Ser Malraux não é um curso

Há alguns dias, a fumar com insónia às três da manhã, escrevi a Enrique perguntando-lhe inefavelmente as suas influências como escritor. Há duas, pelo menos, tanto quanto sei.
A primeira aconteceu quando ele tinha dezasseis anos, num cinema barcelonês, na noite em que estrearam o filme A Noite, de Antonioni, com os actores Marcelo Mastroianni e Jeanne Moreau. No ecrã, o galã Mastroianni era e tinha as duas coisas que o então jovem Vila-Matas queria ser e ter: era um escritor e tinha uma mulher estupenda. Começou a adorar a imagem pública desses seres estranhos a quem chamavam escritores, em especial Boris Vian, Albert Camus, Scott Fitzgerald e André Malraux; todos, percebes, escreveu-me ele, pela sua fotogenia, não pelo que pudessem ter escrito. Quando o meu pai me perguntou, nessa altura, o que é que eu queria estudar (ele tinha a certeza secreta de que eu queria ser advogado), respondi-lhe imediatamente que pensava ser como Malraux. O meu pai guardou silêncio. Lembro-me muito bem da sua cara de espanto. Ser Malraux, disse-me, irritado, confundido, não é um curso, isso não se estuda na universidade.

Eduardo Halfon, O anjo literário
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