Monthly Archives: Junho 2012

Portugal

Fomos muito competentes. Só faltou uma pontinha de brilhantismo para passarmos. Provámos que era possível. Que se lixem as vitórias morais e que se felicite o vencedor, que tem uma belíssima equipa. Fomos mais longe do que a nossa realidade deixa prever, porque tivemos alma. Bento não tem, nem de perto, o toque de Midas. Moutinho ter falhado o penalty tirou-me uma dúvida que me assaltou durante 120 minutos: afinal, é mesmo humano.

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Aproximação à verdade

Uma pessoa aproxima-se da verdade quando se afasta dos homens.

Elias Canetti, Auto-de-fé
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Hoje preferia não me ter encontrado

Um percurso, vários percursos. Em Hoje preferia não me ter encontrado, o leitor começa por acompanhar a viagem da narradora para um interrogatório.
No entanto, depressa essa viagem se desdobra em muitas outras. Durante o trajecto do eléctrico, são recordadas anteriores idas a interrogatório, revelados medos e ambições.

Quis prepará-la para o primeiro interrogatório, em que o céu da boca sobe e se mete pelo cérebro dentro com um sabor adocicado. Acontece o mesmo no segundo, e em todos, mas a gente já não se assusta.

Não são necessárias muitas páginas para que se percebam as dificuldades de viver na Roménia de Ceausescu, onde a Securitate controlava de forma apertada a liberdade de expressão e toda e qualquer forma de oposição.
Tal como em Tudo o que tenho trago comigo, a escrita de Herta Müller é simultaneamente sensível e crua, não oscilando tanto entre um extremo e o outro, neste caso. O pior “inimigo” deste Hoje preferia não me ter encontrado acaba mesmo por ser a comparação com o anteriormente referido livro da autora. Ainda assim, valendo metade desse título, este livro ainda tem o suficiente para ser recomendável.

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O luto no leito

A minha mãe vai para a cama com o segundo marido e cobre-se com a morte do primeiro.

Herta Müller, Hoje preferia não me ter encontrado
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Não sei dizer se me estou a repetir…


… mas não é coisa que, neste caso, interesse.
(Falta pouco mais de um mês!)

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Voltar a ler os clássicos

Voltar a ler os clássicos é uma chamada de atenção do filósofo francês Roger-Pol Droit para o abandono da leitura dos clássicos na educação moderna. De uma forma bem estruturada, vai enumerando os ensinamentos que se podem retirar das obras de autores como Homero (que foi realmente um nome, mas não se sabe se singular), Virgílio, Séneca, Epicuro, Sófocles, Aristóteles e por aí fora. O viver, o saber e o rir são as principais temáticas. Roger-Pol Droit consegue, com esta obra, coisas distintas para públicos distintos: despertar o interesse do leitor comum para as obras que vão sendo apresentadas (e são imensas) e abrir interessantes e importantes discussões para quem faz vida das letras. Não é leitura que recomende a toda a gente (para quem não tenha o mínimo interesse e curiosidade na literatura, será um livro enfadonho), mas é livro que atinge em pleno aquilo a que se propõe.

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Jogar fora das quatro linhas

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Mais fotografias no sempre aconselhável The Big Picture.

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A arte de morrer longe

20120613-235855.jpgCheguei a este livro por mérito exclusivo do seu título. Ainda não conhecia nada de Mário de Carvalho e já este poético A arte de morrer longe funcionava em mim como factor suficiente para lhe dedicar o meu tempo. Terminada a leitura, não posso esconder alguma desilusão. O livro, que se debruça sobre o desgaste de uma relação, passa com demasiada superficialidade sobre as personagens e sobre um tema que já vimos outros autores aprofundarem de forma brilhante. Há, a espaços, frases realmente bem conseguidas, mas fica sempre a sensação de que são essas frases que se estão a servir do livro, quando devia ser o contrário. A erudição de uma ou outra passagem não só não abrilhanta a prosa como parece até romper com a narrativa. Fica então a ideia de que há por ali um livro (superficial, acelerado) e umas frases bem buriladas, mas soltas. Em A arte de morrer longe, são mais as coisas de que se sente falta do que as que prendem: falta densidade às personagens, falta profundidade na abordagem temática e falta, essencialmente, unidade à narrativa. Mário de Carvalho define a sua obra como Cronovelema, termo que pretende caracterizar uma forma híbrida entre as crónicas, a novela e o poema. As primeiras, pela dispersão, entendem-se; a novela é frágil; o poema morre no título, longe do que era esperado.

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A impossibilidade de me situar

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[Novamente via Delicatessen]

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História secreta de um romance

20120611-003624.jpgEste pequeno livro é transcrito de uma conferência de Mario Vargas Llosa sobre a construção de um romance. No fundo, funciona como quando alguém nos descreve um espaço seu. Neste caso, o espaço do autor é o seu romance A casa verde. Vargas Llosa, ao descrever as suas motivações, o seu método e as mecânicas por si empregues nesse livro, permite ao leitor uma viagem aos bastidores da literatura, uma viagem que se sente muito autêntica, muito verdadeira, nada empolada. História secreta de um romance é, além disso, um forte convite à leitura de A casa verde, título que está desde já anotado.

