Monthly Archives: Maio 2011

Em defesa de Jorge Jesus

Não vale a pena negar, Jorge Jesus recebeu mesmo luvas. Isso aconteceu tanto na transferência de J. César como na de Roberto. No entanto, o treinador encarnado foi o enganado no meio desta história: com as luvas, era suposto terem chegado também os guarda-redes.

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O tigre branco

Premiado com o Man Booker Prize 2008, O tigre branco é o romance de estreia de Aravind Adiga e apresenta-nos a Índia que não aparece nos folhetos turísticos. Balram (ou Munna) é o protagonista desta história e é ele quem, sob a forma de cartas ao primeiro-ministro chinês, nos vai contando como se tornou num empresário do lado luminoso da Índia, tendo nascido e crescido na escuridão do mesmo país. Esse relato leva-nos a descobrir a gritante desigualdade entre pobres e ricos: os primeiros – e mais abundantes – vivem em condições sub-humanas e, para sobreviver, vêem-se obrigados a ser criados toda a vida; os últimos vivem como querem, fazem dos criados o que entendem e ainda lhes sobra o suficiente para corromper quem for necessário. Sob a luz de um candelabro, Balram prepara o primeiro-ministro chinês para o que poderá esperar do país que se prepara para visitar e, sempre num registo irónico, vai-o ambientando à “democracia” indiana e pondo a par do crescimento desmesurado das suas principais e luxuosas cidades e da pobreza extrema das restantes zonas. Nesta correspondência, são ainda traçadas algumas comparações entre a Índia e a China e chega a fazer-se uma curiosa previsão: dentro de vinte anos, seremos apenas só nós, homens amarelos e homens castanhos no alto da pirâmide, e daí haveremos de governar o mundo.
A escrita de Aravind Adiga é muito directa e crua (não se espere deste O tigre branco um exercício de escrita sublime), o que ajuda a criar um retrato acutilante deste país emergente e das suas gentes. Este é um livro que interessará sobretudo a quem manifestar interesse na Índia e na sua tão distinta cultura – das tradições às crenças, religiosas ou não.

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Da paternidade #11

Declinar um convite para assistir a um concerto deste homem. Também faz parte.

[Mais uma vez, obrigado pelo convite.]

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Liberdade

Foi com Correcções, em 2001, que Jonathan Franzen conseguiu a atenção generalizada, mas foi com o recente Liberdade que se afirmou como uma das principais vozes (porque também as há escritas) do seu país. É o escritor norte-americano da moda. Do pequeno desentendimento com a mediática apresentadora Oprah Winfrey à reconciliação, da escolha de Liberdade para leitura de férias por parte de Barak Obama, à capa da Time (que não escolhia um escritor norte-americano para a sua capa desde 2000), com o título de Great American Novelist, tudo contribuiu para o hype que se seguiu. As referências a Franzen multiplicaram-se e de todos os cantos do mundo se leram rasgados elogios à sua escrita.
Nas mais de seiscentas páginas deste Liberdade, acompanhamos a família Berglund e vamos sentindo na pele as suas vivências. É um livro sobre o quotidiano – a Time vai mais longe e afirma que é o principal romance sobre o quotidiano. Seguimos de perto o crescimento das personagens, as suas certezas, as suas inseguranças e dúvidas, as suas escolhas e os seus arrependimentos. Acompanhamos relações amorosas que num instante passam da tranquilidade ao tumulto e vice-versa. Somos levados a confirmar as crescentes dificuldades nas relações entre pais e filhos – as razões para isso são incontáveis, mas Franzen atira-se a esse exercício com bravura – e a verificar que, ainda assim, continuam a ser esses os laços mais fortes. Liberdade é (roubo a definição do que Lobo Antunes pretende da escrita) uma parte da vida entre as capas de um livro.
Na caracterização das personagens, Franzen segue a linha de autores como DeLillo, e é exaustivo sem ser cansativo. Não se limita a criar uma jovem morena e astuta, que podia ser imaginada de mil e uma maneiras diferentes; prefere construir cada uma das personagens com detalhe, conferindo a cada uma delas uma identidade muito própria. Assim, Walter, Patty, Joey ou Richard Katz, alguns dos protagonistas deste romance, não serão idealizados de maneira muito diferente de leitor para leitor. É também por esta característica que o livro, apesar de extenso, consegue ler-se quase de um fôlego. A determinada altura, estamos a ler a história de gente que conhecemos bem.
Acrescentaria ainda o que já foi escrito por José Mário Silva: há parágrafos e frases de fino recorte em quase todas as páginas, o que diz muito da qualidade da escrita de Franzen.
O The Guardian classifica Liberdade como o romance do ano e do século e refere-o como sendo um clássico moderno. Não quero cometer o erro de exagerar e digo apenas que é, realmente, excelente.

