Monthly Archives: Fevereiro 2009

Adelaide [Epílogo]

Adelaide vestia preto, a cor que carregava interiormente. Não por ter perdido o amor, que esse já o tinha perdido antes de a tal onda levar Firmino, mas pelo sentimento de culpa, pelas palavras que lhe disse antes dele ter partido para a sua última faina. A culpa não morre solteira, mas pode morrer viúva.

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Adelaide [Analepse]

– É para isto que voltas, Firmino? Para te enfiares todo o dia no café? Para vires a casa comer e dormir, mais valia teres ficado em mar alto. Espera uma mulher três meses, agoniada, para depois servir de sopeira. Isto anda-me a cansar de uma maneira que não imaginas. Para a semana voltas a fazer-te ao mar e cá fico eu enfiada em casa. Se não podíamos dar um passeio juntos, se não podíamos fazer umas remodelações na sala, os dois, que é como as coisas têm mais valor. Não! Tens que sair porque há bilhar, ou porque há futebol, ou porque não sei mais o quê. Tens que ir beber. Só não tinhas era que voltar sempre aos caídos, com esse hálito e esse mau feitio. Isto não é vida para uma mulher. Não há uma onda que me livre disto? Não há bacalhau que inverta os papéis e te pesque?

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Adelaide [II]

Tanto tempo sozinha, algum dia havia de lhe dar para pensar no efeito dos produtos de limpeza: a brancura da tijoleira depois de esfregada com lixívia, sem vestígios de sujidade. E imaginou-se assim por dentro, de um branco imaculado, também ela sem vestígio de qualquer coisa que a tivesse marcado, limpa. Num gesto, sem se permitir reflectir, levou a garrafa de lixívia à boca e bebeu o suficiente para lavar o chão a três divisões.

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Adelaide [I]

Antes de adormecer, uma oração. Ao acordar, outra oração. Entre as orações, tempo para os programas da manhã, as telenovelas e as limpezas. Mesmo numa casa onde não entrava ninguém além de Adelaide, a limpeza era tarefa diária. Por vezes, o mesmo sítio era lavado pela segunda vez sem que o pó tivesse tido tempo de ali pousar. Talvez para que os apresentadores dos tais programas e as personagens das telenovelas – às vezes o mesmo actor em mais que uma personagem – pudessem testemunhar o seu asseio.

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Adelaide [Prólogo]

Um dia o mar levou-lhe o marido e com ele foram-se também as cores do seu guarda-roupa. Adelaide veste preto. Calças, saias, camisas ou camisolas. Pretas. Por vezes um lenço, ou um cachecol. Acessório garantido, apenas o terço. Também preto.

[Continua durante o dia de hoje, em entradas já agendadas.]
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Olha para tudo enquanto olho para ti. Verei tudo.

Olha para tudo...

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Educação [três tempos, três pessoas]

Passado – os pais educavam; os professores ensinavam; os alunos aprendiam.

Presente – os pais, se tiverem tempo, educam; os professores, se tiverem tempo, tentam ensinar; os alunos, se tiverem tempo e lhes apetecer, assistem às aulas.

Futuro – os pais, se os filhos os deixarem, poderão sugerir-lhes qualquer coisa; os professores, se os alunos o permitirem, poderão entrar na escola; os alunos, enquanto crianças, poderão então crescer sem as regras que tantas marcas lhes deixavam.

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Amarelo

Amarelo

João [Epílogo]

A órbita do cometa Halley há muito que estava estudada. A periodicidade do seu aparecimento na terra há muito estava definida. Aproximadamente setenta e seis anos. Algumas pessoas podiam ter a sorte de o observar a olho nu duas vezes, na melhor das hipóteses. Cidália, percebeu João sem dificuldades, era diferente. Um cometa de órbita indefinida, talvez aberta. Algumas pessoas podiam ter a sorte de encontrar uma mulher assim uma vez, na melhor das hipóteses.

