Monthly Archives: Maio 2012

Eyeoneye


Vídeo novo. Desculpa suficiente para voltar a Andrew Bird.

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Chamam-lhe acordo ortográfico

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Neste caso, é uma espécie de “o leitor que se desunhe e decida como ler”. Coisa coerente e naturalmente simplificadora.

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Dostoiévski enquanto criador

Dou por mim a pensar se o mundo não seria um lugar melhor se tivesse sido criado por Dostoiévski. Tudo porque recordo Crime e castigo como uma experiência única, em que criações tão distintas como um assassino, um bêbado e uma prostituta conseguem que o leitor se apiede e preocupe com eles da mesma forma que com outras personagens, aparentemente impolutas. Fosse o mundo responsabilidade do escritor russo e talvez hoje nos conseguíssemos olhar de melhor forma.
A redenção de Deus é uma: sempre poderá reclamar a responsabilidade pela criação do próprio Dostoiévski.

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Tosca declaração de amor

Conquistaste-me pelas tuas qualidades. Muitas qualidades. Agora, apesar de um ou outro protesto, conquistas-me todos os dias com os teus defeitos. Poucos. Os mais pequenos e cómicos defeitos.

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A vida dos outros

A vida dos outros, se os outros não estão nos filmes ou nos romances, merece-lhe apenas uma olhadela por cima do ombro e uma consideração aborrecida.

Juan Marsé, Caligrafia dos sonhos
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Roteiro literário


Começar pela Barcelona de Marsé, passar pela Varsóvia de Gombrowicz e terminar por terras russas. Vai ser viagem para os próximos meses.

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Dora Bruder

20120522-233232.jpgUm anúncio de jornal dá como desaparecida Dora Bruder, uma jovem de origem judaica. A partir desse momento, o narrador dá início à procura de dados que possam ir compondo a história dessa jovem. Entretanto, enquanto se vai seguindo o fio dos acontecimentos que levaram ao desaparecimento de Dora Bruder, vai sendo revelado ao leitor um tempo em que as ruas de Paris não eram para todos. O anti-semitismo, enquanto objecto literário, não é novidade. Há imensos livros e imensas perspectivas sobre o tema; Dora Bruder trata-o de forma muito superficial, diria que, em comparação com outros, quase indolor. Patrick Modiano, com uma escrita tão simples quanto a narrativa, conta uma história sem realmente conseguir envolver. Ao lado de obras como Tudo o que tenho trago comigo (o melhor exemplo de que agora me recordo), este é um livro menor. Ainda assim, para um leitor que não seja dado ao sofrimento (e a isso Herta Müller não nos poupa), Dora Bruder pode ser uma leitura agradável.

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Página em branco


[Há malta que não se pode esquecer.]

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Marca de água

Marca de águaJoseph Brodsky foi, essencialmente, poeta. Entre os poemas, lá foi trazendo ao papel algumas narrativas. Marca de água é um desses exemplos. O autor russo deixa bem claro o seu propósito logo nas páginas iniciais do livro.

Aquilo que se segue, por conseguinte, tem mais que ver com o olhar do que com as convicções, incluindo as respeitantes ao modo de organizar uma narrativa. O olhar precede a pena, e decidi não permitir que a minha pena minta sobre a sua posição. Se corri o risco de uma acusação de blasfémia, não é a de superficialidade que me fará estremecer. As superfícies – aquilo que o olhar regista primeiro – são muitas vezes mais reveladoras que o seu conteúdo, por definição provisório, salvo, é claro, na vida depois da morte.

E é esse olhar de poeta, carregado de preocupações estéticas, que se faz sentir ao longo de toda a obra. As palavras de Brodsky são trabalhadas e escolhidas ao detalhe, conjugando a beleza da Veneza retratada com as linhas que o fazem. Marca de água é um livro de imagens, de luz e de água. É, também, uma verdadeira homenagem a Veneza. Para quem conhece a cidade, é um livro mais que obrigatório; para quem, como eu, não a conhece, é um enorme cartão de visita, o mais perfeito dos panfletos turísticos.

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Um jantar a mais

Parti para este Um jantar a mais com muita expectativa. Ismail Kadaré, que já venceu alguns prémios literários importantes e acaba sempre por ser referido como candidato ao nobel, faz da sua cidade natal o ponto fulcral de uma história de guerra e pós-guerra. Da passagem de uma coluna alemã por Gjirokastër, vai desenrolar-se um misterioso jantar para o qual muitos anos depois ainda se procurarão respostas. O enredo parece prometer, as personagens têm tudo para ser bem aproveitadas, mas a verdade é que o que de melhor estas páginas trazem é o que os livros de história documentam. Kadaré perde-se (ou leva o leitor a perder-se) em sucessivos enigmas e passa pelas personagens de uma forma demasiado superficial, quando algumas delas tinham tudo para ser interessantes.
Apesar destes reparos e da ideia geral de desilusão com Um jantar a mais, é preciso salvaguardar que a escrita do autor albanês é muito precisa. Não vou descartar Ismail Kadaré sem me lançar a outra obra sua.

