Monthly Archives: Outubro 2011

Efeitos da literatura

Foi a primeira vez que a sua alma foi encantada pela sedução de uma obra literária, que nos mostra a condição humana de modo tão real e com tanta compaixão e com tanto amor pelo bem, que nós próprios nos tornamos melhores pessoas, e compreendemos a vida melhor do que antes, e almejamos e esperamos que o bom possa sempre prevalecer na vida dos homens.

Halldór Laxness, Gente indepenente
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Café Central #10

É o décimo – mesmo com o “l” em queda. Fica em Cantanhede e foi gentilmente enviado pela amiga Sara Rosas, a quem agradeço a atenção.

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Façam o favor de trazer cá o homem (mesmo com o IVA a 23%)

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Ó mister…

… que futebolzinho é aquele que andamos a jogar?

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Café Central #9

Largos meses depois, surge novo Café Central. É o nono e teve o  simpático contributo de António Chaves. Façam o favor de dar um salto a Celorico da Beira.

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Estrelinhas e entrelinhas

Por ter levado algum tempo a ler tudo o que se foi comentando, só agora trago à baila uma discussão que já tem uns dias. Tudo começou com um post de Maria do Rosário Pedreira sobre uma crítica de José Riço Direitinho a um livro de Valter Hugo Mãe. Não, tudo começou com a tal crítica a O filho de mil homens, ou com as estrelinhas a ele atribuídas. Entre gente que leu a crítica, gente que leu o livro e gente que não leu uma coisa nem outra, a discussão conta já com 119 comentários.
Nas entrelinhas, levantam-se suspeitas, trocam-se acusações e o essencial (escrito num ou noutro comentário) fica para segundo plano:
1) A crítica literária pode partir de qualquer um (depois haverá sempre os mais capazes, os mais preparados), em qualquer situação (idade, sexo e credo),desde que tenha lido o livro em causa;
2) A crítica literária é tão mais pessoal quanto o gostar do azul e não do vermelho;
3) A crítica literária é, desde que não sirva para achincalhar ou insultar, obrigatoriamente aceitável (concorde-se mais, menos, ou nada);
3) Atribuir entre zero e cinco estrelinhas a um livro é tarefa complicada  e redutora (haverá o três que é quase quatro, o três que só é três porque é ligeiramente superior ao outro que foi dois);
4) As estrelinhas que alguém atribui a um livro só podem comparar-se com outras por si atribuídas (consequência do ponto 2);
5) As estrelinhas atribuídas a um livro de um determinado género literário não podem ser comparadas com as atribuídas a livros de outro género (até podem, mas é comparar o coiso com as calças);
6) Todos os géneros literários têm os seus zeros e cincos;
Espécie de corolário) As opiniões são como as vaginas: cada um tem a sua e quem quiser dá-la, dá-a.
Conclusão) Como referi inicialmente, levei algum tempo a ler tudo o que foi escrito a propósito do post de Maria do Rosário Pedreira. Tempo que tinha sido tão bem aplicado na leitura que tenho em mãos

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A morte de Ivan Ilitch

Este é um daqueles casos de encaixe perfeito na definição de “clássico” de Jorge Luis Borges: um livro que sucessivas gerações vão lendo com fervor. Não é caso para menos, diga-se em abono da verdade. Tolstói consegue, ao descrever os últimos dias e as últimas agonias de um homem, um verdadeiro murro no estômago do leitor. A morte de Ivan Ilitch é uma daquelas obras que poderia servir de manual do existencialismo. Com uma poupança de palavras assinalável, a vida, a morte, a liberdade e a mentira, são exploradas e questionadas de forma brilhante. Não adianta de nada alongar as considerações sobre um livro que é, definitivamente, uma obra-prima. Defeito? Ser breve. A certa altura, o leitor dá por si, muito egoísta, a pretender que o sofrimento de Ivan Ilitch se prolongue por mais umas quantas páginas.

