Monthly Archives: Agosto 2012

Os objectos chamam-nos

Os objectos chamam-nosOs meus primeiros encontros com Juan José Millás deveram-se aos seus textos jornalísticos. Quis o destino que um meu amigo, jornalista, fosse atento seguidor do que o autor espanhol vai escrevendo e, com isso, foi crescendo a minha curiosidade. Recentemente, quase de uma assentada, chegaram às minhas mãos três livros de Millás, Duas mulheres em Praga, Assim era a solidão e Os objectos chamam-nos. Foi a este último que dei prioridade. Numa série de breves textos, o autor vai catalogando a vida nas suas mais pequenas coisas, nas suas particularidades, no que nela há de mais banal. Estas pequenas narrativas são, portanto, uma espécie de crónicas do quotidiano. Partindo do mundano, Millás leva o leitor a questões interessantes como a identidade e o livre-arbítrio, por exemplo, sem perder uma sempre presente ponta de humor e sem deixar de resvalar, aqui e ali, para o nonsense.
Os objectos chamam-nos é um livro que confirma a qualidade de escrita já encontrada nos textos jornalísticos do escritor espanhol e que se lê com agrado. Não será, no entanto, daqueles livros que perdurem no leitor. A próxima incursão à obra de Millás terá que passar pelo romance.

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Ballad of big nothing


Porque tudo é feito de “nadas”.

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A mecânica da ficção

A mecânica da ficçãoJames Wood é um dos críticos mais influentes da actualidade e, mais do que isso, alguém com habilitações mais do que suficientes para se debruçar sobre a literatura, sobre a ficção. Neste curto livro, são desvendados alguns truques dos maiores escritores, dos clássicos aos contemporâneos. Wood assume o papel de médico legista e faz uma autópsia a todo o processo de escrita ficcional, das personagens ao discurso e até mesmo ao estilo. Depois de ler este A mecânica da ficção, dificilmente se muda a forma de olhar para o romance, de o ler. James Wood consegue, com este breve livro, fazer do leitor um melhor leitor. É, portanto, uma obra muito recomendável.

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Café Central em dose dupla

São eles o Café Central #12 e o Café Central #13. No Alvor e em Paredes de Coura, respectivamente. Um capturado em tempo de férias (com tiques de estrangeirismo), outro enviado pela amiga Sara Rosas, a quem volto a agradecer. Que muitos mais se sigam.

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Sintomas de uma doença Aguda

De volta ao apeadeiro, as mesmas ruas, novos sentidos e novas proibições. Agora com loja de chineses, como toda a localidade que se preze. A mesma praia, a mesma gente, outra gente. O mesmíssimo mar, o mesmíssimo ar. Um regresso de poucos dias, o suficiente para reavivar sintomas de uma doença Aguda.

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Amanhã

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Goodbye, Columbus e cinco contos

Goodbye, Columbus e cinco contosEste livro chegou recentemente à tradução portuguesa, mas a verdade é que Goodbye, Columbus foi a primeira obra publicada de Philip Roth. Hoje, depois de ter lido alguns dos seus livros e, de entre eles, o magnífico Pastoral americana, precisava de pouco ou nada para me convencer da capacidade do autor, mas a verdade é que quem “arranca” com uma coisa como Goodbye, Columbus não pode ser ignorado. Já lá estão as principais características da escrita de Roth e as ideias base de toda a sua obra. Já lá está muita intensidade, muita luta interior, muito conflito e aprendizagem. É caso para dizer que foi um começo à altura do que depois surgiu. Neste livro, para além de Goodbye, Columbus, foram também editados cinco contos seus. Corro o risco de me tornar repetitivo ao reafirmar que esse não e o meu género preferido, mas a verdade é mesmo essa. Apesar disso, Philip Roth tem entre estes cinco contos, sem desprimor para os restantes, dois magnificamente conseguidos, que são Epstein e Eli, o fanático. Terminado o livro, fica reforçada a ideia de que Roth é um nome incontornável da literatura. Teatro de Sabbath está na prateleira e não merece esperar muito.

