Papéis inesperados

Papéis inesperadosComeço por dizer que Julio Cortázar é, desde O jogo do mundo, dos meus autores preferidos. Não precisava de ter escrito mais nada para o ser, mas escreveu. Da sua vasta obra, além do já referido romance, só tinha lido o pequeno volume de contos Bestiário (onde surge o brilhante As portas do céu) e A volta ao dia em oitenta mundos, um conjunto de textos sobre os mais diversos temas. E é precisamente com este último, pela forma, que Papéis inesperados mais se parece. Neste livro estão compilados textos encontrados num móvel da sua casa, em Paris. Pela dispersão de temas abordados, a obra dividiu-se em três partes principais, Prosas, Entrevistas perante o espelho e Poemas. Em cada uma dessas partes, encontram-se temas que vão desde a literatura, à política. É, se bem me recordo, logo no início que se encontra o belíssimo conto Os gatos, um daqueles textos que, por si só, justificava esta publicação. Não se fique a julgar, no entanto, que os motivos de interesse deste livro se esgotam aí. A parte das auto-entrevistas é muito interessante e, entre os poemas, há mais umas linhas com sabor intenso ao melhor de Cortázar. Talvez pela situação que hoje se vive (saturante!!), confesso que foram os textos políticos os que menos me interessaram. Apesar de evidenciarem partes importantes da história da Argentina e de outros países da América do Sul, a minha leitura desses textos foi a mais superficial possível, numa atitude que encaro como um exercício pessoal de preservação de um escritor estimado. Entre os papéis dedicados à literatura, destaco a admiração demonstrada por José Lezama lima, escritor e poeta cubano. A determinada altura, Cortázar afirma mesmo que, a ter que escolher um livro para o resto da vida, este seria Paradiso, afirmação mais que suficiente para fazer desta obra de Lezama Lima uma prioridade nas minhas leituras (verifiquei que já teve edição portuguesa há uns anos, pela Edições Afrontamento, falta encontrá-lo).
Se não entrarmos em comparações, Papéis inesperados é um agradável exercício de contínua descoberta de um grande autor; se ainda tivermos O jogo do mundo em mente, a desilusão é grande, porque vamos sentir falta do arrojo, do risco, da originalidade, e de tudo o que faz desse romance uma obra incontornável.

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