Monthly Archives: Janeiro 2010

A volta ao dia em 80 mundos

– Minha senhora – disse-lhe eu -, não espere muita coerência desta volta ao dia. De facto, o que encontramos neste A volta ao dia em 80 mundos é um conjunto de textos sobre os mais variados temas, desde a música – o jazz, principalmente -, ao boxe, com as obrigatórias passagens pela literatura. Com esta escolha de escritos e imagens, Cortázar volta a mostrar-se um dos autores  mais inovadores que tive oportunidade de ler. Em O jogo do mundo, podemos encontrar dois livros, ou duas formas de ler um livro: uma primeira mais tradicional, do primeiro ao 56º capítulo, e uma segunda, começando no capítulo setenta e três e seguindo uma ordem definida numa tábua de orientação. Num dos textos que A volta ao dia em 80 mundos reúne, Julio Cortázar apresenta aquela que seria a ideia para uma máquina de ler O jogo do mundo (Rayuela). Teria a designação de Rayuela-o-matic e consistiria numa espécie de armário com o número de gavetas correspondente ao número de capítulos do livro. Depois, consoante a forma de leitura que se tivesse escolhido, as gavetas iam abrindo na sequência definida, à medida que o leitor fosse terminando cada capítulo. Outro dos pedaços interessantes desta obra é o conto A carícia mais profunda, em que um homem se vai sentindo afundar no solo sem que mais ninguém se aperceba disso. Há ainda uma interessante escolha de poemas e uma série de opiniões que nos levam a pensar que Cortázar teria sido um blogger de mão cheia.
As palavra finais vão para a Cavalo de Ferro: a edição deste A volta ao dia em 80 mundos está excelente e a notícia de que está já prevista a edição de Papéis inesperados não lhe fica atrás. Assumo-me como seguidor.

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São Tomé e Princesa

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Do futebol

O futebol é isso que vemos na imagem acima colocada. Tudo o resto é circo.

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Lições de casado

Esta não foi a primeira, nem será a última. Foi até das mais simples. Comer um kiwi dispensa agora que se descasque o fruto, bastando para tal um corte transversal e uma colher de sobremesa. Como se de um maracujá se tratasse. Pode ser coisa usual para muita gente, mas para mim foi perfeita novidade.

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Da vida

We live together in a photograph of time

Fistful of Love, Antony and The Johnsons
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Guernica [outra forma de o olhar]

[Quando uma pintura impressiona um leigo, isso quererá dizer qualquer coisa. Aconteceu comigo e com este Guernica, aquando da minha breve passagem pelo Museo Reina Sofía, já lá vão quase dois anos.]
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Inglorious basterds

Se mais provas fossem necessárias, este Inglorious basterds vem acentuar ainda mais a excelência de Tarantino enquanto realizador. Os planos são brilhantes, os enquadramentos idem. A música continua a ter honras de papel principal e a levar as cenas – com os já referidos excelentes planos e enquadramentos – a um patamar superior. Junte-se a estas imagens de marca uma história interessante, com contornos históricos e ficção à mistura, diálogos escritos de forma cuidadosa e um elenco a contar com um Brad Pitt no seu melhor, um convincente Eli Roth e um Cristoph Waltz num papelão e pouco ficará por dizer. Filmaço.

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Away we go

Em Away we go, não se pode dizer que Sam Mendes traga algo de novo. A história é a de um casal que se prepara para o primeiro filho sem aquilo a que chamam uma vida estável. Como uma gravidez traz mudanças, este é obrigatoriamente um filme de mudanças. Com o propósito de decidirem onde se vão estabelecer, onde vão formar família, Burt e Verona iniciam uma viagem com passagem por cidades onde têm família ou amigos. Do contacto com os seus anfitriões de cada local, vão-se apercebendo de que as dificuldades estão por todo o lado e que, afinal, talvez tenham mais do que é preciso para a tal estabilidade. Por ser, mais do que um filme de acção, um filme de reacção, não se espere de Away we go um filme empolgante. Ainda assim, na lenta evolução do filme e por entre uma série de lugares comuns, Sam Mendes consegue bons momentos. Ser-me-ia impossível não referir a excelente banda sonora, quase toda da responsabilidade de Alexi Murdoch.
Enquanto a barriga de Verona vai aumentando, vão-se definindo as fundações do que será a futura casa da família. O resto é uma questão de espera – And if I can’t be all that I could be, will you, will you wait for me?

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SG Saudade

Podia ser cena de filme. Não fosse o navio um navio de carga, não fosse o horizonte composto de contentores cor de ferrugem, não fossem os odores a óleo. Podia ser cena de filme, mas foi mais que isso. Num filme não caberia a saudade que se ia queimando naquele cigarro, preso entre a fuligem de dois dedos.

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Do caminho

O caminho para a felicidade não tem uma passadeira. Mas quantas ruas já atravessámos dessa forma?

