Monthly Archives: Junho 2011

Rabos de lagartixa

Conhecedor da exigência literária de António Lobo Antunes, não pude hesitar em pegar num livro que tem a sua aprovação gravada na capa – diz o autor português que Juan Marsé é «sem dúvida o maior romancista vivo de Espanha». Como se isto não bastasse, basta abrir o livro para voltar a esbarrar numa elogiosa comparação de Michael Eaude, do The Independent, que reconhece na escrita do espanhol semelhanças com a de Faulkner. Assim, foi com elevada expectativa que iniciei a leitura deste Rabos de lagartixa.
Nas mais de trezentas páginas deste romance, seguimos a vida de personagens muito bem construídas, densas e intensas. A narrativa é feita de avanços e recuos, de realidade e imaginação, mas nunca deixa de prender. Faz, de facto, lembrar qualquer coisa de Faulkner e também faz lembrar qualquer coisa de Lobo Antunes. O imaginativo David, a sua mãe grávida e o seu pai desaparecido compõem o núcleo desta história, na qual também têm papel importante um inspector da polícia e um amigo de David. Há ainda a curiosa personagem de um piloto da RAF que se encontra numa fotografia na parede do quarto do jovem protagonista de Rabos de lagartixa.
A linguagem de Marsé é riquíssima, a escrita envolvente e a história muito bem conseguida. Chegados ao final do livro, a expectativa criada pelos elogios estampados na sua capa confirma-se plenamente.

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Todos os nomes

Chama-se Amanda Bergman, mas também responde pelos nomes de Hajen, Idiot Wind e Jaw Lesson. Essa escolha é de menor importância, uma vez que o talento já a escolheu a ela.

[Ainda assim, Amanda Bergman e Hajen parecem-me colar melhor na sua sonoridade.]
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A riqueza de uma descrição da pobreza

Grãos, lentilhas, batatas, papas de farinha.Consigo enumerar estas coisas e cheirá-las na memória com a mesma gratidão e respeito com que a mamã o faria, acariciá-las com as mãos e a voz da mamã. O bacalhau de molho. O velho moinho de café. A banha de porco a derreter-se na sertã, e tantas outras coisas com a sua estranha vocação de camuflagem, a sua teimosa propensão para estarem onde não devem: os torrões de açúcar na molheira desbeiçada, as lentilhas numa caixa de bolachas, as batatas num alguidar de zinco, os alhos num boião de cacau. A pobreza, lembra-te, irmão, a nossa fiel companheira destes anos, que a ruiva assumiu com tanta coragem e contra a qual nunca disparatou, a pobreza, que tem mil caras e se manifesta de mil maneiras também significa isso, lembra-te: que, apesar da limpeza e da ordem que ela impõe à sua volta com a maior presteza e energia, as coisas nunca parecem estar no seu lugar, andam sempre por aí a ocupar com uma porfia insidiosa o lugar que um dia coube a outras. E, no entanto, no meio do seu aparente extravio, assim dispostos no seu mundo de precárias aparências, nenhum desses objectos foi despojado da sua identidade, pelo contrário, todos parecem mais próximos e necessários e o seu trato mais cordial, como a imagem chamuscada e imprecisa do piloto, que um dia esteve onde era preciso juntamente com as recordações talvez mais íntimas e melhor guardadas da mamã, e que hoje, muito depois de ter passeado o seu sorriso impertinente pelas capas de uma revista alemã editada em espanhol, se assoma amigavelmente ao quarto de dormir de um adolescente sonhador numa remota paragem do Guinardó.

Juan Marsé, Rabos de lagartixa
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Se há coisa que não podia falhar aqui…

… era um novo tema de Andrew Bird. Que o álbum esteja aí à espreita.

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Dupla metáfora

Hoje, o coração caiu-me ao chão.

(mas não se partiu, como cantam os Xutos)

A humilhação

O pano sobe, os focos voltam-se para Simon Axler, aclamado actor do teatro americano e, de um dia para o outro, o talento deixa de subir ao palco com ele. A partir daí, está dado o mote para este livro de perdas: perdem-se capacidades, perde-se confiança, perde-se estabilidade, perde-se o amor próprio e a vontade de viver. No seu trigésimo livro, Philip Roth volta a debruçar-se sobre a condição humana com a habilidade que já lhe havia sido reconhecida em Todo-o-Mundo. Em A humilhação, o recente vencedor do International Man Booker Prize, consegue essa proeza com uma impressionante poupança de palavras. As pouco mais de cem páginas do livro lêem-se num ápice e, no final, não parece haver um parágrafo deslocado, coisa que apenas está ao alcance de um escritor dotado e experimentado.
Lidos Todo-o-Mundo, O Complexo de Portnoy e este A humilhação, fica garantida a atenção para outros dos seus títulos que aguardam vez na prateleira. É questão de tempo.

