Monthly Archives: Março 2011

Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo

Calculo, uma vez que nunca tinha lido nada de Murakami, que este não seja o seu registo habitual. Calculo e presumo, agora que terminei este Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo. Neste livro, o autor japonês dá-se a conhecer através de algumas experiências enquanto desportista e faz uma análise paralela à sua tardia ocupação como escritor. As exigências a que um maratonista está sujeito, quando bem encaradas e superadas, podem ser muito benéficas para quem pretende escrever romances de grande fôlego. Num registo descontraído, ficamos a conhecer o início de vida de Haruki Murakami e alguns traços fortes da sua personalidade. Sem se centrar muito no aspecto literário, o autor deixa perceber também um pouco do seu processo criativo: como lhe surgem as ideias, como as vai registando e como gere a cadência de escrita.
Este Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo é, desta forma, um livro que pode interessar aos seguidores da sua obra, funcionando como uma espécie de aproximação entre o leitor e o autor. A quem nunca lhe leu nada, poderá servir de nota introdutória para o que dele poderá vir a ler. Terminadas estas breves memórias, a minha curiosidade aponta em direcção a Em Busca do Carneiro Selvagem.
Termino com um reparo à edição portuguesa quanto à adaptação do título original, What I Talk About When I Talk About Running. Se este pretendia ser uma homenagem a Raymond Carver, autor de What We Talk About When We Talk About Love (deve estar para chegar ao correio, a propósito) e escritor que Murakami admira, não teria sido possível uma tradução mais fiel, a exemplo do que acontece com a tradução portuguesa de Carver?

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Fleet Foxes – Grown Ocean

[Os Pecknold são assim: Robin dá música, Sean cria o vídeo.]

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Sítios difíceis de esquecer [I]

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A vida encarrega-se de o comprovar

A coisa mais importante que aprendemos na escola é, se querem saber o que eu penso, que as coisas mais importantes não se podem aprender na escola.

Haruki Murakami, Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo
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Cara lavada

Já estava na altura de mudar o aspecto ao estaminé. Pretende-se a mesma simplicidade e um ar mais fresco – daí o fundo branco, os cinzas e o laranja que tanto me agrada. Espero que, ultrapassada a estranheza da mudança, também gostem.

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Vem aí o Apocalypse

Refiro-me ao próximo álbum de Bill Callahan, que tem edição prevista para Abril. O músico norte-americano levantou a ponta do véu e disponibilizou um tema do trabalho que sucederá a Sometimes I Wish We Were An Eagle (a responsabilidade é grande portanto). Chama-se Baby’s Breath e é um excelente indicador.

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Basicamente, é isto

Luxação Acromioclavicular grau 3

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Uma coisa é estar habituado ao horário de trabalho, entrar de manhã e chegar ao final do dia. Outra coisa  é passar um mês a olhar por ti, a olhar para ti. Uma coisa é estar habituado a deixar-te um abraço de manhã e a só voltar a fazê-lo ao final do dia. Outra coisa é ter-te a toda a hora. Abraços, beijos, sorrisos, gargalhadas e as pequenas conquistas de quem ainda tem tudo para aprender. Uma coisa é a saudade de um dia que se passa fora. Outra coisa é a saudade de um mês que passou rápido demais.

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A posta cíclica

[De tempos em tempos, sem necessidade do que quer que o justifique, Andrew Bird tem que marcar presença nesta página.]
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Para não deixar passar em branco o dia mundial da poesia [III]

Poema de Cesárea Tinajero, personagem de Os detectives selvagens, de Roberto Bolaño
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Para não deixar passar em branco o dia mundial da poesia [II]

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges, Os meus livros
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Para não deixar passar em branco o dia mundial da poesia [I]

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir! Sinta quem lê!

Fernando Pessoa, Isto
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Ponto Ómega

Don DeLillo foi um daqueles casos que me prendeu ao primeiro livro. Foi com o magistral Submundo que fiquei a conhecer a escrita deste prolífico autor norte-americano – Ponto Ómega é o seu 16º romance e o 11º a ser editado em Portugal. Essa primeira leitura foi suficiente para querer conhecer um pouco mais da obra de DeLillo. Ruído branco, O homem em queda e Os nomes foram os títulos que logo me saltaram à vista. Quis o destino que este recém-editado Ponto Ómega, por força da ideia presente na sua sinopse, tivesse prioridade sobre estes últimos.

No deserto do Arizona. Um jovem realizador obcecado com uma ideia para um filme: um único plano-sequência, uma única personagem. Frente à câmara e encostado à parede (“como num assalto ou num fuzilamento”), está Richard Elster, um intelectual que, ao serviço do Pentágono, traçou a cartografia conceptual da Guerra do Iraque (“eu queria uma guerra em haiku… uma guerra em três versos”). Quando a filha de Elster entra em cena, o fio da conversa filosófica dos dois homens é abruptamente cortado e a dinâmica da história conhece uma dramática inflexão.