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Bon Iver, Bon Iver

Por estes lados, é o álbum mais esperado do ano. Junho será o mês da revelação total, mas já é possível ouvir e fazer o download de Calgary.

[Para os mais curiosos, a capa do álbum é uma pintura de Gregory Euclide]

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Sexta-feira 13 é dia de sorte

A sorte de se encontrar uma Black Cab Session com um Michael Kiwanuka com influência de Otis Redding, carregado de soul e com uma ligeira inclinação para o jazz.

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Da (in)sustentabilidade

– As crianças sempre representaram o significado da vida. Apaixonamo-nos, reproduzimo-nos, e depois os nossos filhos crescem, apaixonam-se e reproduzem-se. A vida sempre serviu para isso. Para a gravidez. Para mais vida. Mas agora o problema é que mais vida continua a ser bela e significativa a nível individual, mas para o mundo como um todo significa apenas mais morte. E também não significa uma morte agradável. Estamos a olhar para a perda de metade das espécies mundiais, nos próximos cem anos. Estamos à beira da maior extinção em massa desde, pelo menos, a passagem do Cretáceo para o Terciário. Vamos assistir primeiro ao desaparecimento completo dos ecossistemas mundiais, depois a uma fome cataclísmica e/ou doenças e/ou assassínios. Aquilo que ainda é «normal» a nível individual torna-se hediondo e sem precedentes a nível global.

Jonathan Franzen, Liberdade
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Uma guitarra e pouco mais [basta]

[Via Slowcoustic]
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1, 2, experiência

Está iminente o arranque de uma iniciativa que visa levar livros  ao Facebook, para que estes possam ser lidos aí, de uma forma mais interactiva (com o ganho da interactividade, outras coisas se perderão, seguramente). A primeira experiência arrancará em breve, com O bom inverno, de João Tordo. O projecto é da Leya e, ultrapassados os primeiros problemas (acontece em tudo o que é novidade), desperta curiosidade. Não substituirá, nem passará a perna ao tradicional formato em papel e, descansem os profetas da desgraça, não acabará com o hábito de leitura, mas pode ser uma experiência engraçada.
É aqui que tudo se vai passar.

[Via Bibliotecário de Babel]
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Mulheres

Nesta obra de Charles Bukowski, o protagonista (e narrador) volta a ser Henry Chinaski. Em Correios, este relatava as suas dificuldades em encaixar na sociedade, a sua pouca predisposição para o trabalho e a sua queda para a bebida, o jogo e as mulheres. No final do livro, conhece-se o seu abandono da carreira de funcionário público e adivinha-se a sua iniciação enquanto escritor. Em Mulheres, acompanhamos o Henry Chinaski já poeta (poeta menor, como o próprio se intitulava), com direito a algum reconhecimento e com todo o tipo de facilidades, apesar da idade e do alcoolismo, com as mulheres.
Percebe-se rapidamente que Bukowski volta a servir-se de Henry Chinaski para um misto de romance e autobiografia, uma vez que não podemos dissociar os principais acontecimentos da vida de personagem e autor, desde as origens, à semelhança do nome (Henry Charles Bukowski), passando pelo alcoolismo, à década vivida como funcionário dos correios, à carreira literária iniciada tardiamente, até às mulheres que o acompanharam – Tanya e Sara, por exemplo, são personagens de Mulheres que se reconhecem de relacionamentos do autor.
Nas mais de trezentas páginas em que se registam episódios da vida do personagem, abundam – e sobram, diria mesmo – referências a sexo. A leitura pode tornar-se algo repetitiva (cerveja, sexo, cerveja, sexo, shots, sexo, whisky…) e as descrições detalhadas podem ferir o leitor mais susceptível. No entanto, é nas entrelinhas que se pode ler o essencial, um debruçar sobre as dificuldades dos relacionamentos, o amor e a solidão.

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A ficção, por Henry Chinaski, poeta menor

«Eu escrevo ficção.»
«O que é ficção?»
«Ficção é um aperfeiçoamento da vida.»

Charles Bukowski, Mulheres
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