[Mais uma nota à edição: alguns erros, um deles um gritante “esperimentara”.]
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Correcções

Quando decidi ler Liberdade, aproveitei uma promoção e comprei também Correcções – desde essa altura, há cerca de um ano, que o livro estava na prateleira. Começando pelo fim, a conclusão a que chego é que esperei demasiado. Correcções é, a exemplo de Liberdade, um grande livro sobre o quotidiano. Retrata outra época (e, obrigatoriamente, outros costumes, outros hábitos), mas é, tal como havia escrito sobre o seu antecessor, um exercício de encadernação da vida. Poder-se-ia dizer também que é um livro sobre a família. Toda a narrativa se desenrola em volta de um casal, Alfred e Enid Lambert, que tenta reunir em casa, para um último Natal, os seus três filhos. Numa estrutura em que cada capítulo vai dando a perspectiva de cada elemento da família na preparação dessa reunião familiar, o leitor vai acompanhando as diferenças, os conflitos e o afastamento (não só físico) que a vida e o quotidiano provocam. O facto ser diagnosticada a doença de Parkinson a Alfred acelera tudo. Assistimos a uma corrida de decadência de um homem (a gradual perda de capacidades), à luta cada vez mais difícil e só de uma mulher e às dificuldades de vida dos seus filhos. E é lá para o final que está guardado o melhor do livro: quando uma família que parece uma ruína se evidencia como o melhor porto de abrigo de todos os seus membros. O que Franzen começa a fazer crer ser uma crítica (com a evidência dada a todas as diferenças, todos os conflitos), termina, ainda que não de forma muito evidente, muito denunciada, como um rasgado elogio. Diz Lobo Antunes que “viver é escrever sem corrigir”; com este livro, Franzen diz que viver é irmo-nos corrigindo.
Nas suas mais de quinhentas páginas, há alturas em que uns quantos episódios parecem dispensáveis (e até podem ser), mas assim que o leitor se aproxima do final, isso é coisa que deixa de interessar.
Correcções é, tal como Liberdade, um grande livro. Eu, se isto dos gostos não fosse tão subjectivo, arriscava dizer que maior.

[Nota minúscula para a também minúscula fonte que a edição da D.Quixote escolheu usar.]
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Não preciso de perfeição

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A realidade segundo Franzen

Leio as notícias e a realidade parece-me ficção. Leio Franzen e a ficção parece-me, mais que credível, real.

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Um abraço de Juan Marsé

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[Trouxe-mo o Mário Rufino, a quem agradeço muito.]

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A insustentável leveza de um livro

Há dias, na Prova Oral, a conversa era entre Fernando Alvim, Xana Alves e Nuno Camarneiro. O tema, como e óbvio, foram os livros. A determinada altura, os apresentadores do programa mostraram alguma estranheza para com as pessoas que andam na rua com livros grandes. Diziam que, para quem anda de transportes públicos ou aproveita a hora de almoço para ler, o ideal eram os livros de bolso. Chegaram a afirmar que quem anda na rua com um “tijolo de papel” pretende apenas fazer uma espécie de statement, mostrar-se mais culto do que realmente é. Nuno Camarneiro não foi tão longe, mas também não contrariou. Ora, como generalização que se preze, esta ideia não falhará poucas vezes. Pessoalmente, não avalio um livro pelo tamanho: já li coisas brilhantes com menos de cem páginas em livro de bolso (A morte de Ivan Ilitch, por exemplo) e coisas bem menos interessantes com mais de trezentas páginas (Os predadores, também como exemplo). Acontece que, quando o livro é realmente bom, quando a escrita realmente prende, um livro grande consegue outro impacto, outra abrangência. Se a ideia de um livro é encadernar o mundo, a vida, fica mais fácil consegui-lo em muitas páginas. Não vejo como é que o número de páginas de um livro pode ser visto como uma demonstração de intelectualidade. Um livro desperta-me interesse por alguns motivos: autor, título, capa, sinopse ou crítica lida; nunca o número de páginas. Segundo a teoria de Alvim e Xana Alves, se um livro que me despertou interesse tiver mais de umas trezentas páginas, só porque vou ler fora de casa, devo dispensá-lo e procurar um mais cómodo livrinho de bolso? Que escolha redutora. Que teoria redutora.

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Viver é escrever sem corrigir

Sentado à janela, olhava a chuva, que adivinhava fria como a superfície do vidro que tocava. Isto é cena para se repetir numa data de romances, mas aqui a história era bem real e as personagens eram de carne e osso. A chuva também era bem real e só não molhava porque estava do outro lado. Era uma chuva tão miúda que, ao invés de cair, parecia correr lateralmente, como se de um cortinado se tratasse. O vento tocava-a e revelava nela uma leveza que à partida não se pensaria associar à chuva. Sentado à janela, olhava a chuva, que já não tinha a certeza de ser fria. Uma chuva que não molhava, que era leve e que já nem sequer parecia fria. Olhava para a chuva e já não a sabia real ou ficcionada. Já não sabia se era de carne e osso ou se era o resultado de um conjunto de descrições. Já não sabia se tinha uma vida ou um enredo. Ocorreu-lhe uma frase de António Lobo Antunes, que diz que “viver é escrever sem corrigir”, e concluiu que talvez não houvesse desvantagem na segunda hipótese. Sentado à janela, continuou a olhar a chuva. Alguém haveria de virar a página.

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