Monthly Archives: Julho 2012

Os livros que devoraram o meu pai

Os livros que devoraram o meu paiNão adianta adiar, este Os livros que devoraram o meu pai foi uma surpresa muito agradável. Com uma escrita simples (afinal, o narrador e protagonista da história é um jovem), Afonso Cruz consegue entreter e, ao mesmo tempo, tocar em aspectos interessantes. É um livro carregado de outros livros, de histórias dentro de histórias e de personagens mais ou menos reconhecidas e que se cruzam no caminho do jovem Bonfim na procura pelo seu pai. Como, à literatura, o entretenimento não basta, o autor vai deixando considerações sobre a vida, a consciência e a condição humana.

O rés-do-chão não serve à literatura. Está muito bem para a construção civíl, é cómodo para quem não gosta de subir escadas, útil para quem não pode subir escadas, mas para a literatura há que haver andares empilhados uns em cima dos outros. Escadas e escadarias, letras abaixo, letras acima.

O leitor descobrirá rapidamente o maior problema deste livro. Tão rapidamente quanto se aproximar do seu final. Com este livro, com esta surpresa, Afonso Cruz consegue despertar o interesse para o que resta da sua obra.
Leitura divertida e aconselhadíssima.

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Café Central #11

Não tem sido uma página com actualizações muito frequentes, mas com uma ou outra ajuda, lá vai seguindo caminho. Já são onze, mas não dão para fazer uma equipa de futebol. Este fica em Quiaios.

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Segura-te ao meu peito em chamas

O nylon da minha aldeia é uma novela de Possidónio Cachapa. Este título, que nunca me seduziria, está incluído neste livro de título que me seduziu, Segura-te ao meu peito em chamas. A novela (que, ao que parece, já teve adaptação cinematográfica, numa curta-metragem do próprio autor) merece o pouco tempo que requer do leitor. Numa escrita precisa, Possidónio Cachapa conta a história de dois personagens muito curiosos que vivem uma época e um espaço rural não muito distantes (o Alentejo da década de 70), Marcelo e Lourdinhas. Vi-me, com relativa facilidade, transportado para o universo de Valter Hugo Mãe, algures entre o remorso de baltazar serapião  e O filho de mil homens: a ruralidade e a adequação da linguagem tem muito do primeiro; as vidas condicionadas e problemáticas (quase trágicas) dos personagens tem paralelo em ambos; e o desenrolar da história no sentido da felicidade lembra muito o segundo. Mas isto é só o que os aproxima, muitas mais são as coisas que os diferenciam e que fazem valer a pena a sua leitura. Contornando meia dúzia de lugares comuns, encontramos neste curto O nylon da minha aldeia uma escrita agradável e cuidada que favorece a ternura da história narrada.
Se, falando de Segura-te ao meu peito em chamas, ainda só aqui constam referências a O nylon da minha aldeia, é fácil de perceber que, terminada esta novela, o livro decai bastante. Daí em diante, a escrita mantém-se agradável, mas não volta a conseguir o efeito obtido no texto de abertura, o que faz com que alguns defeitos (os já referidos lugares comuns, uma ou outra metáfora mais forçada…) se tornem mais visíveis, mais claros. Se há razão para pegar neste livro, ela surge logo nas primeiras páginas.

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Do concerto

Vou ser curto: foi incrível! Encaixou tudo na perfeição e ficou tudo agigantado pelas inevitáveis imperfeições de uma actuação ao vivo. Alguns arranjos foram brilhantes. Gostava de ter ouvido Flume e For Emma, mas não sei por que temas ontem tocados os trocaria. Estes tipos (e Justin Vernon principalmente) têm música em tudo o que fazem. Final fantástico!!

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Hoje

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O último livro

É preciso chegar às páginas finais deste O último livro para se perceber que a ideia de Zoran Živković era boa. Acontece que o autor, talvez deslumbrado pela estrutura e pela trama que imaginou, se esqueceu de povoar o livro de coisas interessantes. Assim, em mais de duzentas páginas, assiste-se a um romance policial tão vazio e tão pobre que nem a revelação final, a da estrutura do livro (essa sim, interessante), é capaz de salvar. As personagens principais, um polícia formado em literatura e uma bibliotecária, andam ao sabor de uma narrativa que tem como única preocupação caminhar para o final sem desvendar demasiado. Não há suspense que valha a um livro tão desabitado. Como se já não bastasse, Živković, muito ao estilo José Rodrigues dos Santos, convoca para o seu enredo uma misteriosa seita. É a estocada final. Julgo mesmo que o autor se terá apercebido, na revisão do livro, do pouco que fez com a sua ideia original, facto que o terá levado a atribuir à personagem do polícia bibliófilo a seguinte consideração (reduzo ao máximo, para não desvendar o que quer que seja ao improvável leitor que, por esta altura, ainda esteja interessado em pegar no livro):

– Na verdade, ele escolheu. Ele não considera os romances de detectives literatura light.