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Para melhor ilustrar a entrada anterior

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Refúgio

É por uma paisagem destas que, desde ontem, tenho andado. Mesmo sem ter saído de casa, mesmo sem ter deixado de ir trabalhar e de cumprir com as habituais rotinas. É essa a magia de um livro.

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Versão para um fim-de-semana que se quer tranquilo

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A lógica da morte

Ivan Ilitch via que ia morrer e estava desesperado. No fundo da sua alma, estava bem certo de que ia morrer mas não só era incapaz de se afazer a essa ideia, não a compreendia sequer, era incapaz de a compreender.
Aquele exemplo de silogismo que aprendera no manual de lógica de Kieseweter: Caio é homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal – aquele raciocínio parecia-lhe exacto quando se tratava de Caio, mas não quando se tratava da sua própria pessoa.

Lev Tolstói, A morte de Ivan Ilitch
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Aura

Chegou-me a casa, via Winkingbooks, um pequeníssimo livro de bolso. Em centímetros, qualquer coisa como 11x18x0,5. Em páginas, menos de 80. Acontece que, terminada a leitura, o leitor toma consciência de que só fisicamente se pode falar de um livro de pequenas dimensões. Lá dentro está a história de Felipe Montero, que encontra num anúncio de jornal uma oportunidade de trabalho à sua medida – todas as exigências correspondiam às suas qualificações. Para o desempenho das suas novas funções, vê-se obrigado a viver em casa da idosa dona Consuelo, que o encarrega da leitura e publicação das memórias deixadas pelo seu falecido marido. É aí que conhece Aura e, na penumbra constante da casa, começa a viver entre a realidade e o sonho. Este livro é Aura, do escritor mexicano Carlos Fuentes. Sobre ele, escreveu Saramago que foi o primeiro livro que leu do autor e que ficou, mais de quarenta anos passados, com a impressão de haver penetrado num mundo diferente de tudo o que conhecera até então, uma atmosfera composta de objectividade realista e de misteriosa magia, em que estes contrários, afinal mais aparentes que efectivos, se fundiam para criar no espírito do leitor uma envolvência em todos os aspectos singular. Não foram muitos os casos em que o encontro de um livro tenha deixado na minha memória uma tão intensa e perene lembrança. É essa envolvência singular que faz deste pequeno livro um livro grande. Terminada esta rápida leitura (coisa para um, dois dias), sobra a vontade de conhecer mais de Carlos Fuentes.

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Nova antologia pessoal

Depois de lido Ficções, o regresso a Jorge Luís Borges era uma questão de tempo ou, como acabou por ser, de oportunidade. Um amigo (se eu adivinhava o amigo que ali estava há uns anos) lembrou-se de me emprestar a Nova antologia pessoal de Borges e eu – forçado pelo que havia lido do autor, não por imposição desse amigo – tive que alterar a ordem prevista das minhas leituras (tenho sempre em mente uma sequência, não rígida, do que lerei em seguida). Os textos que compõem este livro foram escolhidos pelo próprio Jorge Luís borges e foram divididos em Poemas, Prosas, Relatos e Ensaios. Nele se abordam as habituais temáticas do escritor argentino: a realidade, o sonho, a metafísica e, claro está, a literatura.
Confesso que li os poemas quase na diagonal, mas que fique claro que dediquei total atenção aos restantes textos. Entre estes, destacaria A esfera de Pascal, pelo mergulho na história universal. Impossível também não destacar A intrusa, impressionante relato de amor e fraternidade. Sobre os clássicos reúne, como o título sugere, uma série de considerandos de Borges sobre o que faz de um livro um clássico e sobre a perenidade (ou não) desta classificação.

Clássico não é um livro (repito-o) que possui necessariamente tais ou tais méritos. É um livro que as gerações dos homens, motivadas por razões diversas, lêem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade.

Nova antologia pessoal é, tal como Ficções, uma obra que deixa marcas no leitor, que o faz pensar e que o enriquece. Vale, portanto, cada minuto nela empregue.