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A violência das palavras

Violência! Afinal não é essa a característica primária dos homens? Um homem é aquele que exerce violência, que se impõe pela força. Um homem é aquele que reina! Um homem não pergunta se agrada ou náo, preocupa-se apenas com o seu próprio prazer. O seu gosto é que decide o que é belo e o que é feio, para si próprio e só para si! Um homem foi feito para si mesmo e para mais ninguém!

Witold Gombrowicz, Pornografia
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Pornografia

20120609-233252.jpg Witold Gombrowicz é um dos nomes mais importantes da literatura polaca e tem neste Pornografia uma das suas mais reconhecidas obras. Há, nas quase duzentas páginas deste romance, uma preocupação descritiva constante, em que tanto os cenários como os estados de espírito são “desenhados” ao pormenor. Pornografia, convém esclarecer, merece o título não pelas razões mais imediatas ou mais óbvias. O factor pornográfico desta narrativa assenta na ideia e intenção de dois homens condicionarem e manipularem dois jovens que entendem terem sido feitos um para o outro. Nem o facto de Henia, a jovem personagem, estar noiva de um advogado os vai impedir de tentar a aproximação que entenderam ser tão natural. Em redor desta trama principal, o leitor vai também poder assistir a uma breve apresentação (aqui sim, superficial) de uma Polónia em estado de guerra. Witold Gombrowicz (personagem homónima do autor e também escritor) e Fryderyk acabam por vivenciar um assassinato e nem esse acontecimento é poupado nas suas manipulações.
Pornografia é também uma constante chamada de atenção às insignificâncias, que podem muito bem revelar-se coisas da maior importância e de verdadeiro relevo. Gombrowicz (aqui o autor, não a personagem) debruça-se ainda nas sempre interessantes questões da idade, da maturidade e da identidade. O livro arranca de forma muito evasiva, sem realmente mostrar ao que nos conduz, mas vai ganhando interesse à medida que a trama se vai desenrolando. E o ritmo vai aparecendo, até ao alucinante (em termos de concisão e de objectividade) último capítulo. Aí, tudo se precipita num final não totalmente inesperado, mas ainda assim emocionante.
Acrescentaria que a introdução à edição portuguesa (da tradutora Teresa Fernandes Swiatkiewicz), se não é dispensável é, pelo menos mais aconselhável para o final do livro (demasiado esclarecedora sobre o que se passa, criando umas expectativas e limitando outras). Como introdução, julgo ser mais que suficiente prólogo do autor.
Resta dizer que esta não é uma leitura que arrebate desde as primeiras linhas e que a descrição chega a ser exaustiva, mas não deixa de ser uma obra interessante e merecedora de atenção.

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Os direitos do leitor

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[Via Delicatessen]

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Geometria descritiva

As portadas abertas anunciavam uma manhã com umas nuvenzitas sobre o jardim, azulado e orvalhado, enquanto o Sol, ainda baixo, despontava na linha do horizonte com os seus raios pontiagudos e tudo parecia dispor-se numa combinação inclinada, numa projeção geométrica e longitudinal – um cavalo oblíquo, uma árvore coniforme! Que divertido! Divertido e engraçado! Os planos horizontais erguiam-se no ar e os planos verticais tornavam-se oblíquos!

Witold Gombrowicz, Pornografia
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Caligrafia dos sonhos

A história de Marsé confunde-se em alguns aspectos com a de Ringo, o jovem protagonista de Caligrafia dos sonhos. O trabalho em ourivesaria é um desses aspectos e revela-se em pleno na escrita do autor catalão. Há ali um trabalho de detalhe, de rigor, de minúcia e de estética. O resultado são livros preciosos. Neste livro, Barcelona volta a ser o cenário natural de uma narrativa terna e recheada de personagens também elas ternas. Ringo, a exemplo de David em Rabos de lagartixa, é um rapaz de grande imaginação. Estudante de música, vê o destino dar uma volta quando perde um dedo e se vê impossibilitado de tocar piano. Agarra-se aos livros e à vida dos outros (tudo o que vai ouvindo no bar) e depois acaba por se dedicar à escrita. Tal como Marsé, mais uma vez.
Caligrafia dos sonhos tem também a particularidade de ter uma inesperada reviravolta final. Inesperada, mas que justifica (e até se passa a sentir como essencial, depois de ocorrida) tudo o que anteriormente havia sido escrito. Uma reviravolta que vale mais pelo que faz das personagens e das suas relações, coisa que, nos romances de Juan Marsé, vale infinitamente mais do que a história.
Ao segundo livro lido, é a entrada do escritor espanhol para a galeria do meus favoritos. Tanto que, assim que surgiu oportunidade, troquei dois outros livros por O feitiço de Xangai, o único, dos editados em Portugal, que ainda tenho por ler.
Caligrafia dos sonhos não será um livro para agradar a massas, mas eu confesso-me rendido.

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Lembrete

Para dizer ao meu filho no dia em que suspeitar que ele o vai entender: tens uma mãe de outro mundo.

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