Monthly Archives: Agosto 2010

Arcade Fire – The Wilderness Downtown

Receita para uma experiência singular:
Junte-se ao tema We Used to Wait uma parte de vídeo; acrescentem-se uns quantos efeitos; adicionem-se imagens reais do local onde crescemos; sincronize-se tudo. Aconselha-se visualização em Google Chrome (vai dando com um ou outro browser, ainda assim), com o volume bem alto. Está tudo aqui.

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Correios

No seu primeiro romance, Bukowski dá o protagonismo a Henry Chinaski, personagem que se convence de que encontrou a vocação ao segundo dia de trabalho. À medida que se vai avançando na leitura de Correios, a história de um vai-se confundindo com a do outro, até que nos apercebemos de que Chinaski é uma espécie de alter ego de Bukowski, que assim vai fazendo o auto-retrato do tempo em que viveu como funcionários dos correios. Não são de estranhar, portanto, as constantes referências ao excesso de álcool, ao jogo e às mulheres. Seguimos, em pouco mais de duzentas páginas, as frustrações de um homem que, entre as décadas de cinquenta e setenta, tem dificuldade em seguir uma vida condizente com os padrões sociais de então. Apesar disso, Bukowski consegue oferecer-nos uma leitura leve e divertida, recorrendo muitas vezes ao humor. O livro termina onde um dia começou:

De manhã, era manhã e eu ainda estava vivo.
Talvez escreva um romance.
E foi o que fiz.

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Ensaio sobre a ambiguidade das palavras

[Via Bibliotecário de Babel]
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A vocação segundo Bukowski

Começou por engano.
Estávamos na época de Natal e o bêbedo lá de cima, que costumava fazer sempre essa jogada no Natal, disse-me que eles se estavam nas tintas e que contratavam quem quer que fosse; então, lá fui eu e, quase sem dar por isso, já andava com um saco de cabedal às costas, de um lado para o outro, nas calmas. Que belo trabalho, pensei. Leve! Davam-nos apenas um ou dois quarteirões e, se conseguíssemos acabar, o carteiro dava-nos mais um, ou então regressávamos ao posto e o chefe dava-nos outro; mas a única coisa que se fazia era enfiar aqueles postais de Natal nas ranhuras, sem pressa.
Julgo que foi no meu segundo dia como trabalhador temporário de Natal que aquela mulher grande saiu e me acompanhou enquanto eu entregava as cartas. Quando digo que ela era grande, refiro-me ao facto de ter um grande cu e umas grandes mamas e de ser avantajada em todos os sítios certos. Não parecia bater muito bem, mas eu ia olhando para o corpo dela sem me preocupar com isso.
Ela falava, falava, falava. Até que chegou ao cerne da questão. O seu marido era um oficial, destacado numa ilha longínqua, e ela sentia-se só, estão a ver, e vivia naquela casinha ao fundo, completamente sozinha.
– Que casinha? – perguntei.
Ela escreveu a morada num bocado de papel.
– Também me sinto só. Apareço hoje à noite para conversarmos – disse eu.
Eu vivia com uma tipa, mas ela passava a maior parte do tempo fora, sabe-se lá onde, e eu realmente sentia-me só. Sentia-me só quando olhava para aquele grande cu, mesmo ali ao meu lado.
– Muito bem, encontramo-nos hoje à noite – disse ela.
Ela era mesmo das boas, uma boa queca; mas como acontece sempre com as boas quecas, comecei a perder o interesse a partir da terceira ou da quarta noite e já não voltei mais.
No entanto, não conseguia deixar de pensar que a única coisa que aqueles carteiros faziam era entregar cartas e dar quecas, caraças. Este é o trabalho certo para mim, sem dúvida.

