Monthly Archives: Agosto 2011

Decálogo más uno, para escritores principiantes

I. No busquen ser originales. El ser distinto es inevitable cuando uno no se preocupa de serlo.

II. No intenten deslumbrar al burgués. Ya no resulta. Éste sólo se asusta cuando le amenazan el bolsillo.

III. No traten de complicar al lector, ni buscar ni reclamar su ayuda.

IV. No escriban jamás pensando en la crítica, en los amigos o parientes, en la dulce novia o esposa. Ni siquiera en el lector hipotético.

V. No sacrifiquen la sinceridad literaria a nada. Ni a la política ni al triunfo. Escriban siempre para ese otro, silencioso e implacable, que llevamos dentro y no es posible engañar.

VI. No sigan modas, abjuren del maestro sagrado antes del tercer canto del gallo.

VII. No se limiten a leer los libros ya consagrados. Proust y Joyce fueron despreciados cuando asomaron la nariz, hoy son genios.

VIII. No olviden la frase, justamente famosa: 2 más dos son cuatro; pero ¿y si fueran 5?

IX. No desdeñen temas con extraña narrativa, cualquiera sea su origen. Roben si es necesario.

X. Mientan siempre.

XI. No olviden que Hemingway escribió: “Incluso di lecturas de los trozos ya listos de mi novela, que viene a ser lo más bajo en que un escritor puede caer.”

[Retirado daqui, enquanto se vai avançando na leitura de O Estaleiro. Uma tradução possível (pt-br), aqui.]
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Da paternidade #12

Anda um pai a criar um filho para isto: de manhã, quando me preparo para um último beijo de despedida,  já o pirata me acena repetidos adeus e me fecha a porta.

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Sem rumo

Considerado pela revista The New Yorker como um dos melhores escritores com menos de quarenta anos, Joshua Ferris tem em Então chegámos ao fim, finalista do National Book Award, o seu trabalho mais reconhecido.
Em Sem rumo (o original The Unnamed dificulta a tradução directa), Ferris conta a história de Tim, um advogado de sucesso que supera por duas vezes uma estranha doença: sem escolher hora ou lugar, o seu corpo impele-o a andar até à exaustão. O regresso desses episódios, que o levam a avançar pelo mais rigoroso Inverno de t-shirt ou a abandonar uma sala de tribunal perante o espanto de quem assiste, vem trazer dificuldades a um casamento até então sem qualquer motivo de preocupação. Também no trabalho se complicam as explicações para repetidas ausências e comportamentos invulgares. É nesta altura de conflitos interiores que tudo se põe à prova. Posta a nu a ideia base deste romance, resta dizer que é o que nele há de melhor. A escrita de Ferris é, em grande parte do livro, mais leve do que seria expectável e cai, a espaços, em exageros desnecessários. Numa ou noutra altura parece também uma escrita precipitada: espicaça o leitor com determinada passagem, desperta-lhe a curiosidade para o que se poderá seguir e depois fecha-a de forma abrupta, sem desenvolvimento ou conclusão. O último quarto do livro, onde o protagonista inicia um diálogo introspectivo (talvez fosse mais correcto chamar-lhe monólogo, ainda que Tim insista na independência da outra voz), acaba por minimizar a sensação de desilusão. É a partir daí que Tim força os seus limites e entra numa procura desenfreada, primeiro por si próprio, depois pela sua mulher e pelo que os uniu durante mais de vinte anos. Essas páginas finais, no entanto, não chegam para salvar um romance que tantas vezes parece sem rumo.

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Jorge Luis Borges

O Google não deixa escapar uma data. Hoje, lembra-nos que seria o 112º aniversário deste brilhante autor. O doodle (termo que designa o logótipo do motor de busca) é, mais uma vez, excelente.

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E nós, quem somos?

E nós, quem somos?

[Via Bibliotecário de Babel, via Livreira Anarquista.]

