Da força da palavra

Sentei-me à mesa e esperei pela meia-noite. E a meia-noite chegou, mas a patrulha estava atrasada. Ainda tiveram de passar mais três horas, foi quase insuportável de aguentar. Depois chegaram. A mãe segurou-me o sobretudo debruado a veludo preto. Enfiei-me nele. Ela chorou. Calcei as luvas verdes. No corredor, precisamente onde fica o contador do gás, a avó disse: EU SEI QUE VOLTAS.
Não foi por um acto de vontade que fixei esta frase. Inadvertidamente, levei-a comigo para o campo. Não tinha qualquer consciência de que sempre me acompanhou. Mas uma frase assim é independente. Teve em mim maior influência do que todos os livros que tivesse trazido. EU SEI QUE VOLTAS tornou-se o cúmplice da pá do coração e o adversário do anjo da fome. Porque voltei, é-me permitido dizê-lo: Uma frase destas mantém uma pessoa viva.

Herta Müller, Tudo o que eu tenho trago comigo
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