Correios, Charles Bukowski
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Bon Iver na voz de outros

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Uma história geométrica

Está escrito em muitos livros que, num determinado plano, dois pontos bastam para definir uma recta. Foi com base nesse pressuposto que apenas tivemos de escolher um sentido e seguir caminho. E se uma recta se pode dividir num número infinito de segmentos, a verdade é que uns se fazem com maior dificuldade e outros se conseguem ultrapassar com uma perna às costas. Coube-nos em sorte uma maior parte destes últimos. Como quem conta um conto acrescenta um ponto, aproxima-se o dia em que poderemos formar um triângulo amoroso.
(Sinal disso é o raio da barriga continuar a aumentar.)
A definição de triângulo pressupõe que a soma dos seus ângulos perfaça 180º, o que não deverá andar longe da volta que a nossa vida deverá tomar. Inicialmente, terás de me perdoar se o triângulo se te afigurar escaleno e o teu lado não for o maior, mas prometo que não será coisa para demora. Perceberás, pouco depois, que haverá nessa forma dois lados iguais e um mais pequeno a olhar por eles.
A partir desse ponto, o pouco engenho que me foi necessário para esta série de metáforas geométricas não será suficiente para dar continuidade a esta parábola.

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A uns trocos de distância

É uma boa notícia para quem gosta de música e é também uma boa notícia para quem não pode gastar muito – quem pode, hoje em dia? All Delighted People, o mais recente trabalho de Sufjan Stevens, está à distância de cerca de 4€. É um EP, mas os oito temas que o compõem proporcionam uma hora de música. Como se não bastasse, Sufjan disponibilizou All Delighted People para audição completa. Não satisfeito, adianta ainda as suas habitualmente complexas letras. Melhores notícias só se o músico de Detroit decidisse passar pelos palcos portugueses.
Por enquanto, fica o possível:

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Style is the answer to everything

Enquanto a leitura de um extenso clássico de Thomas Mann se arrasta e continua sem fim à vista, há sempre tempo para umas breves leituras paralelas. É o espaço que, enquanto interessado pela prosa, encontro para a poesia. Por estes dias, dei de caras com um poema de Charles Bukowski (relembrou-me que tenho Correios em lista de espera) dito por Ben Gazarra, numa cena de um filme também baseado numa história do autor. Mais que o filme (Tales of Ordinary Madness, de Marco Ferreri, do qual se diz que Bukowski não gostou), mais do que a interpretação de Gazarra, prendem as palavras de Style.

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Se vivesse em Lisboa já tinha programa para a manhã de Sábado

É que José Mario Silva, por muitos conhecido como Bibliotecário de Babel, vai oferecer – sim, leram bem, oferecer – umas boas centenas de livros. Bastará aparecer no Miradouro do Monte Agudo e escolher. Como gostava de saber de iniciativas semelhantes em que pudesse participar, só me restava passar a palavra. Os detalhes estão aqui. É de aproveitar.

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Sexta-feira treze

Sexta-feira treze. Diz-se que é dia de azar, mas até hoje nunca tive prova disso. Podia agarrar-me à coincidência de ser o último dia de férias e de já ter regresso ao trabalho marcado para segunda-feira, mas isso tinha que acontecer fosse em que dia fosse.
Sexta treze, quarta sete, terça vinte.
Mantém-se o calor, agora aligeirado por uma brisa fresca. Últimos cartuchos. Dia para ser bem aproveitado, com direito a muito banho de sol e ao já habitual mergulho nocturno. Dia de preparar as malas. Não há azar, em casa esperam-nos dias que há muito queremos.

[Dan Auerbach – Goin’ Home]
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Antony and the Johnsons – Thank You For Your Love

Swanlights, o álbum que sucederá a The Crying Light, tem lançamento previsto para Outubro. Thank You For Your Love, o EP que antecederá Swanlights, tem lançamento previsto para o final deste mês. Foi-me difícil não sentir uma certa urgência em perceber o sentido que este novo trabalho de Antony Hegarty tomaria. Sem desilusão – apesar de saber a muito pouco -, fica por aqui Thank You For Your Love, tema que dá título ao primeiro single do aguardado álbum.