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Mais querer que pernas

Aconteceu esta madrugada com os Sub-20. Confesso que não segui toda a competição com a atenção devida e que alguns dos jogadores nacionais me eram mesmo desconhecidos, mas a verdade é que o jogo de ontem me deixou excelente impressão de quase todos (muitos deles, pelo menos). Mostraram atitude, espírito de sacrifício e cabeça. Mostraram futebol, também. Mika é muito seguro, Mário Rui é discreto e muito eficaz, Pelé é uma força da natureza, Nélson Oliveira (sozinho deu que fazer a três defesas de cada vez, até estourar) é mais jogador que muitas das carradas de estrangeiros que se vão buscar e Sérgio Oliveira idem. Faço ponto mas não termino, isto porque falta falar de Danilo. Havia um de cada lado e só conhecia (por força das notícias em torno da sua contratação pelo FC Porto) o canarinho. A valer apenas pelo jogo de ontem, preferia ter o português. Foi determinado e quase sempre perfeito no que fez. O quase prova que é humano e também erra, evidentemente.
Portugal jogou em alta rotação, sempre com muito querer. O Brasil foi uma equipa mais calma. Portugal perdeu porque não foi possível ter pernas para jogar da mesma forma do início ao fim. Perdeu o jogo, mas ganhou o respeito de quem os acompanhou. Ainda que as vitórias morais não interessem para nadinha, este grupo de jogadores sem tiques e manias de vedeta está de parabéns.

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A roupagem certa


Se o tema já andava a roçar a perfeição, o vídeo vem assentar-lhe como uma luva.

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A arte da sobrevivência

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Quarto Chambre Zimmer Room

Começo o dia com uma excelente manhã de praia, dou-lhe seguimento com uma tranquila tarde de piscina e, para provar que não são necessários mais de três actos para borrar uma pintura, arranco em direcção à confusão e ao trânsito compacto ao início da noite. Passo directamente a essa última fase, que é a que motiva estas linhas. Encontro-me então entre matrículas dos mais variados países
Espanha, Luxemburgo, França, Alemanha, Itália e Suiça
e sobra-me tempo para ir lendo os anúncios que prometem negócios da China
Procura-se parceiro para projecto de restaurante/bar,
os mais discretos
Quarto Chambre Zimmer Room
e os destaques da vida nocturna.
Todos parecem dirigir-se ao mesmo local. Lá chegado, a suspeita ganha peso. Todos se dirigiram para o mesmo local.
De repente, vejo-me caído num espaço cheio de gente que, ao invés de caminhar, desfila. Gente que, ao invés de estar sentada, está exposta. À mesa de um desses restaurantes frequentados por futebolistas nas férias, um homem orgulhoso faz peito da mulher que, sem precisar de o imitar, exibe a quase totalidade do seu. Não menos orgulhosos, passam por entre quem desfila a pé, com cuidados intermináveis, condutores ao volante dos últimos e mais potentes modelos automóveis. Os mais sonhadores debruçam-se para espreitar os iates e acabam por se transportar para uma qualquer tranquila ilha dos trópicos, alheados do ambiente em redor. Entretanto, passa um outro homem
(também orgulhoso)
a passear uma mulher que, pesem todos os esforços com a aparência, não disfarça a idade que tem. Inglória luta contra a passagem do tempo. Não há calção justo que a trave. Não há salto alto que a supere. Está na cara que a mulher pode ter netos. Do outro lado da barricada não há menos candidatas. O mundo anda ao contrário e, se há mulheres a fazerem de tudo para parecerem meninas, também há meninas a quererem passar por mulheres. Pintam a idade nos olhos e teatralizam a idade nos gestos. São meninas da idade daquelas que, no meu tempo, faziam risinhos tímidos
(e mandavam bilhetes, repare-se só na idade deste que aqui escreve).
No meio deste cenário, guardo um apreço especial por dois homens que, separados por poucos metros, pintam turistas. Um deles dedica-se ao retrato, o outro à caricatura. São homens que tiveram a arte de se dedicar a uma coisa menor
(quantos são os artistas que podem ganhar a vida a fazer o que realmente gostam?)
para conseguirem garantir a sobrevivência. O que falta a cada uma das suas telas em genialidade, sobra-lhes em humildade e em espírito de sacrifício. Em cada traço há um sonho adiado e um dever a cumprir. Não assinam
Picasso, Rembrandt ou Dalí,
mas assinam
Pai trabalhador e esforçado, marido responsável,
coisa com que os primeiros não precisaram de se preocupar.
Passam mais mulheres
(ou as tais meninas)
em vestidos tão curtos que parecem prestes a cair deles, passam mais homens orgulhosos, passam crianças despreocupadas e continuam debruçados para os iates os mais sonhadores. Todos se dirigiram para o mesmo local e, no entanto, dava tudo para estar no quarto
(ou no chambre, ou no zimmer, ou no room, é-me indiferente).

