Monthly Archives: Abril 2012

Regresso marcado?


Parece que sim, que este ano será ano de novo trabalho de Cat Power. Já ia fazendo falta.

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Os anões

Escrito no início da década de 1950, este é o único romance de Harold Pinter, autor que depois se viria a dedicar à escrita para teatro, área em que conseguiu grande reconhecimento. No início do livro, numa breve nota, o escritor explica que só passados cerca de quarenta anos, após uma atenta revisão e o corte de cinco capítulos que considerou supérfluos, achou que Os anões merecia publicação. O que mais sobressai deste livro é a indicação clara de que Pinter escolheu bem a vertente da escrita a que se dedicou: a construção dos diálogos e das próprias personagens, o cuidado em situá-los e descrevê-los fisicamente, revelam uma espécie de preocupação cénica e uma ideia muito teatral da história. A adaptação de Os anões a teatro chegou mesmo a acontecer, mas nessa altura Pinter resolveu omitir uma personagem central da narrativa – Virgínia – e admite que, talvez por isso, a peça tenha resultado algo abstracta. De facto, custa entender o que se pode retirar do romance (e duvido que fosse diferente com a adaptação teatral) sem a presença e influência de Virgínia. É que, centrando-se o enredo na estranha amizade entre três jovens muito diferentes, é essa personagem feminina a responsável pelo “agitar de águas” decisivo e que precipita o livro para as mais conseguidas dez ou vinte páginas finais. Pelo meio, sobra muitas vezes a sensação de que havia mais do que cinco capítulos supérfluos na narrativa e de que a tesoura de Pinter podia ter sido mais exigente, aquando da revisão da obra.
As já referidas páginas finais acabam por salvar Os anões de uma desilusão que, até esse momento, enquanto romance, prometia ser quase total.

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O museu da rendição incondicional

«Rilke disse uma vez que a história de uma vida estilhaçada só podia ser contada em pequenos fragmentos…»

O museu da rendição incondicional é um romance constituído, essencialmente, por breves testemunhos, lembranças, fotografias e objectos do passado de gente que viveu o exílio. Assim, julgo que em nenhum outro momento deste livro se pode encontrar melhor justificação que a de Rilke para sua a estrutura. Por ser esse conjunto de peças soltas que funcionam como um puzzle, o livro dá uma liberdade de construção ao leitor que acaba por contribuir para uma não-narrativa (não me parecia bem chamar-lhe narrativa, pelo menos no seu sentido clássico) muito cativante.
Dubravka Ugrešić não pretendeu fazer deste O museu da rendição incondicional um fiel e rigoroso retrato das situações políticas e sociais que conduziram ao fim da Jugoslávia. Ugrešić quis ir mais longe, ao interior de quem viveu essa época e o que se lhe seguiu. É desta forma, ao olhar menos às condicionantes sociais, sem querer tomar partido de qualquer das partes envolvidas numa situação que foi de conflito e de guerra, ao centrar a sua atenção na ruína em que se transforma a vida de quem é obrigado a abandonar o seu país e na sua lenta e difícil reconstrução, que a autora consegue tocar o leitor.
A escrita de Ugrešić carrega uma sensibilidade muito própria de mulher (já tinha sentido, apesar de todas as diferenças – e são muitas -, coisa semelhante com Herta Müller, em Tudo o que eu tenho trago comigo), uma prosa tão simples e directa como poética e delicada.
As quase quatrocentas páginas de O museu da rendição incondicional lêem-se como se de cem se tratassem e conduzem a uma certeza e a uma pergunta. A certeza: livro brilhante, obrigatório. A pergunta: quanto tempo teremos de esperar para que a restante obra de Ugrešić seja traduzida e editada em Portugal (além deste livro, só Baba Yaga pôs um ovo está disponível em português, editado pela Teorema)?

[Impossível não mencionar: há, a determinada altura do livro, um breve e quente episódio passado em Lisboa. É perfeito.]

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Com o patrocínio da malta do costume…


… Kiwanuka fora de portas.

