Monthly Archives: Setembro 2011

Queres fazer o favor de te calares

Aquando da leitura de De que falamos quando falamos de amor já aqui tinha deixado os principais traços que reconhecia na escrita de Raymond Carver: uma excelente capacidade de observação e uma utilização desenvencilhada e simples da língua, que se reflectem em cenários bem construídos e narrativas simples de seguir. Voltam a não se encontrar, neste volume de contos, adornos desnecessários. Esta economia de palavras, esta escrita seca e directa (ainda que se questione se isso é mão de Carver ou do seu editor e dos seus valentes cortes) proporciona uma leitura sem distracções e a bom ritmo.
Entre os vários contos que compõem este Queres fazer o favor de te calares é inevitável que se destaque um ou outro. São os casos de Você é médico?, de Bicicletas, músculos, cigarros e do conto que dá título ao livro, Queres fazer o favor de te calares, inteligentemente colocado no seu final.
Um livro de contos dificilmente consegue ser arrebatador e este não foge à regra. É, isso sim, uma leitura interessante para intervalar duas obras mais densas, mais pesadas.

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O sleep – Lisa Hannigan e Ray LaMontagne

O tema pertence ao novo álbum de Lisa Hannigan, Passenger, e prova que  a cantora irlandesa não sabe escolher mal as companhias.

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Grandalhões

[Conteúdo Maisfutebol]

Não sei se é defeito meu, mas a associação entre o “grandalhões” e os jogadores de râguebi não foi a primeira que me veio à cabeça.

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Obra reunida

Sobre Juan Rulfo há mais a dizer do que as páginas que nos deixou. Em apenas um volume, a Cavalo de Ferro edita com esta Obra reunida, composta por Pedro Páramo, O llano em chamas e O galo de ouro, tudo o que se conhece do autor mexicano. Podia depositar aqui umas esforçadas linhas minhas, mas prefiro deixar as palavras de Gabriel Garcia Márquez, que servem de introdução a esta obra e que dizem quase tudo o que é preciso sobre Rulfo e os seus escritos. Julgo não haver melhor forma de despertar a curiosidade por um autor que me vejo obrigado, pela força da sua prosa (tantas vezes poética), a considerar como obrigatório.

