O Coração das Trevas

Depois da leitura de Nostromo, o regresso à obra de Conrad era inevitável. Em O Coração das Trevas, referência obrigatória na bibliografia do autor de origem polaca, encontram-se algumas semelhanças com o livro anteriormente referido: volta a contar-se uma história de marinheiros – o facto de Conrad se ter feito ao mar aos dezassete anos não será alheio a esta influência; aborda-se de novo a colonização de uma terra; a mina, que era fonte de riqueza em Nostromo, dá lugar ao marfim; em ambos há um personagem de grande reputação, força motriz de cada uma das narrativas.
A viagem ao coração da selva africana é na verdade uma viagem ao lado mais escuro do coração humano. É possível reparar que Marlow, o narrador desta história, se vai transformando à medida que o vapor vai subindo o rio. De forma semelhante, Kurtz – o notável Sr. Kurtz – vai morrendo lentamente assim que se vai afastando da densa selva.
O Coração das Trevas é, tal como Nostromo, uma brilhante e pessimista caracterização do homem. Apesar da maior notoriedade do primeiro, que chegou a servir de inspiração a Francis Ford Coppola para o seu Apocalypse Now, a leitura de Nostromo acaba por se revelar mais envolvente e colocar mais em evidência a qualidade de Conrad enquanto escritor – um escritor que, pasme-se, aprende inglês depois dos vinte anos e se notabiliza a escrever nessa língua. Obrigatório.

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