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Sentir na pele

Quando um actor representa o papel de alguém que está a desmoronar-se, fá-lo com organização e coerência; quando é ele próprio que está a desmoronar-se, e representa o papel do seu próprio fim, isso é outra coisa, uma coisa transbordante de terror e medo.

Philip Roth, A humilhação
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Outra vez Beirut?

Claro. Não se justifica?

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Correr às voltas

Sentiu-se realizado enquanto maratonista até ao dia em que se cruzou com aquela mulher numa prova. Desde então, sonha em ser corredor de pista e, descobrindo-a na bancada, passar por ela repetidas vezes.

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Guerra e paz – Livro I

Um clássico é um clássico e, neste caso particular, o primeiro dos quatro livros que o compõem é suficiente para ter a noção da grandeza da obra. Nesta parte inicial, Tolstói faz o enquadramento histórico e social da época, apresentando e caracterizando detalhadamente as personagens que nos acompanham nas páginas seguintes. Assim que se dá início ao cenário de guerra (com Napoleão do outro lado da contenda) já nos são bem familiares o príncipe Andrei, Rostov e Pierre. O rigor das descrições de Tolstói é impressionante e, sem dificuldade, imaginamo-nos transportados para as batalhas que se vão dando.
A guerra é vista por cada uma das personagens que seguimos de perto de forma distinta. Aí, quando a fronteira entre o conhecido e o desconhecido é tão ténue, ficam à vista os medos e o que de mais autêntico há nas motivações de cada um e vêem-se abaladas as maiores certezas.

«Que é do céu alto que eu dantes não conhecia, que só hoje vi? – foi o seu primeiro pensamento – Também não conhecia este sofrimento – pensou. – Não, não sabia nada, até hoje não sabia nada. Mas onde estou?»

«Não há nada, nada de certo além da miséria de tudo o que me é compreensível e da grandeza de algo que me é incompreensível mas que é muito importante!»

O Livro I desta edição de Guerra e paz termina com uma vitória de Napoleão, mas com a certeza de muitas batalhas em aberto.
É impossível não ficar empolgado com a escrita de Tolstói, é impossível não ficar próximo das personagens que compõem a história e é impossível não se querer ir além deste primeiro livro e acompanhar o seu desenlace. Obrigatório.

(Por não ter os livros que se seguem, sou obrigado a fazer um intervalo que, tenho a certeza, será breve.)
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O já habitual selo de qualidade La Blogothèque

[J. Tillman com a companhia de alguns amigos dos Fleet Foxes.]
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Guerra sem paz

É que, ao aproximar-me do final do primeiro livro desta edição da obra de Tolstói, verifico que não me ofereceram os seguintes.
(chama-se a isto atirar o barro à parede)

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Assembleia Sexy

A Assembleia Sexy, a acreditar no enredo do filme A Rede Social, é muito semelhante a uma das ideias iniciais de Mark Zuckerberg, antes de surgir o Facebook que hoje conhecemos. Nesse caso, os duelos eram entre as alunas de um campus universitário, enquanto que neste Assembleia Sexy os duelos são, como o próprio nome sugere, entre deputados. Fiquei a conhecer o site através de um comentário a uma entrada recente e achei que valia a pena divulgar.
É política até para quem não gosta de política.

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O que um dia teria que ficar escrito

Escrevi, há já algum tempo, meia dúzia de linhas acerca do que devemos procurar na pessoa que queremos ter ao nosso lado durante o resto da vida. Fi-lo recorrendo a exemplos de guerra. Hoje, porque me parece importante não adiar o que um dia teria que ficar escrito, sei que fiz a escolha acertada. Sei que, como escrevi ser necessário, ficarás comigo sob fogo cerrado, que não recuarás, não te renderás à primeira demonstração maior de força e sei que nem pensarás duas vezes quando tiveres que me transportar ao ombro. Pronto, está escrito o que temia poder ficar esquecido na rotina ou nas surpresas que os dias nos preparam. Aproveito para acrescentar o que, na altura em que escrevi a tal meia dúzia de linhas, não me parecia indispensável, mas que hoje me enche de orgulho.
(não sei por que razões o amor se dá tanto a analogias bélicas, mas a verdade é que dá e não vou evitar outra)
Admiro a tua disponibilidade para dares o corpo às balas por quem gostas – ainda que, como creio acontecer grande parte das vezes, essa protecção não seja merecida. É coisa ao alcance de poucos. Diz a história, e estou em condições de o confirmar, que todos muito especiais.