Breves nostalgias sobre Juan Rulfo
A descoberta de Juan Rulfo – tal como a de Franz Kafka – será, sem dúvida, um capítulo essencial das minhas memórias. Eu tinha chegado ao México no mesmo dia em que Ernest Hemingway disparou o tiro da sua morte – 2 de Julho de 1961 -, e não só não tinha lido os livros de Juan Rulfo, como nem sequer tinha ouvido falar dele. Era muito estranho. Desde logo porque, naquela época, eu me mantinha muito a par da actualidade literária e, em especial, do romance nas Américas. Em segundo lugar, porque as primeiras pessoas que contactei no México foram os escritores que trabalhavam com Manuel Barbachano Ponce, no seu castelo de Drácula das ruas de Cordoba, e com os redactores do suplemento literário de Novedades, que Fernando Benítez dirigia. Todos eles conheciam muito bem Juan Rulfo, bem entendido. No entanto, passaram pelo menos seis meses sem que alguém me falasse dele. Talvez porque Juan Rulfo, ao contrário do que acontece com os grandes clássicos, é um escritor que se lê muito mas do qual se fala muito pouco.
Eu vivia num apartamento sem elevador da rua Renán, no bairro de Anzures com Mercedes e Rodrigo, que, nessa altura, tinha menos de dois anos. Tínhamos um colchão duplo no chão do quarto grande, um berço no outro quarto e uma mesa para comer e escrever na sala, com duas cadeiras apenas, que serviam para tudo. Tínhamos decidido ficar nesta cidade que ainda conservava um tamanho humano, com um ar diáfano e flores de cores delirantes nas avenidas, mas as autoridades da emigração não pareciam partilhar a nossa felicidade. Passávamos metade da vida em filas imóveis, por vezes sob a chuva, nos pátios de penitência da Secretaria de Gobernación. Nas horas que me sobravam, eu escrevia notas sobre a literatura colombiana, que transmitia de viva voz pela Radio Universidad, então dirigida por Max Aub. Eram umas notas tão sinceras que, um dia, o embaixador da Colômbia telefonou para a emissora, para apresentar um protesto formal. Quanto a ele, a minhas não eram notas sobre a literatura colombiana, mas sim contra a literatura colombiana. Max Aub chamou-me ao seu gabinete e eu pensei que era o fim do único meio de subsistência que eu tinha conseguido em seis meses. Mas aconteceu o contrário.
– Não tive tempo de ouvir o programa – disse-me Max Aub. – Mas, se é como o teu embaixador diz, deve ser muito bom.
Eu tinha 32 anos, uma carreira jornalística efémera na Colômbia, acabava de passar três anos muito úteis e duros em Paris, oito meses em Nova Iorque, e queria fazer guiões de cinema no México. O mundo dos escritores mexicanos daquela época era semelhante àquele da Colômbia, e eu sentia-me muito bem entre eles. Seis anos antes, tinha publicado o meu primeiro romance, La lojarasca e tinha três livros inéditos: El coronel no tiene quien le escriba, que apareceu nessa época na Colômbia; La mala hora, que foi publicada pela editora Era pouco tempo depois, a pedido de Vicente Rojo, e a colecção de contos de Los funerales de la Mama Grande. Só que, deste último, tinha apenas as provas incompletas, porque Álvaro Mutis tinha emprestado os originais à nossa adorada Elena Poniatowska, antes da minha vinda para o México, e ela perdera-os. Mais tarde, consegui reconstruir todos os contos e Sérgio Galindo publicou-os na Universidade Veracruzana, a pedido de Álvaro Mutis.
De modo que eu já era um escritor com cinco livros clandestinos. Mas o meu problema não era esse, pois nem então, nem nunca, eu tinha escrito para ser famoso, mas sim para que os meus amigos gostassem mais de mim, e julgava ter conseguido isso. O meu grande problema como romancista era o facto de, depois daqueles livros, me sentir num beco sem saída, e procurava por toda a parte uma brecha para escapar. Eu conhecia bem os autores, bons e maus, que teriam podido mostrar-me o caminho e, no entanto, sentia-me a andar em círculos concêntricos. Não me considerava esgotado. Pelo contrário: sentia que ainda me restavam muitos livros pendentes, mas não concebia um modo convincente e poético de os escrever. Estava eu nisto, quando Álvaro Mutis subiu, a passos largos, os sete pisos da minha casa com um pacote de livros, separou do monte o mais pequeno e curto e me disse, morto de riso:
– Leia isto, carago, para que aprenda!
Era Pedro Páramo.
Nessa noite não consegui adormecer enquanto não terminei a segunda leitura. Nunca, desde a noite tremenda em que li a Metamorfose de Kafka numa lúgubre pensão de estudantes em Bogotá — quase dez anos antes —, eu sofrera semelhante comoção. No dia seguinte, li a A planície em chamas e o assombro permaneceu intacto. Muito depois, na sala de espera de um consultório, encontrei uma revista médica com outra obra-prima desirmanada: La herencia de Matilde Arcángel. Durante o resto daquele ano não consegui ler nenhum outro autor, porque todos me pareciam menores.