Sou obrigado a dizer que, neste caso, talvez devesse. Faça-se justiça ao desafortunado mérito do título do livro: no meu caso, e apesar de tudo de bom que tenho lido acerca de A biblioteca, deverá ser o último de Zoran Živković.

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Pan

PanNa mitologia grega, Pan é o Deus das florestas, dos campos, dos rebanhos e dos pastores. Pan viveria em grutas e percorreria vales e montanhas em busca de caça e dançando com ninfas. A sua representação teria características humanas e animais (chifres e pernas de bode, por exemplo). A verdade é que a história que Knut Hamsun conta tem muito em comum com o que a mitologia grega refere acerca deste Deus. O Tenente Glahn acaba por ser uma versão humana de Pan, que também se viu iludido e viveu um amor negado. Este é um romance de amor – daquele amor intenso e ao mesmo tempo trágico que só antigamente parecia possível. A natureza tem, nas breves páginas deste livro, uma importância capital , como seria de esperar. É ela que vai marcando o ritmo e o desenrolar da história e, principalmente, diferenciando as fases do amor vivido pelo Tenente Glahn.
Confesso que, sem me desagradarem, as páginas iniciais de Pan prometeram muito menos. O capítulo final, pleno de tensões e revelações interiores, coloca o livro num outro patamar.
Knut Hamsun tem uma escrita imaculada e que convida seriamente a outros romances seus. Fome, talvez o mais aclamado deles, é apenas uma questão de tempo.

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Madeira

O Funchal arde e as nossas televisões, habituadas a retransmissões de CNN, BBC e afins, também ardem. Há não muito tempo, a mesma cidade esteve debaixo de águas violentas. A Madeira já merecia algum descanso.

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Norway


A poucas páginas de terminar Pan, de Knut Hamsun, não fica mal trazer a Noruega até aqui, através dos Land of Leland.

[Via Slowcoustic]

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Auto-de-fé

Auto-de-féAuto-de-fé nasce direitinho por linhas tortas. Inicialmente, Canetti tinha ideias diferentes para a estrutura do livro (que seria composto por oito partes, cada uma correspondendo a um personagem tipo), para o título e para o nome do personagem principal. Do que originalmente tinha pensado, manteve-se o facto de o personagem principal ser um homem-livro e o final do livro (que não desvendo). Das restantes personagens imaginadas à partida, o autor conseguiu aproveitar o suficiente para conseguir juntá-las num mesmo volume e mantê-las perfeitamente definidas e singulares. Peter Kien, o erudito sinólogo apaixonado por livros, dono de uma memória ímpar (o tal homem-livro) é totalmente distinto de Teresa, a inculta empregada; estes, por sua vez, são em tudo diferentes de Fischerle, o anão ladrão, e assim sucessivamente. Cada personagem representa um estrato social e quase todos (à excepção de Kien, o menos verosímel dos personagens) são, ainda hoje, identificáveis. Auto-da-fé é, então, uma sátira à sociedade, às suas relações e à condição humana. Diz Rushdie sobre este livro que “ninguém é poupado”.
O único senão desta obra (e de muitas obras de extensão semelhante) é, por vezes, o lento avanço, o repetido divagar por determinados aspectos que, no final, não parecem ter a relevância esperada. Auto-de-fé é uma leitura difícil, não adianta esconder; nem sempre está tão perto do julgamento impiedoso como o título poderia sugerir (tarefa impossível para mais de quinhentas páginas, admita-se); mas ganha fôlego na terceira e última parte, principalmente com o aparecimento do irmão de Peter, um médico (ex-ginecologista) que gere um manicómio e que é o oposto do sinólogo.
Elias Canetti cumpre aquilo a que se propôs (revelado no posfácio) quando se lançou na escrita deste livro. Ainda hoje, dificilmente não revemos a sociedade nestas páginas, com todas as pequenas diferenças naturais da passagem do tempo, mas com todas as inalteradas características (as piores, diria) humanas.

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Da perfeição

Ninguém é perfeito, mas se um dia me vir sem ti (toc, toc, toc), não me contento com menos que isso.
(Obrigado pela dedicação de hoje, de ontem e de sempre.)

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Diga 33!

Há pouco a dizer, o essencial é que estes trinta e três já ninguém mos tira e que foram muitíssimo agradáveis de viver. Eu sei que é pedir muito, mas venham mais destes.

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Campanha brilhante

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O Esporte Clube Vitória vai arrancar a época sem o vermelho das suas camisolas. Ao longo da época, consoante a quantidade de sangue que forem conseguindo recolher, vão recuperando o vermelho risca a risca. O futebol também serve para isto.

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Simbiose imperfeita

A leitura dá uma mão à vida. A vida é que nem sempre pode retribuir.

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A poesia da derrota

A poesia da derrota
Excerto de crónica de Manuel Jorge Marmelo à Revista 2.
(A qualidade da imagem, péssima, é a possível.)

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Vozes que fazem falta


Landslide, participação de Antony no álbum de tributo aos Fleetwood Mac., Just tell me that you want me.

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