Monthly Archives: Julho 2011

Vá para fora cá dentro

[Breve playlist para o arranque das férias.]
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Os livros e as estrelas

Na sua centésima edição, a revista Os Meus Livros publicou uma lista de obras literárias que, no decorrer da sua existência e na opinião dos seus colaboradores, mereceram as tão desejadas cinco estrelas. Nessa mesma edição, ficou a promessa de publicar a lista completa, desta feita no blogue da revista. Promessa cumprida. Dessa extensa lista (com 412 entradas), verifiquei que li vinte livros. Destes, apenas a metade atribuiria as cinco estrelas. A um ou outro chegaria mesmo a atribuir três estrelas. Retiro daqui duas conclusões. Um: na literatura, a distinção entre o bom e o mau não oferece grande contestação, mas na distinção entre o bom e o excelente (com o muito bom pelo meio) entra muito muito de pessoal, muito daquilo de que é feito o próprio leitor; dois: a Biblioteca de Babel saída da cabeça de Jorge Luís Borges talvez seja uma ideia utópica, mas a verdade é que já li qualquer coisa e ainda não li nada.

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Fico meio preocupado

Fico meio preocupado quando leio comparações destas e dava-me por satisfeito que o rapaz fosse inteiramente profissional. O jeito para a bola parece lá estar.

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Coisas que nunca julguei ver

The National e Beirut. Matt Berninger e Zach Condon. Tão bom e tão improvável que até parece um Fake empire.

[Via TwentyFourBit. Uma vez mais.]
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Tudo o que eu tenho trago comigo

É no final do livro, no posfácio, que se encontram as razões que levaram Herta Müller a escrevê-lo. O facto de a sua mãe ter passado cinco anos num campo de trabalho russo certamente não foi alheio. Em 2001, começou a registar testemunhos de pessoas que tinham passado pela mesma experiência, entre as quais se encontrava Oskar Pastior. Das conversas regulares, nasceu a vontade de escreverem um livro em conjunto. No entanto, Oskar acaba por falecer em 2006, deixando Herta com quatro cadernos de anotações. A morte de Oskar foi um choque para a escritora, pela proximidade que entretanto tinham ganho. Um ano depois, o impulso para escrever o romance a título pessoal impôs-se. Em boa hora, dirá o leitor destas quase trezentas páginas.
Cinco anos num campo de trabalho russo não são coisa fácil de descrever e Herta Müller percebeu que documentar não bastava. Assim, cometeu a inimaginável proeza de juntar aos registos de Oskar uma poesia que dificilmente se associa às penosas vivências destes deportados. O facto é que essa poesia acaba por ser o trunfo desta obra. É ela que dá corpo à história, que agarra o leitor e que o faz sofrer na pele dos personagens. Cinco anos num campo de trabalho russo não podem ser resumidos a fome e a saudades de casa.

Temos piolhos na cabeça, nas sobrancelhas, na nuca, nas axilas, nos pêlos da púbis. Temos percevejos na armação da cama. Temos fome. Mas não dizemos: Tenho piolhos e percevejos e fome. Dizemos: Tenho saudades de casa. Como se nós precisássemos.

Cinco anos num campo de trabalho russo, ainda que penosos, árduos e tortuosos, revelam tesouros.

Pequenos tesouros são aqueles em que está escrito: Aqui estou eu.
Maiores tesouros são aqueles em que está escrito: Ainda te lembras.
Os tesouros mais belos, contudo, são aqueles em que estará escrito: Também lá estive.

Terminada a leitura de Tudo o que eu tenho trago comigo, o leitor sentirá que lá esteve.

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Da força da palavra

Sentei-me à mesa e esperei pela meia-noite. E a meia-noite chegou, mas a patrulha estava atrasada. Ainda tiveram de passar mais três horas, foi quase insuportável de aguentar. Depois chegaram. A mãe segurou-me o sobretudo debruado a veludo preto. Enfiei-me nele. Ela chorou. Calcei as luvas verdes. No corredor, precisamente onde fica o contador do gás, a avó disse: EU SEI QUE VOLTAS.
Não foi por um acto de vontade que fixei esta frase. Inadvertidamente, levei-a comigo para o campo. Não tinha qualquer consciência de que sempre me acompanhou. Mas uma frase assim é independente. Teve em mim maior influência do que todos os livros que tivesse trazido. EU SEI QUE VOLTAS tornou-se o cúmplice da pá do coração e o adversário do anjo da fome. Porque voltei, é-me permitido dizê-lo: Uma frase destas mantém uma pessoa viva.

Herta Müller, Tudo o que eu tenho trago comigo
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7 anos desta brincadeira

Ontem passou-me completamente, mas a verdade é que sete anos já não podem passar sem uma pequena referência.
Isto é muito feito a pensar no umbigo, mas sabe bem ter por cá visitas. Obrigado.