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Da história universal

A história universal talvez seja a história da diferente interpretação de algumas metáforas.

Jorge Luís Borges, A esfera de Pascal
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As pequenas memórias

Numa altura em que a sua obra já era mais que conhecida por esse mundo fora, Saramago entendeu justificar-se um livro que levasse a um melhor conhecimento do autor. Com este As pequenas memórias, optou por relatar episódios da sua infância e juventude – etapas que, evidentemente, influenciaram o homem que depois se fez. De um livro com registo biográfico não se devem esperar grandes façanhas e este As pequenas memórias não foge à regra. A qualidade da escrita de Saramago aparece intacta, mas é evidente que o autor não faz (nem pode, para o que se pretende) uso de todos os seus recursos. É, sobretudo, uma leitura interessante para quem admira o autor de obras incontornáveis como Memorial do convento, Ensaio sobre a cegueira, As intermitências da morte

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Quiz [IX]

Há mais de dois anos que aqui não deixava um Quiz. Se nos números anteriores, os temas foram sempre música e/ou cinema, desta vez é literatura. O que se pretende é que a imagem que se segue sirva para chegar ao título de um livro.

[Tão fácil como perceber que a manipulação da imagem não é o meu forte.]
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Obrigado a recuar

É isso mesmo, obrigado a recuar à entrada anterior. A uma música a que, num álbum de gravações ao vivo com alguns anos, Fingerlings 4, Andrew Bird havia dado o nome de The Sifters. Obrigado a recuar a essa música que, por fazer parte da banda sonora de Norman (quando é que isto chega a Portugal, já agora?), foi gravada em estúdio e teve direito a novo baptismo, passando a chamar-se Night Sky. Obrigado a recuar porque, se a música é fantástica (vai crescendo, crescendo), a letra arrisca méritos que falham a muitos livros. Andrew Bird começa por explicar a influência da lua nas marés dando a esta o papel de violinista, que puxa e empurra as ondas de costa a costa, para depois perguntar se haverá melodia maior e imaginar-se o céu nocturno (e talvez a lua, de violino junto ao ombro). O músico de Chicago avança para as questões do amor e do tempo e para o papel que este último desempenha no primeiro (se um tivesse 75 e o outro 9, se não tivessem vivido o mesmo tempo), sem esquecer as perguntas certas (estarias sozinho?, contavas-me as tuas histórias?). E termina uma vez mais a imaginar-se o céu nocturno (e talvez as estrelas que – diz a astrologia – regem o rumo dos acontecimentos).

[Este blog podia existir sem Andrew Bird. Eu é que não ia viver bem com isso.]
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Este blog podia existir sem Andrew Bird?

[Via Mom+Pop Records]

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O seminarista

José é o Especialista, um assassino contratado para «serviços específicos». Recebe as indicações do Despachante e executa o trabalho, sempre da mesma forma, com um tiro na cabeça. Antes de avançar em mais considerações, deixo um vídeo com o início do primeiro capítulo, lido pelo autor (este início corresponde à totalidade da primeira página da edição portuguesa da Sextante).

O protagonista desta história é, como exige o seu trabalho, um homem frio, calculista e desconfiado por natureza. É também, já não por exigência laboral, mulherengo, ávido leitor de poesia e adepto de citações em latim. Falta dizer que o Especialista já foi um improvável seminarista. Rubem Fonseca, que se considera um «cineasta frustrado», tem neste livro uma história que, não sendo um prodígio de originalidade, é bastante cinematográfica. A narrativa entretém e prende a atenção ao leitor, como a um policial se pede, ainda que se vista de romance. A escrita do autor brasileiro revela-se interessante, mesmo com a minha confessa dificuldade na leitura do português do Brasil. Assim, não podendo considerar este O seminarista mais do que uma leitura agradável, não excluo a hipótese de voltar à obra de Rubem Fonseca.

[A quem interessar, o primeiro capítulo está aqui disponível.]
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