João [II]

A varanda de Cidália dava para o pequeno descampado onde João gostava de assentar arraiais para as suas observações, o que fazia com que a sua curiosidade aumentasse de dia para dia. Bastava. Cidália decidiu descer do seu terceiro andar e perguntar àquele homem o que tanto lhe prendia o olhar no céu, o que via para além dos pontos brilhantes em fundo negro. As perguntas sucederam-se. João só respondeu no final, quando faltou fôlego a Cidália para continuar. Explicou-lhe que era astrónomo e tentou fazê-la entender a sua paixão. Falou-lhe em astros, planetas e galáxias com entusiasmo. Falou-lhe em nebulosas, naquela que talvez tenha sido a primeira vez que Cidália ouviu tal palavra. Se não o entendia, pelo menos mantinha-se atenta. João disse-lhe que lhe mostraria algo que só pode ser visto a cada setenta e seis anos. Poderia vê-lo sem recurso a qualquer equipamento, mas o telescópio dava uma melhor percepção do acontecimento. Nenhum deles estaria em idade de poder repetir a experiência. Isto trouxe aos olhos de Cidália um interesse infantil, uma excitação inocente. Deslumbrava-a a ideia de irrepetibilidade, quando tudo o que conhecia era rotineiro, repetitivo.

João [I]

Corria o ano de 1986 e João estava preparado para um acontecimento que poucos têm a sorte de presenciar duas vezes. O cometa Halley passaria o ponto da sua órbita mais próximo da terra.

João [Prólogo]

A astronomia era a grande paixão dele. O telescópio o melhor amigo.

[Continua durante o dia de hoje, em entradas já agendadas.]

A vida não é um filme

A vida não é um filme

A acção surge invariavelmente antes de alguém a anunciar.

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Quiz

Espécie de desafio. A que banda sonora pertence o tema que abaixo se apresenta?

Resolvido: Taxi Driver, de Scorsese.

Taxi Driver

Depois talvez tenha alguma coisa a dizer escrever sobre o filme. Se não o fizer, não será por falta de vontade.

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“As crianças acham tudo em nada, os homens não acham nada em tudo.”

CriançasGiacomo Leopardi

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Women

Women ProjectO projecto consiste em fotografar mulheres na sua vida diária e expô-las nas paredes e muros (e telhados, e comboios…) dos seus países. Com isto, pretende-se exaltar o seu papel e a sua dignidade. A fotografia à direita é só uma pequena parte (tão pequena que imperceptível, notei agora) de um excelente trabalho. Vale a pena espreitar.

[Via Amnésia]

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João Coração – Corpo de Água

Não é novo. Não é álbum. É um tema do EP Nº1 lado b (que pode ser descarregado de forma gratuita aqui) de João Coração. Depois disso já apareceu o álbum. Chama-se Nº1 Sessão de Cezimbra (escrito assim mesmo) e, apesar de me despertar curiosidade, confesso que não conheço. Ainda assim, não será fácil dizer melhor do que se diz neste Corpo de Água.

[Passada uma semana da data de publicação, é possível que o ficheiro áudio fique indisponível.]
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Agente Silva [Epílogo]

Não sei escrever sobre corrupção. Não sei escrever sobre abuso de poder. Esta história, está claro, é uma história de amor.

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Agente Silva [II]

Alice pagava sempre mais do que inicialmente lhe julgava ser possível. Ainda assim, nunca se interessou pela revisão do prazo de pagamento. O agente Silva também sabia que recebia mais do que as pequenas prestações acordadas, mas a autoridade por vezes tem de se mostrar inflexível. O prazo acordado era para cumprir.

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Agente Silva [I]

Alice entrou na vida do agente Silva em contra-mão. Como se não bastasse, seguia em excesso de velocidade. A multa era pesada. Quando o agente lha estendeu, defendeu-se dizendo que só a poderia pagar a pequenas prestações, pelo máximo de tempo possível. O agente Silva tinha a vida toda. Disse-lho e o acordo ficou ali selado.

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