Monthly Archives: Março 2012

O velho que lia romances de amor

Neste pequeno livro de Luis Sepúlveda seguimos as aventuras de Antonio José Bolívar Proaño, um velho de idade indeterminada que, depois de ter perdido a mulher, se aproxima de uma tribo – os xuar – e, consequentemente, da natureza. Essa convivência vai-se encarregando de lhe revelar os pequenos segredos e mistérios da selva ao ponto de quase se poder comparar a um xuar. Estes seus conhecimentos vão, mais tarde, ser-lhe úteis para uma expedição em que se procura uma onça a quem mataram as crias. Em pouco mais de cem páginas, Sepúlveda escreve uma pequena homenagem à Amazónia, com descrições que pintam verdadeiros cenários e transportam o leitor para o meio da natureza. Na sua escrita habitualmente simples e linear, o autor convoca também para a narrativa o choque de culturas e crueldade do mundo em que vivemos. É aí que aparecem os romances de amor, consolo e salvação para a dura realidade.
Se o mundo é uma selva, este é um livro que, pela sua simplididade e sensibilidade, merece uma leitura rápida.

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Tipos de amor

– É verdade que sabes ler, compadre?
– Alguma coisa.
– E o que é que estás a ler?
– Um romance. Mas cala-te. Se falas, a chama mexe-se e mexem-se-me as letras.
O outro afastou-se para não estorvar, mas era tal a atenção que o velho prestava ao livro que não suportou ficar-se à margem.
– De que é que trata?
– Do amor.
Perante a resposta do velho, o outro aproximou-se com renovado interesse.
– Não me lixes. Com fêmeas ricas, das que fervem?
O velho fechou o livro num repente fazendo tremer a chama do candeeiro.
– Não. Trata-se do outro amor. Do que dói.

Luis Sepúlveda, O velho que lia romances de amor
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Sucessões perfeitas [II]


A culpa é da menina que, ao oferecer-me as primeiras, descobriu o que os meus pés queriam.
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Pastoral americana

O título do livro não engana e é verdade que há nestas páginas um retrato dos Estados Unidos da América pós-guerra. São muitas as alusões à terra das oportunidades, à grande potência mundial e à diversidade cultural e racial do país – as personagens de Philip Roth chocam muitas vezes com a questão do sentir-se americano. O essencial deste Pastoral americana podia, no entanto, transportar-se para outro país e para outra época. O essencial deste romance está nas ideias de família e de normalidade. Seymour Levov, o «Sueco», cresce no seio de uma família judia, é um brilhante e popular atleta universitário, dá seguimento ao próspero negócio do pai, casa com uma ex-miss e tem uma filha a quem pode proporcionar tudo. A viverem numa zona calma, afastada da cidade, os Levov levam a vida tranquila que sempre desejaram e são a imagem de uma família bem estruturada. Porém, esta tranquilidade e esta “normalidade” começam a desmoronar de um dia para o outro, à força de uma bomba. E é exactamente aqui que se põem à prova os conceitos de família e os limites do «Sueco».
Não há, neste livro, a economia de palavras que encontramos em Todo-o-mundo e em A humilhação; não há, neste livro, o humor presente em O complexo de Portnoy; aqui a escrita é torrencial, crua e dura. Pastoral Americana é um livro obrigatório, “uma bomba que conta toda esta estuporada história”.

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Deitar-tudo-cá-para-fora

Isto chama-se uma máquina de polir e aquilo é um esticador e tu chamas-te querida e eu chamo-me Papá e isto chama-se viver e o contrário é morrer e isto chama-se loucura e isto chama-se chorar e isto chama-se inferno, inferno puro, e temos de ter laços bem apertados para conseguirmos aguentar, isto chama-se tentar-continuar-como-se-nada-se-tivesse-passado e isto chama-se pagar-por-tudo-mas-sem-saber-porquê, isto chama-se querer-morrer-e-querer-encontrá-la-e-matá-la-e-salvá-la-daquilo-por-que-ela-está-a-passar-onde-quer-que-esteja-neste-momento, este exteriorizar desabrido chama-se deitar-tudo-cá-para-fora…

Philip Roth, Pastoral Americana
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A explicação dos homens. E das mulheres também.

