Viver é escrever sem corrigir

Sentado à janela, olhava a chuva, que adivinhava fria como a superfície do vidro que tocava. Isto é cena para se repetir numa data de romances, mas aqui a história era bem real e as personagens eram de carne e osso. A chuva também era bem real e só não molhava porque estava do outro lado. Era uma chuva tão miúda que, ao invés de cair, parecia correr lateralmente, como se de um cortinado se tratasse. O vento tocava-a e revelava nela uma leveza que à partida não se pensaria associar à chuva. Sentado à janela, olhava a chuva, que já não tinha a certeza de ser fria. Uma chuva que não molhava, que era leve e que já nem sequer parecia fria. Olhava para a chuva e já não a sabia real ou ficcionada. Já não sabia se era de carne e osso ou se era o resultado de um conjunto de descrições. Já não sabia se tinha uma vida ou um enredo. Ocorreu-lhe uma frase de António Lobo Antunes, que diz que “viver é escrever sem corrigir”, e concluiu que talvez não houvesse desvantagem na segunda hipótese. Sentado à janela, continuou a olhar a chuva. Alguém haveria de virar a página.

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