Predadores

Narrado em avanços e recuos desde 1974 a 2004, Predadores faz o retrato de um país que, conseguida a independência, se viu a braços com muitos outros problemas. A paz tardou em chegar, as lutas internas continuaram a ser muitas e a corrupção e o tráfico de influências passaram a ser os meios preferênciais para o enriquecimento pessoal de uns e, em consequência, a desgraça de outros. Vladimiro Caposso, angolano natural do Catete (ou do Calulo?), é um dos que aproveita bem a instabilidade do país e, recorrendo aos já referidos métodos ilícitos, passa de rapaz do musseque a detentor de chorudas contas em bancos estrangeiros. Enquanto acompanhamos os relatos desta ascensão, são-nos dados a conhecer os problemas de muitos outros angolanos (a maioria, verdade seja dita), alguns deles pisados pelo próprio protagonista. Há um contraste gritante entre os luxos a que alguns se permitem e a miséria em que outros se vêem obrigados a viver. Vladimiro Caposso é a figura central de uma história que é a sua e é a do seu país.
De facto, Pepetela consegue com este livro o retrato de uma época que viveu e de uma terra que muito bem conhece, mas fica aquém do que a história permitia. As personagens são construídas e descritas muito superficialmente, com notório prejuízo para o resultado final. De entre todas elas, talvez só a de Nacib, jovem que vive um amor platónico pela filha de Caposso (tão no limite do lugar-comum), seja devidamente explorada. O autor, Prémio Camões em 1997, começa por trazer às páginas de Predadores alguma da cor e dos cheiros da sua pátria. O decorrer da narrativa, no entanto, fá-lo esquecer esse traço tão característico da escrita angolana (consideração que faço, essencialmente, pelo que li de Ondjaki) que inicialmente se lhe nota.

… daquela trepadeira de que ambos gostavam que tinha florzinhas lilases e o cheiro da mesma cor.

Não se pode dizer que Predadores seja tempo mal empregue, mas fica a sensação de prometer sempre mais do que realmente consegue dar.

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One thought on “Predadores

  1. Menphis diz:

    Eu gostei bastante deste livro. É um livro altamente politico, por isso deixa um pouco daquela poesia saborosa africana de lado, mas é um livro que mexe connosco.

    Gostar

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