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Quarto livro de crónicas

Começo por me afirmar fã da escrita de António Lobo Antunes. Já lhe li uma meia dúzia de livros (talvez mais, mas meia dúzia seguramente) e não há como ficar indiferente. Como escritor, acho-o do melhor que há. Explicação dos pássaros, A morte de Carlos Gardel, Ontem não te vi em Babilónia, Eu hei-de amar uma pedra, O meu nome é legião: a todos se pode apontar qualquer coisa, menos falta de qualidade na escrita. O manual dos inquisidores: perfeito. Estas breves linhas são, portanto, passíveis de alguma parcialidade.
O registo de crónica que se encontra neste livro é, talvez, a melhor forma de quem não conhece o autor se ir começando a acostumar à escrita, ao estilo. Muito mais leves, muito menos densas, as crónicas de Lobo Antunes não deixam de ser tocantes. Não deixam, tal como os seus romances, de enaltecer o que é Portugal, o que é ser português.
Este Quarto livro de crónicas (e os anteriores) é também uma escolha acertada para os dias de férias. Um mergulho, uma crónica. Com a segurança de se saber mergulhar em Lobo Antunes.

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Vida dura

Era ingrato (e injusto, muito injusto) dizer que é a minha. Teve, tem e terá os seus momentos duros, mas tem sido um mar de rosas comparada com a de muita gente que conheço, comparada com a dos meus pais e a dos meus avós, com a de gente que lutou por coisas de que hoje desfrutamos. A minha vida foi, em comparação com estas, nascer, crescer, aprender e aproveitar (lutar um pouco, vá). Os dramas resumem-se a uma ou outra grande perda (lembro-me tanto de ti nos momentos mais improváveis, abuelito). Tem sido uma vida boa. Os últimos cinco anos, fantásticos. Os últimos dez meses, incríveis. Qual vida boa? Tem sido uma vida muito boa.

A vida dura que aqui trago é a celebrizada por Will Oldham, mais conhecido por Bonnie ‘Prince’ Billy. Quem a canta é Joe Pug e os Strand of Oaks. Serve para dar valor à outra. A boa.

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Breve levantamento literário

Um dia entre praia e piscina. O suficiente para ver três Victoria Hislop, dois Paulo Coelho, dois Dan Brown e um Joanne Harris, entre outros. Parece que é o que se lê. Nada que me desperte interesse, por enquanto.

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A Rachael é uma gata

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Ficções

Jorge Luís Borges é, quase por consenso, um dos nomes maiores da literatura contemporânea. Argentino (sirva-nos de consolo a ascendência portuguesa), Borges construiu uma obra que se distingue das demais pelo carácter criativo e imaginativo.
No conjunto de contos que formam este Ficções, o autor evidencia na plenitude as qualidades que geram o consenso em relação à sua escrita. As pequenas narrativas deste livro debruçam-se, essencialmente, sobre a literatura, a verdade e a mentira, a realidade e (para adivinhar isto, bastava o título a ficção, a memória e a passagem do tempo.
Entre os seus mais célebres contos encontram-se A Biblioteca de Babel, ideia talvez utópica mas que para os mais ávidos leitores não deixa de fazer algum sentido, Pierre Ménard, autor do ‘Quixote’, acerca de reescrita de um clássico numa época contemporânea, e Funes ou a memória, brilhante exercício sobre um homem com uma memória fora do vulgar. Como se não bastassem os contos em si, ficam também agarradas ao leitor uma série de personagens que os compõem. São os casos dos já referidos Pierre Ménard e Funes e de Vincent Moon.
Apesar de diferente de tudo, Borges é um daqueles casos de leitura imperdível.

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