Liberdade

Foi com Correcções, em 2001, que Jonathan Franzen conseguiu a atenção generalizada, mas foi com o recente Liberdade que se afirmou como uma das principais vozes (porque também as há escritas) do seu país. É o escritor norte-americano da moda. Do pequeno desentendimento com a mediática apresentadora Oprah Winfrey à reconciliação, da escolha de Liberdade para leitura de férias por parte de Barak Obama, à capa da Time (que não escolhia um escritor norte-americano para a sua capa desde 2000), com o título de Great American Novelist, tudo contribuiu para o hype que se seguiu. As referências a Franzen multiplicaram-se e de todos os cantos do mundo se leram rasgados elogios à sua escrita.
Nas mais de seiscentas páginas deste Liberdade, acompanhamos a família Berglund e vamos sentindo na pele as suas vivências. É um livro sobre o quotidiano – a Time vai mais longe e afirma que é o principal romance sobre o quotidiano. Seguimos de perto o crescimento das personagens, as suas certezas, as suas inseguranças e dúvidas, as suas escolhas e os seus arrependimentos. Acompanhamos relações amorosas que num instante passam da tranquilidade ao tumulto e vice-versa. Somos levados a confirmar as crescentes dificuldades nas relações entre pais e filhos – as razões para isso são incontáveis, mas Franzen atira-se a esse exercício com bravura – e a verificar que, ainda assim, continuam a ser esses os laços mais fortes. Liberdade é (roubo a definição do que Lobo Antunes pretende da escrita) uma parte da vida entre as capas de um livro.
Na caracterização das personagens, Franzen segue a linha de autores como DeLillo, e é exaustivo sem ser cansativo. Não se limita a criar uma jovem morena e astuta, que podia ser imaginada de mil e uma maneiras diferentes; prefere construir cada uma das personagens com detalhe, conferindo a cada uma delas uma identidade muito própria. Assim, Walter, Patty, Joey ou Richard Katz, alguns dos protagonistas deste romance, não serão idealizados de maneira muito diferente de leitor para leitor. É também por esta característica que o livro, apesar de extenso, consegue ler-se quase de um fôlego. A determinada altura, estamos a ler a história de gente que conhecemos bem.
Acrescentaria ainda o que já foi escrito por José Mário Silva: há parágrafos e frases de fino recorte em quase todas as páginas, o que diz muito da qualidade da escrita de Franzen.
O The Guardian classifica Liberdade como o romance do ano e do século e refere-o como sendo um clássico moderno. Não quero cometer o erro de exagerar e digo apenas que é, realmente, excelente.

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