Ler nas entrelinhas

Um pequeno grupo de pessoas mostra-se disponível para ir a um lar de acolhimento e ajudar na criação de uma horta pedagógica. Convém que saibam ler nas entrelinhas quando, lá chegados, encontram uma senhora chamada Esperança.

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Da paternidade #14

-Tem um filho maravilhoso!
Isto, dito por alguém com distanciamento suficiente para usar a terceira pessoa, não é propriamente uma novidade. Mas é a prova de que o termo mãe galinha também tem masculino.

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Shakespeare

Sem ter lido o que quer que seja de Shakespeare, avancei para um livro de Giuseppe  Tomasi di  Lampedusa a propósito deste escritor inglês. Se calhar, a ordem não é a mais lógica, mas quis o destino que assim fosse: pouco depois de ter encontrado uma referência a este livro em O mal de Montano, encontro-o disponível no WinkingBooks. Uma vez que a responsabilidade desta minha leitura foi toda de Vila-Matas, talvez faça sentido deixar aqui a sua opinião acerca deste Shakespeare. Lida a resenha de alguém com verdadeira legitimidade de crítico literário e atendendo à minha ignorância no que a Shakespeare diz respeito, apenas posso acrescentar que, sem surpresas, este é um bem construído e humorado elogio ao autor de Hamlet e à sua qualidade enquanto escritor e uma fortíssima motivação para colmatar esta falha nas leituras – o autor italiano vai mesmo destacando brilhantes excertos da obra do poeta  e dramaturgo inglês. Sendo um livro essencialmente “analítico”, não há muito que empolgue e agarre o leitor, mas não deixa de ser aconselhável para quem se interesse por literatura e, principalmente, para os admiradores de Shakespeare.
A ordem de leitura pode não ter sido a mais lógica, mas pouco ou nada interessará se, um dia destes, chegado à obra de Shakespeare (ou a O leopardo, do próprio Lampedusa), me vir agradecido a este livro.

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Só para lembrar a notícia da semana

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O mal de Montano

Depois de lidos História abreviada da literatura portátil e O mal de Montano, fica difícil não entender a importância da literatura para Enrique Vila-Matas. Se o primeiro título referido conta alguns episódios de uma sociedade secreta criada por um grupo de artistas (predominantemente escritores/poetas) em  meados de 1924, o segundo aborda a literatura como doença. O mal de Montano não se consegue enquadrar entre um género literário específico e vagueia entre romance, ensaio, livro de viagens e autobiografia, dividindo-se esta última entre a real e a fingida, como o autor refere numa entrevista a propósito do livro – verdade seja dita, a realidade e a ficção andam de mão dada ao longo das suas mais de trezentas páginas.
A estrutura do romance (chamemos-lhe assim, por comodidade) divide-se em cinco partes: O mal de Montano, nouvelle (assim a define o autor) onde predomina a já referida mistura de realidade com ficção; Dicionário do tímido amor à vida (quanto vale um título destes?), o mais autobiográfico e verdadeiro – “Ajoelho-me pois no altar da vida real” – dos capítulos; Teoria de Budapeste, empolgante narração em forma de conferência; Diário de um homem enganado, talvez a mais cansativa das partes do livro, um reavivar de memórias em registo de diário; e, finalmente, A salvação do espírito, relato de uma subida às montanhas suíças, para um estranho encontro literário. É nas primeiras três partes que se encontra o que de melhor há em O mal de Montano, mas a subida às montanhas (com o seu quê de Hans Castorp, o personagem principal de A montanha mágica), o afastamento da realidade para melhor entender a literatura e a vida, não deixam de ser um final (o fim, o desaparecer, são sempre difíceis, como refere Vila-Matas diversas vezes) bem conseguido para esta excelente obra.
O mal de Montano, abordando a literatura como doença, não é remédio para esta. Quem tem o vício (termo sempre mais suave que doença) dos livros, encontra nesta obra de Enrique Vila-Matas motivos para ficar ainda pior: as referências a autores como Borges, Kafka, Onetti, Elias Canetti, Thomas Mann, Kértesz, Nabokov, Pessoa, Lobo Antunes, Musil (fico-me por aqui, mas são mais)…  só conseguem agravar a vertigem pela leitura.
Costuma dizer-se que não há mal que sempre dure. Neste caso, apetece dizer que infelizmente.

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