A vocação segundo Bukowski

Começou por engano.
Estávamos na época de Natal e o bêbedo lá de cima, que costumava fazer sempre essa jogada no Natal, disse-me que eles se estavam nas tintas e que contratavam quem quer que fosse; então, lá fui eu e, quase sem dar por isso, já andava com um saco de cabedal às costas, de um lado para o outro, nas calmas. Que belo trabalho, pensei. Leve! Davam-nos apenas um ou dois quarteirões e, se conseguíssemos acabar, o carteiro dava-nos mais um, ou então regressávamos ao posto e o chefe dava-nos outro; mas a única coisa que se fazia era enfiar aqueles postais de Natal nas ranhuras, sem pressa.
Julgo que foi no meu segundo dia como trabalhador temporário de Natal que aquela mulher grande saiu e me acompanhou enquanto eu entregava as cartas. Quando digo que ela era grande, refiro-me ao facto de ter um grande cu e umas grandes mamas e de ser avantajada em todos os sítios certos. Não parecia bater muito bem, mas eu ia olhando para o corpo dela sem me preocupar com isso.
Ela falava, falava, falava. Até que chegou ao cerne da questão. O seu marido era um oficial, destacado numa ilha longínqua, e ela sentia-se só, estão a ver, e vivia naquela casinha ao fundo, completamente sozinha.
– Que casinha? – perguntei.
Ela escreveu a morada num bocado de papel.
– Também me sinto só. Apareço hoje à noite para conversarmos – disse eu.
Eu vivia com uma tipa, mas ela passava a maior parte do tempo fora, sabe-se lá onde, e eu realmente sentia-me só. Sentia-me só quando olhava para aquele grande cu, mesmo ali ao meu lado.
– Muito bem, encontramo-nos hoje à noite – disse ela.
Ela era mesmo das boas, uma boa queca; mas como acontece sempre com as boas quecas, comecei a perder o interesse a partir da terceira ou da quarta noite e já não voltei mais.
No entanto, não conseguia deixar de pensar que a única coisa que aqueles carteiros faziam era entregar cartas e dar quecas, caraças. Este é o trabalho certo para mim, sem dúvida.

Correios, Charles Bukowski
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One thought on “A vocação segundo Bukowski

  1. […] Bukowski dá o protagonismo a Henry Chinaski, personagem que se convence de que encontrou a vocação ao segundo dia de trabalho. À medida que se vai avançando na leitura de Correios, a história de um vai-se confundindo com a […]

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