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O fim da inocência e outros contos

O fim da inocência e outros contosNão sendo os contos o meu género de eleição (fico, muitas vezes, com a sensação de lhes faltar alguma coisa), atirei-me a esta leitura de forma interessada. O conto que dá título a este livro não foi a melhor experiência de abertura, mas há, nestas breves páginas, dois contos que servem para salvar qualquer coisa menos conseguida. Refiro-me a Last man standing e a Flores. No primeiro caso, há qualquer coisa de Saramago no conto, uma espécie de ensaio sobre a consciência numa sociedade em que os estímulos exteriores quase sempre nos fazem alhear da “interioridade”. Gostei bastante e só lamentei não encontrar um final mais aberto, sem explicações que me parecem desnecessárias por em nada favorecerem o resultado final do texto. Em Flores, o outro conto que eleva este livro, o leitor encontra uma verdadeira história de amor. Uma terna história de amor. É também neste conto que se sente mais o autor, uma pulsão que parece conferir a esta história algo de muito verdadeiro, de já vivido, de tocante. Em suma, voltando a dizer que este não é um género que me agrade muito, esta foi uma leitura gratificante e, essencialmente pelos contos destacados, valiosa. Fica-se à espera que Mário Rufino mergulhe no romance. As ferramentas da escrita estão lá e as vivências conseguem chegar ao papel. É questão de tempo. E paciência. O leitor tem os dois e espera.

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A poesia pode fazer-se de palavras banais..

A poesia pode fazer-se de palavras banais como filho, beira de piscina e línguas de gato. Não será literatura, mas é felicidade pura.

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Se isto é um homem

Se isto é um homem Por se tratar de um testemunho sobre um acontecimento que muito me interessa, chegar a este livro seria sempre uma questão de tempo. Primo Levi viveu na pele o campo de concentração de Auschwitz e sobreviveu para contar uma realidade que parece ultrapassar as possibilidades da ficção. Se isto é um homem é um testemunho dos limites do homem. Dos limites da sobrevivência e da ausência de limites para a maldade. Já dizia Céline que só do homem devemos ter medo. Levi faz disso prova. O que se passou em Auschwitz podia ser usado (e isso é sugerido ao longo deste livro) como uma verdadeira experiência à condição humana. Normalmente, a história desses acontecimentos está descrita por datas e feitos. Se isto é um homem vai ao que de mais fundo se passou por terras polacas. Não adianta tecer grandes comentários à escrita de Primo Levi, um testemunho quer-se simples e objectivo (há poucos “desvios” poéticos, apenas os suficientes para permitir ao leitor respirar perante a dureza dos factos e dos relatos), para que possa ser perfeitamente entendido. O importante nesta obra é, mais do que a forma como se escreve, o que descreve. O dia em que o homem viu o homem como uma coisa. Este é um livro que deve ser lido, no mínimo, para que um acontecimento não seja esquecido. Recomenda-se vivamente, ainda que com merecidas advertências para a dureza das palavras.

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Colecção Mil Folhas

No seguimento da entrada anterior, fica aqui uma tabela que faz o ponto da situação da colecção. Volto a agradecer a disponibilidade demonstrada na ajuda.
Colecção Mil Folhas

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Agradecer em silêncio

Quando me mudei de casa dos meus pais, uma das coisas que trouxe foi uma caixa de livros que a minha mãe, uns anos antes, decidiu ir juntando. Por essa altura, os meus hábitos de leitura eram mais moderados, mas há coisas que, para uma mãe, o futuro não consegue esconder. Os livros em questão pertencem a uma colecção que o Público lançou e integra muitos títulos que se podem considerar obrigatórios em qualquer biblioteca. Borges, Faulkner, Kafka, Dostoiévski, Mann, Joyce, Conrad, Nabokov, entre outros, estão todos lá. Durante algum tempo, uma vez por semana, era garantido que a minha mãe pensava em mim. Foi assim durante sessenta semanas, precisamente o número de livros que trouxe na já referida caixa. Depois disso, o Público decidiu dar continuidade a essa colecção e, na sua terceira série, publicou mais umas dezenas de livros. Por razões que não recordo e não importam agora, esses últimos títulos escaparam à atenção da minha mãe. Hoje, porque lhe estou imensamente agradecido pela caixa que me entregou, ando à procura de completar a colecção. Há muito esgotada, os livros que a compõem só se conseguem ir encontrando em leilões ou em grupos de troca e venda de livros. Dos números que me faltavam, já consegui apanhar três (e deitar olho a outros dois). Tudo numa semana, como que a justificar a esperança de valorizar o que a minha mãe me deixou. Neste caso, são livros, mas a intenção é fazê-lo com tudo. É um agradecimento silencioso, mas é também o mais sentido.

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