Caligrafia dos sonhos

A história de Marsé confunde-se em alguns aspectos com a de Ringo, o jovem protagonista de Caligrafia dos sonhos. O trabalho em ourivesaria é um desses aspectos e revela-se em pleno na escrita do autor catalão. Há ali um trabalho de detalhe, de rigor, de minúcia e de estética. O resultado são livros preciosos. Neste livro, Barcelona volta a ser o cenário natural de uma narrativa terna e recheada de personagens também elas ternas. Ringo, a exemplo de David em Rabos de lagartixa, é um rapaz de grande imaginação. Estudante de música, vê o destino dar uma volta quando perde um dedo e se vê impossibilitado de tocar piano. Agarra-se aos livros e à vida dos outros (tudo o que vai ouvindo no bar) e depois acaba por se dedicar à escrita. Tal como Marsé, mais uma vez.
Caligrafia dos sonhos tem também a particularidade de ter uma inesperada reviravolta final. Inesperada, mas que justifica (e até se passa a sentir como essencial, depois de ocorrida) tudo o que anteriormente havia sido escrito. Uma reviravolta que vale mais pelo que faz das personagens e das suas relações, coisa que, nos romances de Juan Marsé, vale infinitamente mais do que a história.
Ao segundo livro lido, é a entrada do escritor espanhol para a galeria do meus favoritos. Tanto que, assim que surgiu oportunidade, troquei dois outros livros por O feitiço de Xangai, o único, dos editados em Portugal, que ainda tenho por ler.
Caligrafia dos sonhos não será um livro para agradar a massas, mas eu confesso-me rendido.

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