Os anões

Escrito no início da década de 1950, este é o único romance de Harold Pinter, autor que depois se viria a dedicar à escrita para teatro, área em que conseguiu grande reconhecimento. No início do livro, numa breve nota, o escritor explica que só passados cerca de quarenta anos, após uma atenta revisão e o corte de cinco capítulos que considerou supérfluos, achou que Os anões merecia publicação. O que mais sobressai deste livro é a indicação clara de que Pinter escolheu bem a vertente da escrita a que se dedicou: a construção dos diálogos e das próprias personagens, o cuidado em situá-los e descrevê-los fisicamente, revelam uma espécie de preocupação cénica e uma ideia muito teatral da história. A adaptação de Os anões a teatro chegou mesmo a acontecer, mas nessa altura Pinter resolveu omitir uma personagem central da narrativa – Virgínia – e admite que, talvez por isso, a peça tenha resultado algo abstracta. De facto, custa entender o que se pode retirar do romance (e duvido que fosse diferente com a adaptação teatral) sem a presença e influência de Virgínia. É que, centrando-se o enredo na estranha amizade entre três jovens muito diferentes, é essa personagem feminina a responsável pelo “agitar de águas” decisivo e que precipita o livro para as mais conseguidas dez ou vinte páginas finais. Pelo meio, sobra muitas vezes a sensação de que havia mais do que cinco capítulos supérfluos na narrativa e de que a tesoura de Pinter podia ter sido mais exigente, aquando da revisão da obra.
As já referidas páginas finais acabam por salvar Os anões de uma desilusão que, até esse momento, enquanto romance, prometia ser quase total.

Anúncios
Com as etiquetas ,

2 thoughts on “Os anões

  1. Passados 40 anos? tanto tempo na gaveta? !

    Tenho lido alguns dos Prémio Nobel, mas ainda não li nenhum do Pinter. São tantos também, mas tenho lido por ordem decrescente. Os últimos têm sido os primeiros 🙂

    Gostar

    • Carriço diz:

      Miguel, este é daqueles casos em que o Nobel não chegou pelo romance (ate por ser o único). Não é daqueles livros que aconselhe sem reservas.

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: