Monthly Archives: Outubro 2012

Lisboa

Leva-me até lá o trabalho. É a maior distância que estes dois anos colocaram entre nós. Nunca Lisboa ficou tão longe. Levo Laxness na mão e Vila-Matas na mochila. Uma pequena ajuda. É só um dia e parece tanto tempo. Ainda não fui. Já estou com saudades.

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Da paternidade #15

Andar dias com uma música destas na cabeça.

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– Aprende a não esperar nada – disse a mulher. – É o início da aprendizagem. Assim conseguirás suportar qualquer coisa.

Hálldor Laxness, Os peixes também sabem cantar

O início da aprendizagem

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Está na cara

Hoje à hora de almoço, no preciso momento em que a senhora que se encontrava na mesa à minha frente decidiu levantar-se, a televisão noticia que uma jovem brasileira de 20 anos está a leiloar a virgindade. A senhora, já de pé, ali se manteve até ao final da peça. Vestia saia preta e casaco de malha preto. Do cabelo, apanhado em novelo, não se pode dizer o mesmo. Esteve sempre de costas para mim, mas está na cara a expressão que fez.

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Espalhar a palavra


Para quem não chegar, o álbum pode ouvir-se todo aqui.
[Que pena a passagem por Portugal ficar-se pela Aula Magna.]

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P’ro Natal, o meu presente, eu quero que seja… [III]

A piada infinita
[Série de posts a publicar até ao Natal. O título deve ser cantado.]

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O feitiço de Xangai

Três livros de Marsé chegam para identificar os traços principais do autor: personagens brilhantes, ternas, capazes de captar uma espécie de protecção por parte do leitor, uma sempre presente e ténue relação entre a realidade e a fantasia, a imaginação e a memória, o vivido e o sonhado, e a omnipresente Barcelona. Depois de ter sido arrebatado, com surpresa, por Rabos de lagartixa e de ter verificado que esse arrebatamento não tinha sido obra do acaso com Caligrafia dos sonhos, foi a vez de confirmar, com este O feitiço de Xangai, que em Barcelona mora mais um autor ímpar. Este livro divide-se em nove capítulos e é relatado por duas vozes: a de Daniel – mais um enternecedor menino, tal como David e Ringo, personagens centrais dos outros romances já aqui referidos-, que relata a parte mais vivida da história (mesmo aqui não está posta de lado a parte imaginada), e a de Forcat, que vai tecendo uma história mais fantasiada (ainda que baseada na realidade, não totalmente inventada).  É alternando uma e outra voz – quase como duas narrativas distintas – que se vai compondo o presente, o passado e o futuro de todas as personagens deste livro.

… porque então eu ainda não sabia que apesar de se crescer e por mais que se olhe para o futuro, uma pessoa cresce sempre para o passado…

O feitiço de Xangai é também, como as outras obras já lidas de Marsé, uma homenagem ao sítio a que pertencemos, neste caso, Barcelona. Acompanhando uma época pós-guerra e, portanto, uma conjuntura política ainda longe da estabilidade e da liberdade, a cidade catalã está muito presente nas personagens que nela vivem e igualmente presente nas personagens que dela tiveram que sair. Não haverá melhor forma de espelhar esta sensação do que com o poema La ciudad, de Cavafis, encontrado nestas páginas:

 Dizes: «Irei a outras terras, a outros mares.
Procurarei uma cidade melhor que esta
em que os meus anseios nunca se cumpriram,
frio sepulcro do meu sentimento.
Até quando errará a minha alma neste labirinto?
Olhe para onde olhar, só vejo
as negras ruínas da minha vida,
tempo já consumido que aqui desperdicei.»
Não existem para ti outras terras, outros mares.
Esta cidade irá para onde tu fores.
Percorrerás as mesmas ruas sempre. Envelhecerás
nos mesmos arrabaldes. Nascer-te-ão cabelos brancos
numa casa igual.
Nunca abandonarás esta cidade. Para ti já não há outra,
nem barcos, nem caminhos que dela te libertem.
Porque não só perdeste aqui a tua vida:
em todo o mundo a dissipaste.

Na sua infância, o escritor catalão trabalhou como joalheiro e é precisamente com um trabalho de joalheria que os seus livros podem ser comparados. Sente-se, por melhor ou pior que seja o resultado final (pessoalmente, fui arrebatado pelos três que li), que há um cuidado extremo em cada palavra, em cada detalhe, o que os torna tão preciosos. Juan Marsé precisa e, mais que isso, merece chegar a mais leitores.

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Ir ao dicionário

Há uns dias, esbarrei numa palavra que me obrigou a recorrer ao dicionário (coisa que vai acontecendo com relativa frequência, admito). Desde então, sem fazer por isso, não me tem saído da cabeça e permanece viva como quando a encontrei nas páginas do livro que lia. É um adjectivo e é caso para dizer que é uma palavra também ela imarcescível.

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Para escapar à inclemência da chuva

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Do esquecimento

Talvez seja melhor assim; afinal de contas, o esquecimento é uma estratégia do viver.

Juan Marsé, O feitiço de Xangai

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Generalizar é sempre estúpido

Tenho um amigo que decidiu generalizar. Podia ter escrito que os políticos, os dirigentes desportivos e os árbitros são corruptos. Podia ter escrito que as loiras são burras. E os jogadores de futebol e os concorrentes de reality shows. Podia esticar-se um bocado mais e escrever que os padres são pedófilos. Podia ter escrito que os tribunais pura e simplesmente não funcionam. Não chocava ninguém se escrevesse que os sportinguistas e os militantes do PP são betos. Que os bloquistas são intelectuais ou ganzados. Que os bailarinos e os estilistas e os cabeleireiros são maricas. Podia ter escrito tanta coisa sem que ninguém lhe pegasse. Tanta coisa capaz de arrancar “gostos” e comentários divertidos. Tanta coisa que dispensava o “há casos e casos”. Mas decidiu escrever sobre o funcionalismo público e teve que ouvir (ler, na verdade). Ficou a perceber que há coisas sagradas e nem sempre são as religiosas. Generalizar é sempre estúpido. Mas este “sempre” faz toda a diferença.

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P’ro Natal, o meu presente, eu quero que seja… [II]

P'ro Natal, o meu presente, eu quero que seja... [II]
[Série de posts a publicar até ao Natal. O título deve ser cantado.]

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Barcelona de trazer por casa

O universo de Juan Marsé é Barcelona. Cada livro seu é um passeio pelas ruas, gentes, tempos e histórias da cidade. Eis-me acabado de entrar no seu terceiro romance (ordem de leitura): não conheço Barcelona, mas sinto-me sempre como se chegasse a casa.

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A preto e branco

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A posta no Nobel

Na véspera do anúncio do Nobel da literatura, numa entrada do Bibliotecário de Babel, atirei o nome de Mo Yan para vencedor. Isto sem alguma vez ter lido o que fosse do chinês. Apenas pela análise à distribuição geográfica dos últimos prémios, pela verificação dos nomes constantes nas casas de apostas e pelo facto de descartar o nome mais sonante do oriente (Murakami) por achar que a academia não se encanta pelo seu registo. Deu certo, como podia ter dado errado. Aproveito a confiança para, com um ano de antecedência, dizer que o próximo é para o continente americano. Talvez Roth, talvez DeLillo, talvez Cormac (de Pynchon os suecos devem ter medo). Fica dado o bitaite.

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Não será gralha?

Segundo esta notícia, o deputado socialista Paulo Campos, devido à crise, vive com a ajuda dos pais.
Outra notícia dá conta da renovação da frota automóvel do PS, por um valor superior a 200 mil euros, dinheiro proveniente do Orçamento da Assembleia da República.
Não sei se Paulo Campos fará muito uso destas viaturas, mas fico com a sensação de ter encontrado uma gralha na primeira notícia. Não terá dito o deputado socialista que vivia com a ajuda do país?!

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O mapa e o território

O mapa e o territórioTrouxeram-me a este livro quatro coisas: o rótulo de irreverente associado a Michel Houellebecq, um conjunto de vozes que o apontam como o melhor escritor vivo francês, o selo de garantia Prémio Goncourt e a oportunidade de apanhar o livro pela plataforma Winkingbooks (e, desta vez, não vou falhar na referência/agradecimento ao Tiago Marques). Se neste livro, que é o primeiro que leio do autor, não se encontra muita irreverência, encontra-se muito do que eleva Houellebecq ao estatuto das vozes maiores da literatura francesa. O livro é muito bem escrito, com uma narrativa fluida, com personagens bem construídas e imagens bem conseguidas, mas sem excessos poéticos. Se há algo a apontar à primeira metade de O mapa e o território, é um pretensiosismo que se encontra em algumas descrições do meio artístico. Dividido em três partes, o livro começa por se debruçar sobre o despontar e a ascensão ao estrelato do artista plástico Jed Martin, com as suas fotografias de mapas, para depois passar para um capítulo em que aborda a relação entre este e o escritor Michel Houellebecq (sim, o próprio) e termina com uma parte mais policial, em volta da resolução de um homicídio. Neste capítulo final, a resolução do crime serve o interesse da cartografia que o livro vem traçando desde as páginas iniciais: a sociedade actual, o homem actual, o isolamento, a fragiliade das relações e o estranho mundo em que vivemos. É, ao mesmo tempo, uma pintura dos tempos que vivemos e um mapa para o entendermos melhor. Se às vezes parece faltar algum ritmo à leitura, a sensação final é a de um livro interessante e capaz de conduzir o leitor a outros territórios de Houellebecq.

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Memória de elefante

Estar com a minha avó é sempre lembrar o meu avô. Não há vez em que não se desfie uma memória. A minha avó sabe o suficiente para dizer que eu e o meu avô tínhamos uma cumplicidade especial. Recordo que podia contar com ele para tudo, em tudo. Tinha-lhe uma admiração sem fim e percebia que era um sentimento recíproco (o que teria um homem feito a pulso a admirar no menino a quem sempre facilitou a vida?). O meu avô perdura em inúmeras coisas: ainda é o Estádio das Antas, ainda é o meu cachecol de catorze títulos nacionais, ainda é o meu balito, ainda é rabanetes crus, ainda é a minha perna partida, ainda é o bacalhau de Natal, ainda é os meus livros e ainda é as minhas letras. O meu avô ainda hoje é a minha verdade. A minha avó é o meu pão quente na banheira, é a minha balita. É o quanto gosta de mim e tem sido, cada vez mais, a admiração que o meu avô me tinha. Há coisas que à memória é impossível apagar.

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P’ro Natal, o meu presente, eu quero que seja… [I]

Arco-íris da gravidade
[Série de posts a publicar até ao Natal. O título deve ser cantado.]

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