[Haverá melhor título para te agradecer os meus dias?]
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Do interior alentejano ao litoral algarvio

A estratégia estava montada há algum tempo e ditava que a viagem teria início bem cedo, a fim de se evitarem as horas de maior calor. Não passou muito tempo até se entrar numa localidade com princípio e final à vista e com o curioso nome de Venda da Porca. A atenção só voltou a despertar quando surgiu o Bairro das Flores, que de florido tinha pouco ou nada. Estamos a falar de uma viagem feita em Agosto, mas isso não quer dizer que uma emissora de rádio não possa lançar um tema de Natal. Entretanto, uma paragem numa estação de serviço serve para relembrar a temperatura exterior, própria para secar roupa no corpo. No mesmo local fica-se a saber que até para ir à casa de banho é mais complicado ser-se mulher. Sem necessidade de prova, repete-se o já habitual roubo na hora de comer qualquer coisa. Dois sumos e dois bolos pagam-se com uma nota de dez, quase sem direito a troco. Foi já depois de Almodôvar que o filme se repetiu, com o espírito natalício a entrar em cena fora de tempo. (Corta)
Chegando ao Algarve a que alguém quis acrescentar uma letra, nota-se que o verde foi sucumbindo à força do turismo e da urbanização. O horizonte a perder de vista já só se volta a encontrar no quarto do hotel, virado para o mar.
Do interior alentejano ao litoral algarvio foram pouco menos de três horas. Pouco mais de dez linhas.
(Do interior alentejano ao litoral algarvio, menos uma semana para o que se espera ser uma barrigada de felicidade.)

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É coisa para pôr as mãos no fogo

Escondes a barriga do sol, mas não a escondes de mais ninguém, como também não escondes o instinto maternal que já existe nesse gesto. Instinto que trazias em ti ainda antes da evidente barriga, por mais dúvidas que disso possas ter. É coisa para pôr as mãos no fogo.

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Da música

Acabou de definir na perfeição um aspecto indubitavelmente ético da natureza da música: pela sua capacidade particularmente dinâmica de medir a passagem do tempo, ela consegue dotá-lo de valor e de espírito vivo e crítico. A música desperta o tempo e desperta-nos para a sua mais fina fruição, a música desperta… nesta perspectiva, podemos afirmar que é ética. A arte é ética na medida em que desperta. Mas o que sucede quando actua em sentido contrário? Quando entorpece, anestesia e se ergue como barreira à actividade e ao progresso? Também disso é capaz a música, também ela consegue exercer perfeitamente os efeitos da droga. Uma influência diabólica, meus senhores! A droga é obra do diabo, a droga só produz apatia, obstinação, inacção e torpor servil… Há qualquer coisa de duvidoso na música, meus amigos. Continuo convicto da sua natureza ambígua. Não exagero de modo algum ao considerá-la politicamente suspeita.

Thomas Mann, A Montanha Mágica

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Ray LaMontagne & The Pariah Dogs – For the Summer

Agosto será o mês do lançamento de God Willin’ & The Creek Don’t Rise, o sucessor de Gossip in the Grain. Ray LaMontagne, que agora se faz acompanhar pelos The Pariah Dogs, tem vindo a apresentar o álbum aos poucos: começou por dar a conhecer o single Beg Steal or Borrow, avançou pouco depois com a divulgação de The Devil’s in The Jukebox e disponibilizou ainda For The Summer para download gratuito, via Amazon. É quanto baste para ter a certeza de que não desapontará.

Ray LaMontagne & The Pariah Dogs – For the Summer

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O sítio certo

[Há monstros e monstros. Assustassem todos assim.]

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Tempo há muito esperado

Uns dias de descanso, tempo para o primeiro sol do ano (já deixou marcas, aliás) e para a leitura de um calhamaço (tem custado a arrancar, verdade se diga). Mais esperado, sem sombra de dúvida, só o tempo para esta barriga.

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