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Iron & Wine

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Predadores

Narrado em avanços e recuos desde 1974 a 2004, Predadores faz o retrato de um país que, conseguida a independência, se viu a braços com muitos outros problemas. A paz tardou em chegar, as lutas internas continuaram a ser muitas e a corrupção e o tráfico de influências passaram a ser os meios preferênciais para o enriquecimento pessoal de uns e, em consequência, a desgraça de outros. Vladimiro Caposso, angolano natural do Catete (ou do Calulo?), é um dos que aproveita bem a instabilidade do país e, recorrendo aos já referidos métodos ilícitos, passa de rapaz do musseque a detentor de chorudas contas em bancos estrangeiros. Enquanto acompanhamos os relatos desta ascensão, são-nos dados a conhecer os problemas de muitos outros angolanos (a maioria, verdade seja dita), alguns deles pisados pelo próprio protagonista. Há um contraste gritante entre os luxos a que alguns se permitem e a miséria em que outros se vêem obrigados a viver. Vladimiro Caposso é a figura central de uma história que é a sua e é a do seu país.
De facto, Pepetela consegue com este livro o retrato de uma época que viveu e de uma terra que muito bem conhece, mas fica aquém do que a história permitia. As personagens são construídas e descritas muito superficialmente, com notório prejuízo para o resultado final. De entre todas elas, talvez só a de Nacib, jovem que vive um amor platónico pela filha de Caposso (tão no limite do lugar-comum), seja devidamente explorada. O autor, Prémio Camões em 1997, começa por trazer às páginas de Predadores alguma da cor e dos cheiros da sua pátria. O decorrer da narrativa, no entanto, fá-lo esquecer esse traço tão característico da escrita angolana (consideração que faço, essencialmente, pelo que li de Ondjaki) que inicialmente se lhe nota.

… daquela trepadeira de que ambos gostavam que tinha florzinhas lilases e o cheiro da mesma cor.

Não se pode dizer que Predadores seja tempo mal empregue, mas fica a sensação de prometer sempre mais do que realmente consegue dar.

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O “midwest” não é selvagem

William Elliott Whitmore, rapaz do Iowa, canta Everything Gets Gone.

[Via Slowcoustic.]
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Aprender a nadar

– I thought um, you and I, maybe we could go away somewhere. Together. One of these days. Today. Right now. Come with me.
– No, I don’t think that’s going to be possible.
– Why not?
– Um, because I think that if we go away to someplace together, I’m afraid that, ah, one day, maybe not today, maybe, maybe not tomorrow either, but one day suddenly, I may begin to cry and cry so very much that nothing or nobody can stop me and the tears will fill the room and I won’t be able to breath and I will pull you down with me and we’ll both drown.
– I’ll learn how to swim, Hanna. I swear, I’ll learn how to swim.

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A fabulosa personagem de Amélie Poulain


Conheci-a por te ter conhecido. Conheci-te melhor por conhecê-la.

[Para ambas, ainda que para uma personagem fictícia seja naturalmente mais fácil, a palavra-chave é dar.]
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Coração débil

Este não será o título mais conhecido de Fiódor Dostoiévski, mas também não será a pior forma de começar a sua obra. Publicado em 1848, ainda antes da condenação de que foi alvo, Coração débil já evidenciava o que se diz ser o traço principal da escrita de Dostoiévski, o existencialismo. A história, que se centra nas personagens de Vássia Chumkov e de Arkádii Ivánovitch, coloca o leitor no centro de uma grande amizade e obriga-o a viver intensamente as emoções e sentimentos de cada um deles – desde a felicidade de encontrar o amor, à sensação de culpa por falhar um compromisso profissional. As duas principais figuras deste Coração débil colocam-se constantemente em questão e, desta forma, vão expondo os seus conflitos interiores a um leitor que, por isso mesmo, vê cada vez mais difícil a tarefa de separar a narrativa da afeição que sente pelas personagens (facto já anteriormente sentido na obra de Tólstoi, curiosamente também russo). Pelo crescente interesse que vai motivando e pelas suas escassas páginas, esta é uma leitura que se faz de um só fôlego e deixa uma enorme vontade de desbravar, entre outros, os reconhecidos O idiota (leitura assumida como inevitável desde a peça de Nekrosius) e Os irmãos Karamazov.

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Home sweet home

É música nova para os Mumford & Sons (o álbum, previsto para o final do ano, já promete) e diz-se que se poderá chamar Home.

[Via TwentyFourBit, o suspeito do costume.]
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Estrela distante

A acção de Estrela distante passa-se durante os últimos anos de governação de Salvador Allende e o golpe militar que conduziu à ditadura de Pinochet. Como acrescento histórico, no entanto, o livro faz pouco mais do que outros (recordo A sombra do que fomos, de Luis Sepúlveda). Enquanto romance, reconhece-se o traço de Bolaño, a sua capacidade narrativa e a forma de nos prender a personagens sempre interessantes e enigmáticas. Nesta obra, encontramos uma fórmula já habitual no autor chileno, consistindo a maior parte da história na procura do poeta Ruiz-Tagle (ou Carlos Wieder?). Esse já tinha sido o ponto de partida de 2666, com o alvo a ser o romancista Archimboldi, e de Os detectives selvagens, este centrado na poetisa Cesárea Tinajero. Talvez por ter estes dois últimos títulos como termo de comparação, é difícil não confessar que Estrela distante deixa a desejar. Se a ordem de leitura tivesse sido outra, talvez não houvesse motivo para este desabafo, mas a excelência das obras já citadas a isso obriga. Ainda assim, não deixa de ser um livro interessante e de leitura agradável.
O que mais incomoda neste Estrela distante é a edição pouco cuidadosa (e já não falo da capa, que descai para o piroso), que chega a desgastar com a quantidade de pequenas gralhas. Nota não brilhante, mas positiva, para Bolaño; nota negativa para a Teorema.

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In these arms


Há cinco anos, por esta altura, tudo se preparava para o que acontece hoje. Como se nada estivesse nas nossas mãos e assim o tivéssemos que aceitar. Correu bem. Tem corrido muito bem.

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