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A culinária na literatura III

Sopa de cominhos

3 colheres de sopa de banha ou manteiga
4 colheres de sopa de farinha
1 colher de chá de sementes de cominho
1,5 litros de água
Sal a gosto
Pão cortado em quadrados pequenos e frito em banha

Aquecer a banha adicionar a farinha e cozinhar até alourar.
Adicionar as sementes de cominho, cozinhar alguns instantes e adicionar a água, mexendo constantemente. Adicionar sal e continuar a cozinhar durante 15 minutos. Na mesa, colocar um pedaço de pão frito em cada tigela e servir a sopa.

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Herzog

A descoberta de Saul Bellow veio, no meu caso, com Ravelstein. Logo nessa altura deixei elogios ao livro e ao autor, afirmando que outros títulos seus estariam já marcados como obrigatórios. O amigo Tiago Sousa Garcia achou por bem ir aos comentários dizer que Herzog era indispensável e, quase um ano depois (mais do que o desejável, mas a ordem das leituras obedece a ordem nenhuma), eis-me chegado ao momento de dizer de minha justiça.
O personagem principal deste livro é Herzog, um professor de filosofia (tal como Ravelstein) que tem um começo de carreira fulgurante e que depois se vai desvanecendo. A história de  Moisés Herzog vai-nos sendo contada pela sua própria voz e por intermédio de inúmeras cartas que escreve (muitas apenas mentalmente) a amigos, conhecidos, figuras públicas e até mesmo a gente que nunca conheceu. E é através desta espécie de catarse que este homem espera poder entender a sua história e, assim, dar o rumo certo à sua vida.
Herzog é mais um exemplo da primorosa escrita de Saul Bellow, da sua capacidade de análise do homem e da sua enorme capacidade de, a partir dessa análise, construir personagens muito reais, cheios das pequenas particularidades que nos diferenciam uns dos outros. Como único senão, referiria alguma falta de “ritmo” da narrativa e alguma monotonia descritiva (e aqui refiro-me essencialmente a descrições de estados de espírito e de consciência). Não será o livro ideal para quem se pretende ver arrebatado pelo desenrolar dos acontecimentos, para quem precisa de ver, a cada página, o apelo à curiosidade. É um livro que convida ao mergulho interior, para um leitor paciente, um livro que precisa de tempo. A quem o tiver e disponibilizar, a recompensa acabará por chegar.

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A aritmética da partilha

Mudou a hora. As noites passaram a anoitecer mais tarde e os dias quase que chegam a sentar-se à mesa para jantar. A temperatura subiu e a chuva só não parou porque há muito deixou de se mostrar. As nuvens mais cinzentas desaprenderam temporariamente a arte de fazer chover e, envergonhadas, resolveram desaparecer. E então veio o sol. Veio o sol e, com o sol, vieram as roupas mais leves, mais curtas. E da maior leveza da roupa e da maior exposição do corpo veio a maior facilidade – a necessidade creio que já lá estava – em expor a alma. Veio o sol e, com o sol, vieram as escadas mornas e o convite para sentar. E do conforto de um lugar destes é certo e sabido que vem a descontracção suficiente para ir estendendo nos degraus, como se de roupa a corar se tratasse, que o marido isto, que os filhos aquilo, que não sobra tempo para nada, que a novela anda a engonhar, que o dinheiro não estica e que à máquina de lavar, imagine-se que logo agora, lhe deu para avariar. Veio o sol e, com o sol, vieram as escadas mornas , a possibilidade de nelas se sentarem depois de almoço e a possibilidade de lá darem corpo à estranha aritmética da partilha, multiplicando as alegrias e dividindo as preocupações.

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Dar música a uma triste história real

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90 livros clássicos para pessoas com pressa

Da largamente desequilibrada equação entre a quantidade de livros a ler e o tempo disponível para isso, surge a ideia deste 90 livros clássicos para pessoas com pressa. Em apenas quatro vinhetas de banda desenhada e com breves textos se resumem 90 obras – vou evitar o termo “clássicos”, por achar que a algumas delas ainda falta qualquer coisa (a outras muito!) para que possam ter direito a tal designação. Não faria sentido alongar-me muito num livro que faz tudo por resumir: entre uma tira brilhante e outra nem tanto, é uma hora de divertimento.

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Ler na diagonal

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