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Da tristeza de muitos portugueses

Os resultados eleitorais da noite de ontem não  tiraram Portugal da situação em que se encontrava. As dificuldades vieram para durar e, se um novo governo se prepara, nada nos garante que este esteja à altura das circunstâncias – a mudança acarreta sempre essa incerteza. No entanto, quando se sabe que se está num mau caminho, não me parece mal experimentar um atalho que não se conhece. A meio deste, porque só os burros não mudam de opinião, há sempre a hipótese de voltar a fazer o mesmo.
Se pouca coisa mudou com as eleições de ontem, diferenças há que dificilmente conseguem passar despercebidas. Ontem, foi afirmado que os dias que se avizinham não serão fáceis. Ontem, foi-nos confessado que há muitos sacrifícios que ainda terão que ser feitos. Ontem, fomos avisados de que não vivemos num mar de rosas. Ontem, não se prometeu a criação de 150 mil empregos. Ontem, não se prometeu retirar 300 mil idosos da pobreza. Ontem, não nos quiseram vender a ideia de vivermos num país que não é o nosso. Para mim, que me habituei (ou me vi forçado a isso, para ser mais preciso) a ser politicamente pouco exigente, isso já faz toda a diferença.
Acredito que para muitos portugueses o resultado eleitoral tenha sido triste. O português, que conhecemos bem por razões óbvias, identifica-se naturalmente com o chico-espertismo necessário para conseguir uma licenciatura ao domingo, com a postura ditatorial necessária para fazer calar vozes contrárias, com a distinta lata (e perceber-se-á adiante que “lata”, aqui, é eufemismo) necessária para dizer que se vai fazer x, quando é certo e seguro que só se poderá fazer y. O português identifica-se naturalmente com sorrisos e palavras irónicas e identifica-se também com a capacidade de anunciar mundos, quando apenas se retocaram os fundos. Esse bocadinho do português (que é herança genética, não é defeito) perdeu ontem, com natural tristeza de quem o estima.

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A arte da guerra

«Um passo para além desta linha, que lembra a linha que separa os vivos e os mortos – e é o desconhecido, os sofrimentos e a morte. O que está lá? Quem está lá? Lá, por trás deste campo, desta árvore, deste telhado iluminado pelo sol? Ninguém o sabe, e há o desejo de saber; é assustador ultrapassar esta linha, e há o desejo de a ultrapassar e ficar a saber o que há do outro lado, tal como é inevitável ficar a saber-se o que há do outro lado da morte. E eu sou forte, saudável, alegre e irritadiço, e estou rodeado por pessoas igualmente saudáveis e animadas pela sua irritação.» Assim pensa, e se não pensa de certeza sente, qualquer homem que esteja em frente do inimigo, e este sentimento dá um brilho especial e uma claridade alegre a tudo o que acontece nestes momentos.

Lev Tolstói, Guerra e Paz – Livro I
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Visita relâmpago à Feira do Livro do Porto

O calor que se fazia sentir apenas permitiu aproveitar a habitual promoção da Leya. Assim, a lista de livros a ler viu-se engrossada pelos títulos abaixo listados. A promoção era Leve 4 pague 3, mas a verdade é que o pequenote já me fez concorrência e trouxe de lá o clássico Os três porquinhos.

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Eles “andem” aí

East Harlem é o novo single dos Beirut, com lançamento previsto para segunda-feira. O álbum, espera a banda e esperam os fãs, não deve passar do Verão. Aqui, canta-se a mentira, mas o que se escreve é verdade.

[Via Pitchfork]

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Duas breves notas

A primeira é que para tudo há um intervalo, excepto para reuniões/congressos. Nesses casos, há coffee break. A última aponta aos nuestros hermanos: continua a ser doloroso ouvi-los falar inglês.

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