Não saíra ainda completamente do deslumbramento quando alguém disse a Carlos Velo que eu era capaz de recitar de cor parágrafos inteiros de Pedro Páramo. A verdade ia mais longe: podia recitar o livro inteiro, de trás para a frente e de frente para trás, sem um erro significativo, e podia dizer em que página da minha edição se encontrava cada episódio e não havia um só traço do carácter de uma personagem que eu não conhecesse a fundo.
Carlos Velo encomendou-me a adaptação para o cinema de outro relato de Juan Rulfo, que era o único que eu não conhecia nessa altura: El gálio de oro. Eram 16 páginas muito apertadas, num papel de seda que estava à beira de se transformar em pó, e escritas com três máquinas diferentes. Embora não me tivessem dito de quem era, eu tê-lo-ia sabido imediatamente. A linguagem não era tão minuciosa como a do resto da obra de Juan Rulfo, e havia muito poucos recursos técnicos dos seus, mas o seu anjo pessoal voava por todo o âmbito do texto. Mais tarde, Carlos Velo e Carlos Fuentes convidaram-me para fazer uma recensão crítica da primeira adaptação de Pedro Páramo para o cinema.
Menciono estes dois trabalhos – cujo resultado final esteve muito longe de ser bom – porque eles me obrigaram a aprofundar ainda mais uma obra que, sem dúvida, já conhecia melhor do que o próprio autor. A quem, é certo, não conheci pessoalmente senão vários anos depois. Carlos Velo tinha feito uma coisa surpreendente: tinha recortado os fragmentos temporais de Pedro Páramo e tinha voltado a montar o drama numa rigorosa ordem cronológica. Como mero recurso de trabalho, pareceu-me legítimo, embora o resultado fosse um livro diferente: plano e descosido. Mas foi-me muito útil para uma compreensão melhor da carpintaria secreta de Juan Rulfo e muito revelador da sua insólita sabedoria.
Havia dois problemas essenciais na adaptação de Pedro Páramo. O primeiro era o dos nomes. Por muito subjectivos que se julgue que são, todos os nomes, de alguma forma, são parecidos com quem os usa e isso é muito mais notável na ficção do que na vida real. Juan Rulfo disse, ou fizeram-no dizer, que compõe os nomes das suas personagens lendo lápides das sepulturas nos cemitérios de Jalisco. A única coisa que se pode dizer de ciência certa é que não há nomes próprios mais próprios do que os das pessoas dos seus livros. A mim, parecia-me impossível – e continua a parecer-me – encontrar, alguma vez, um actor que se identificasse sem nenhuma dúvida com o nome da sua personagem.
O outro problema – inseparável do anterior – era o das idades. Em toda a sua obra, Juan Rulfo teve o cuidado de ser muito descuidado quanto aos tempos das suas criaturas. Narciso Costa Rós fez há pouco tempo uma tentativa fascinante de os estabelecer em Pedro Páramo. Eu sempre pensei, por pura intuição poética, que quando Pedro Páramo conseguiu por fim levar Susana San Juan para o seu vasto reino da Meia-Lua, ela já era uma mulher de 62 anos. Pedro Páramo devia ser uns cinco anos mais velho do que ela. Na realidade, o drama parecia-me maior, mais terrível e bonito, se se precipitasse pelo precipício de uma paixão senil sem alivio. As idades estabelecidas para ambos por Costa Rós não são as mesmas, mas não estão muito longe daquelas que eu tinha imaginado. Semelhante grandeza poética era impensável no cinema. Nas salas escuras, os amores de anciãos não comovem ninguém.
O mal desses preciosos escrutínios é que as razões da poesia não são sempre as mesmas da razão. Os meses em que decorrem certos acontecimentos são essenciais para a análise da obra de Juan Rulfo e eu duvido que ele estivesse consciente disso. No trabalho poético – e Pedro Páramo é-o, no seu grau mais alto – os autores costumam invocar os meses por compromissos diferentes do rigor cronológico. Mais ainda: em muitos casos, muda-se o nome do mês, do dia e até do ano apenas para evitar uma rima incómoda ou uma cacofonia, sem pensar que essas mudanças podem induzir num crítico uma conclusão terminante. Isto não acontece só com os dias e os meses, mas também com as flores. Há escritores que se servem delas pelo simples prestígio dos seus nomes, sem prestarem muita atenção ao facto de corresponderem, ou não, ao lugar e à estação do ano. De modo que não é raro encontrar bons livros onde florescem gerânios na praia e túlipas na neve. Em Pedro Páramo, onde é impossível estabelecer de uma forma definitiva onde está a linha de demarcação entre os mortos e os vivos, as exactidões são ainda mais quiméricas. Ninguém pode saber, na realidade, quanto duram os anos da morte.
Quis dizer tudo isto para terminar dizendo que o escrutínio a fundo da obra de Juan Rulfo me deu, por fim, o caminho que procurava para continuar os meus livros e que, por isso, me era impossível escrever sobre ele sem que tudo isto parecesse ser sobre mim próprio. Agora também quero dizer que voltei a ler toda a sua obra para escrever estas breves nostalgias e que voltei a ser a vítima inocente do mesmo assombro da primeira vez. Não são mais de 300 páginas, mas são quase tantas, e creio que tão perduráveis como aquelas que conhecemos de Sófocles.

