O Mundo Alucinante

Servando Teresa de Mier, reza a história, foi um frade mexicano. Consta também que um seu sermão foi o suficiente para colher inúmeros inimigos e consequentes problemas. Por altura dos festejos do aniversário da aparição da Virgem de Guadalupe, com uma audiência bem representativa dos poderes da altura, questionou o argumento da evangelização que os espanhóis usavam para justificar a conquista e destruição das civilizações nativas. Daí ao exílio foi um instante. Sucessivas fugas e detenções levaram Servando a viajar por Espanha, França, Portugal, Itália, Inglaterra, Estados Unidos e Cuba. Se a parte mais biográfica da vida deste frade mexicano já estava bem entregue aos historiadores, é mais que evidente que este tipo de resumo ignora muita coisa. O mais importante, talvez.

A História recolhe a data de uma batalha, os mortos que ilustraram a mesma, quer dizer, o evidente. Estes temíveis memoriais resumem (e bastante) o fugaz. O efeito, não a causa.

Reinaldo Arenas, apercebendo-se das potencialidades de uma personagem como Servando Teresa de Mier, tratou de juntar a estas notas históricas toda a ausente e necessária metáfora.

Por isso, mais do que na História, procuro no tempo. Nesse tempo incessante e diverso, o homem é a sua metáfora. Porque o homem é, afinal, a metáfora da História, a sua vítima, mesmo quando aparentemente procure modificá-la e, segundo alguns, o faça.

O resultado desse exercício é este O Mundo Alucinante, série de entusiasmantes aventuras e desventuras de um frade que, pela imaginação de Reinaldo Arenas, vai construindo uma realidade alternativa na qual acabarão por caber todas as outras. Afinal, ao escritor cubano interessava apenas o romance.

Esta é a vida de frei Servando Teresa de Mier, tal como foi, tal como pode ter sido, tal como eu gostaria que tivesse sido. Mais do que um romance histórico ou biográfico pretende ser tão-só um romance.

Tal como o mundo, é um livro alucinante.

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2 thoughts on “O Mundo Alucinante

  1. Liliana Cardoso diz:

    Eu amei! Já te tinha dito ???? ;o)

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  2. António diz:

    É uma narrativa brutal, no sentido perfeito que brutal tem.

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