe apertar.

Tirando o acessório, é mais um blogue para espreitar.

Mesa virada para o rio

Muro dos Bacalhoeiros, Ribeira, Porto. Está feita a localização geográfica. O mais simples, diga-se.  Por palavras, tudo o resto perderá valor. Bom ambiente e decoração simples, com elementos tradicionais a misturarem-se na perfeição com elementos modernos. E esta é também a base das ementas, a cozinha tradicional reinventada: novas formas, novas combinações de sabores e apresentação cuidada. Antes que me esqueça do essencial, falo do Vinhas D’Alho. Visita obrigatória. O meu regresso, pelo menos, é.

[A escolha das senhoras foi tão acertada que ganharam o direito a escolher já o próximo.]
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Andrew Bird – The Privateers

Noble Beast [Andrew Bird]A imagem à esquerda é a capa de uma das edições – no caso, a standard – do álbum Noble Beast, de Andrew Bird, com data de lançamento europeu para dia dois de Fevereiro. Acontece que a internet é uma besta pouco nobre que não deixa a ordem natural das coisas intacta. Já  aqui tinha deixado o single Oh No, mas adianto mais um pouco do que se pode ouvir neste novo trabalho do músico de Chicago, com The Privateers. Depois de passagens por Portugal em 2005 e, mais recentemente, em 2007, aquando da promoção de Armchair Apocrypha, espera-se o regresso de Bird aos palcos nacionais, com este Noble Beast. Se assim acontecer, farei por marcar presença novamente. No entanto, dos destinos europeus, só Paris consta da agenda de espectáculos, até agora.

A quem restarem dúvidas acerca do talento deste homem, aconselho uma espreitadela a este breve momento, ao lado de Yo-Yo Ma, considerado um dos melhores violoncelistas da história –  desconhecia, confesso a minha ignorância, e agradeço ao Google.

[Passada uma semana da data de publicação, é possível que o ficheiro áudio fique indisponível.]
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Delicioso

A campanha de comemoração dos 25 anos da editora 4th Estate é “só” mais um exemplo do que a publicidade pode e deve ser. Mais de 1000 livros usados – e muito tempo e trabalho, evidentemente – para um resultado brilhante.

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What’s up, Doc?

É habitual associar-se a cenoura aos coelhos. Já viste algum coelho de óculos? É porque comem muita cenoura. O de cá de casa – só pode – é do contra!

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Do presente

Oh, just make, please make this basic inference and speak of me in the present tense.

Andrew Bird, The Privateers [Noble Beast]

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02/01

Dois de Janeiro de mil novecentos e oitenta e sete. Nome já tinhas há algum tempo. Escolhi-o eu.

          (nunca te perguntei se gostavas, agora que o lembro)

Depois disso, passaste a fazer as tuas próprias escolhas. Recordo-as com facilidade. Recordo os tachos e as panelas que substituíam os habituais brinquedos. Sentavas-te, abrias a porta do armário e era quanto bastava para te entreteres por algum tempo. Também recordo que, apesar de nunca te teres inclinado muito para a bola, lá subias comigo ao jardim para uns chutos e umas defesas. Porque eu gostava e porque tu gostavas de me agradar, percebi mais tarde. Não penses que não me orgulho desse tempo que me davas, da motivação com que te atiravas ao chão para mais uma defesa e da alegria que te movia uma palavra de incentivo minha. Jogavas mais para mim do que para ti.

Dois de Janeiro de dois mil e nove. Muitos episódios depois. Muitos risos depois. Travessuras de infância, riscos inconscientes. Sobrancelhas queimadas numa experiência desleixada, horas de espera por uma chave perdida num acampamento, uma estranha inclinação para as obras. Muitas lágrimas depois, também. Perdemos algumas pessoas que nos faziam uma falta tremenda. Entre elas está alguém que talvez não tenhas tido tempo para idolatrar, mas que eu sei que, apesar da tua idade e irreverência, respeitavas plenamente.

          (o pouco que na altura podias saber sobre as pessoas chegava-te para isso)

Em termos de perdas não nos ficámos por aqui. Infelizmente. Também nos perdemos: aos dois, ao que havia de nós, de mim em ti e de ti em mim. Nunca inteiramente, porque era impossível, mas qualquer coisa – o que para mim sempre foi muito. Quantas vezes me perguntei

          O que aconteceu aos tachos e às panelas?

          Por que razões deixámos de jogar futebol no jardim?

quando na verdade o que queria saber era o que nos tinha acontecido. Não o que se tinha metido entre ti e os tachos, não o que se tinha metido entre ti e a bola, mas o que se tinha metido entre nós.

Dois de Janeiro de dois mil e nove. Vinte e dois anos depois. É dia de te dizer que se não fiz o que podia por ti, fiz o que achei que podia e o que achei que devia na altura. Se calhar achas que o que faço é pouco. Se calhar também te perguntas

          O que aconteceu aos tachos e às panelas?

          Por que razões deixámos de jogar futebol no jardim?

quando o que querias perguntar era que raio se meteu entre nós.

          (perguntas?)

O tempo muda quase tudo. Agora talvez fizesse mais numa situação e talvez fizesse menos noutra. O que o tempo não muda é a minha vontade de querer para ti o que acho que consegues alcançar.

Dois de Janeiro de dois mil e nove. No final de contas, talvez as perguntas mais simples nos tragam as respostas que procuramos.

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