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Juan Rulfo, também fotógrafo

A umas páginas de terminar de ler a sua Obra reunida, trago até aqui outra faceta de Juan Rulfo. São algumas das suas fotografias. Carregadas de simbolismo, como as suas histórias.

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Todos os concertos deviam ser assim

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Adormecido nas cores do amanhecer

San Gabriel sai do nevoeiro húmido de orvalho. As nuvens da noite dormiram sobre o povoado procurando o calor das gentes. Agora está para sair o sol e a névoa levanta-se devagar, enrolando o seu lençol, deixando fios brancos em cima dos telhados. Um vapor cinzento, apenas visível, sobe das árvores e da terra molhada atraído pelas nuvens; mas desvanece-se de seguida. E atrás dele aparece o fumo negro das cozinhas, cheiroso a azinheira queimada, cobrindo o céu de cinzas.
Lá longe os outeiros estão ainda em sombras.
Uma andorinha cruzou as ruas e depois ouve-se o primeiro toque da alvorada.
As luzes apagaram-se. Então uma mancha como de terra envolve o povoado, que continua a ressonar um pouco mais, adormecido nas cores do amanhecer.

Juan Rulfo, Na madrugada
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Para começar bem a semana

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Que trio

Dá para vê-los juntos mais vezes?

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Old Jerusalem

O novo álbum de Old Jerusalem (homónimo) está à espreita – podem deitar-lhe a mão ainda este mês. Por aqui, fica o primeiro single, The go-between.

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Novelas e textos para nada

«São bisbilhotices interiores estas maravilhosas concentrações, cheias dos rabos e dos cabelos de muitas outras histórias e pessoas de Beckett.» Quem o escreve é Miguel Esteves Cardoso, que vai mais longe e considera que «procurando mal e depressa, toda a obra dele está aqui». Sem querer beliscar um bocadinho que seja a escrita do autor irlandês, que em poucas linhas confirma a sua qualidade, tenho que confessar algum desânimo na leitura desta centena e meia de páginas. O livro, estruturado em três novelas (O banido, O calmante e O fim) e treze textos (numerados julgo que sem critério), coloca o leitor numa constante discussão interior em que os temas principais são o corpo, a mente, a identidade e a morte. Apesar de se encontrarem, ao longo da obra, algumas linhas brilhantes, a leitura vai-se tornando monótona e repetitiva, o que me leva a questionar se o critério para esta compilação de textos foi o mais acertado. Em alguns momentos, sente-se também a costela dramaturga de Beckett, com passagens que teriam tudo a ganhar numa representação – tudo porque recordei o excelente monólogo de A última gravação de Krapp a que tive oportunidade de assistir e que, por comparação, também deve ter contribuído para o já referido desânimo.
O tempo encarregar-se-à de me fazer voltar a Beckett e a sorte há-de fazer-me escolher melhor.

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O estaleiro

Juan Carlos Onetti é tido como um dos nomes maiores da literatura latino-americana. O escritor uruguaio, embora não tenha chegado a completar o ensino secundário, apresenta-se como um inovador na escrita da época e chegou a vencer, entre outros, o Prémio Cervantes (1980). As palavras de outros ilustres das letras foram sempre elogiosas. Cortázar, seu amigo, considerava mesmo Onetti o maior romancista latino-americano. As influências não são tudo, mas quem bebe de Faulkner, Dostoiévski e Céline parte em posição privilegiada.
Talvez A vida breve seja o seu romance mais consensual, mas é sobre este O estaleiro que agora nos debruçamos. Tendo como cenário a imaginária Santa María (que surge em outras obras suas), o centro da história é a manutenção de uma espécie de farsa em torno de um estaleiro naval há muito desactivado. O patrão tenta passar a imagem de que o negócio pode voltar a florescer e os seus dois únicos funcionários, enquanto fazem por acreditar nisso, vão arranjando maneira de tirar alguns dividendos da posição que ocupam, para assim garantirem a sobrevivência. É por esta altura que chega Larsen, expulso da região há cinco anos. Assume o cargo de Director do estaleiro e vai alimentando a mesma encenação, ao mesmo tempo que se dedica a seduzir a filha do patrão. Juan Carlos Onetti faz uso de uma excelente capacidade narrativa e consegue, ao mesmo tempo um muito interessante retrato humano. As personagens usam uma máscara que, a certa altura, já se lhes confunde com a pele e o conflito entre a farsa e o autêntico toma conta do leitor. Também com presença muito marcada nas páginas deste romance está a vingança, tanto a pensada por Larsen como a consumada por Gálvez, um dos funcionários do estaleiro.  Este último vive em condições de alguma pobreza, na escuridão de uma casa construída com o conforto possível, na companhia da sua mulher, grávida. Sem querer tomar partido por qualquer das figuras brilhantemente arquitectadas por Onetti, esta personagem, sendo a mais escondida, acaba por ser das que mais apaixona.
Terminada a leitura deste O estaleiro (numa edição de 1981, apesar da mais recente edição da Ulisseia), fico com a certeza de que só o tempo me separa de outras obras deste escritor uruguaio.

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