O livro começa por nos transportar para uma sala do MoMA. Aí, um homem contempla 24 Hour Psycho, uma vídeo-instalação de Douglas Gordon, que consiste em nada mais do que a projecção do original Psycho de Hitchcock a uma velocidade de dois fotogramas por segundo, fazendo-o durar umas exactas vinte e quatro horas. Nesta fase, a capacidade descritiva de DeLillo é levada ao expoente máximo. Segue-se a visita do jovem realizador a Elster. Entre o convite para a participação num filme invulgar – um único plano-sequência, uma única personagem -, entre o aparecimento e o desaparecimento da filha de Elster, é da consciência, do tempo e da percepção que dele temos que se fala. O romance termina da forma como começa, na sala do MoMA em que se projecta 24 Hour Psycho.
Ponto Ómega está na rota oposta de Submundo. O primeiro é uma reflexivo, introspectivo; o segundo é activo e reactivo. O primeiro é voltado para dentro; o segundo quer abarcar toda uma época norte-americana.
Em Ponto Ómega a escrita de Don DeLillo não apresenta mácula, mas depois de Submundo é difícil dizer que entusiasmou. A sua leitura, ainda assim, é uma empreitada que vale bem a pena.

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Nós|Eles

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Literatura do sono

Falo durante o sono, sempre falei, a minha mãe dizia-mo em pequeno e não preciso de que ninguém mo diga agora, eu sei-o, ouço-me, e isto é o mais significativo, alguém devia fazer um estudo do que as pessoas dizem enquanto dormem, e provavelmente alguém já o fez, um paralinguista qualquer, porque é mais relevante do que as milhentas cartas particulares que um homem escreve ao longo da sua vida e é também literatura.

Don DeLillo, Ponto Ómega
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Elliott Smith – She won’t look at me

[A rede tem destas coisas. Hoje foi dia de encontrar um link com cinco temas inéditos de Elliott Smith. Este é um deles.]
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Os detectives selvagens

Arturo Belano e Ulisses Lima são os personagens principais deste romance (que, como já aqui referi com espanto, tem largas dezenas deles) e os fundadores de um movimento poético – o real visceralismo. O grupo de poetas alarga-se, mas de fora do movimento são poucos a atribuir-lhe importância. No início de 1976, com o pretexto de encontrar uma poeta esquecida, Lima e Belano partem numa viagem pelo México, ao volante de um Impala. A eles, juntam-se García Madero, real visceralista de 17 anos, e Lupe, uma jovem prostituta que pretende fugir da vida que levava. É esta viagem que precipita toda a história de Os detectives selvagens. Depois de, em 2666, ter posto críticos literários em busca do escritor Archimboldi (aqui também referido, mas como Arcimboldi), Bolaño repete a fórmula, sem repetir a obra.
A estrutura das mais de quinhentas páginas do romance está dividida em três partes: a primeira relatada em forma de diário, a segunda composta por depoimentos de quem se cruzou com Arturo Belano e Ulisses Lima e a terceira novamente em registo de diário.
Lidos o excelente 2666 e o menos ousado O terceiro reich, esta foi a melhor forma de regressar à escrita deste autor. Roberto Bolaño tem neste livro mais uma (arriscaria dizer que a maior) prova da sua brilhante capacidade narrativa.

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Quem é vivo sempre aparece

No passado dia 8, durante um concerto dos irlandeses Glen Hansard e Liam Ó’Maonlaí, apareceu um outro irlandês que não tem dado notícias (as últimas referiam uma participação na produção do álbum de estreia de Mélanie Laurent). O homem subiu ao palco e brindou os presentes (e os que agora têm a possibilidade de espreitar o YouTube) com uma música nova. O segundo e último álbum de Damien Rice, 9,  foi editado em 2006. Cinco anos depois, este novo tema traz consigo a suspeita de que possa estar a ser preparado um novo disco. Por aqui, é o que se espera. Isso e uma passagem por palcos portugueses.

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O sismo do Japão em imagens

A realidade que o país do sol nascente vive  nestes dias, e que temos tido oportunidade de seguir detalhadamente em diversos meios de comunicação, está bem retratada no The Big Picture (para não variar). Excelente selecção fotográfica.

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Previsão meteorológica: chuva

Eu não sei, olha, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que a esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e vê-se que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.
Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada de cair e aniquilar-se. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.

Julio Cortázar, O esmagamento das gotas
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