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Mano a Mano

Escuto uma vez mais Mano a Mano, que prefiro a qualquer outro tango e a todas as gravações de Gardel. A letra, implacável no seu balanço da vida de uma mulher que é uma mulher da vida, contém em muito poucas estrofes «la suma de los actos» e o vaticínio infalível da decadência final. Vergado aos pés desse destino com o qual por um momento conviveu, o cantor não expressa nem cólera, nem despeito. Perturbado na sua tristeza, evoca-a e vê que foi na sua pobre vida miserável apenas uma boa mulher. Até ao fim, e apesar das aparências, defenderá a honradez essencial da sua antiga amiga. E desejará o melhor para ela, insistindo na qualificação:
Que el bacán que te acamala tenga pesos duraderos,
que te abrás en las paradas con cafishos milongueros,
y que digan los muchachos: «Es una buena mujer.»

A volta ao dia em 80 mundos, Julio Cortázar
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Festival Para Gente Sentada 2010

Fevereiro trará novamente o Festival Para Gente Sentada a Santa Maria da Feira. Na sua sexta edição, no Cineteatro António Lamoso, estão já assegurados os nomes de Bill Callahan – 26 de Fevereiro – e dos Dakota Suite – 27 de Fevereiro. Entretanto, há notícias que apontam os Camera Obscura como outro dos nomes para o segundo dia de festival. Nesta equação, a minha preferência ainda pende para o dia 26, mas com uma organização que já conseguiu trazer a Santa Maria da Feira Sufjan Stevens, Devendra, Adam Green, Patrick Wolf e Sondre Lerche isto pode mudar num instante.
Como aperitivo, fica aqui Eid Ma Clack Shaw, do último álbum de Bill Callahan, Sometimes I Wish We Were An Eagle.

[Actualização: Cartaz completa-se com Perry Blake e MV & EE no primeiro dia e Noiserv a juntar-se aos dois nomes já anunciados para o dia 27.]
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Contos – Tchékhov

Numa primeira incursão pelos autores russos, duvido que a escolha pudesse ter sido mais acertada. Nesta meia dúzia de contos de Tchékhov fica à vista a uma escrita simples, mas capaz de grandes impressões no leitor. Sobre o autor, terá escrito Nabokov que escrevia livros tristes para pessoas alegres; quero dizer com isto que só um leitor com sentido de humor será capaz de sentir a fundo a tristeza deles. Há escritores que emitem um som intermédio entre o riso abafado e o bocejo — muitos deles, a propósito, são humoristas profissionais. (…) O humor de Tchékhov é alheio a isso tudo; é um humor puramente tchekhoviano. O mundo, para ele, é cómico e triste ao mesmo tempo, e sem repararmos na sua comicidade não compreenderemos a sua tristeza, porque são inseparáveis. Esse humor, nesta selecção de contos, está mais presente em O testa-branca, que termina com um velho guarda a tentar explicar a um cão que se entra pela porta. Em O beijo, não deixa de ser cómica a excitação de um capitão por um beijo que recebeu de uma mulher que não conseguiu ver e a construção mental que vai fazendo dessa mulher. Cómica e enternecedora ao mesmo tempo, com o capitão a tentar encontrar em cada mulher que via traços que pudessem ajustar-se à atmosfera vivida no breve momento do beijo.
Entre estes contos está ainda outra verdadeira pérola, A senhora do cãozinho. Nesta história de adultério, um homem próximo dos quarenta anos, casado e já com três filhos, envolve-se com uma mulher mais nova, também casada, que passava uns dias sozinha em Ialta. A um primeiro encontro seguiram-se sucessivas viagens entre as cidades em que cada um vivia. A gestão entre as duas vidas que viviam – a pública, do conhecimento de todos, e a secreta, que faziam por esconder – começa a complicar-se com a multiplicação dessas deslocações.
Em todos estes contos, há uma autenticidade incrível. Revisitar Tchékhov é já uma certeza.

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É uma série e é fora de série

Digo-o em relação à Série Ípsilon II. É uma série porque é distribuída à razão de um filme por semana. É fora de série porque tem Juno, que vi e achei excelente. É então uma série porque tem periodicidade. É fora de série porque tem Climas, que tanto queria ter visto. Basicamente, é uma série sempre pela mesma razão. Já as justificações para que se possa considerar fora de série são, no mínimo, vinte.

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Horse Feathers – Heathen’s kiss

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Do coração

Trazemos ao peito um relógio por acertar. Coisa de somenos: ao peito, interessa mais a resistência do que a precisão.

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In the mood for love

aqui tinha escrito que achava o supramencionado filme de Wong Kar-Wai um autêntico poema. Daí que o tenha visto com grande satisfação entre as escolhas de três de quatro críticos do Público para os filmes da década.

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Imperdível [em três takes]

A coisa já não é recente, mas confesso que só hoje me dei conta de tamanha pérola. O atraso não lhe retira valor. Passou-se numa praia de Matosinhos e contou com abioins, conbersaj delicadaj e uma despedida no mínimo enigmática – brák iú, fokers. Começou por ser assim. Foi motivo de paródia, aqui. A despedida? Passo a explicar.

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Era pedir muito?

Que este pequeno filme chegasse às salas do Porto?

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Tentativa de resumo de uma década

Dez anos são uma enormidade de momentos. Muitos deles não se conseguem descrever em menos de uma carrada de linhas. Resumir aqui a minha década, então, será sempre um exercício falível. Arrisco de forma a ser o menos injusto possível e resumo-a a uma pessoa. O resto tinha mesmo que acontecer.

[Ocorreu-me a partir de um outro resumo.]
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