O feitiço de Xangai

Três livros de Marsé chegam para identificar os traços principais do autor: personagens brilhantes, ternas, capazes de captar uma espécie de protecção por parte do leitor, uma sempre presente e ténue relação entre a realidade e a fantasia, a imaginação e a memória, o vivido e o sonhado, e a omnipresente Barcelona. Depois de ter sido arrebatado, com surpresa, por Rabos de lagartixa e de ter verificado que esse arrebatamento não tinha sido obra do acaso com Caligrafia dos sonhos, foi a vez de confirmar, com este O feitiço de Xangai, que em Barcelona mora mais um autor ímpar. Este livro divide-se em nove capítulos e é relatado por duas vozes: a de Daniel – mais um enternecedor menino, tal como David e Ringo, personagens centrais dos outros romances já aqui referidos-, que relata a parte mais vivida da história (mesmo aqui não está posta de lado a parte imaginada), e a de Forcat, que vai tecendo uma história mais fantasiada (ainda que baseada na realidade, não totalmente inventada).  É alternando uma e outra voz – quase como duas narrativas distintas – que se vai compondo o presente, o passado e o futuro de todas as personagens deste livro.

… porque então eu ainda não sabia que apesar de se crescer e por mais que se olhe para o futuro, uma pessoa cresce sempre para o passado…

O feitiço de Xangai é também, como as outras obras já lidas de Marsé, uma homenagem ao sítio a que pertencemos, neste caso, Barcelona. Acompanhando uma época pós-guerra e, portanto, uma conjuntura política ainda longe da estabilidade e da liberdade, a cidade catalã está muito presente nas personagens que nela vivem e igualmente presente nas personagens que dela tiveram que sair. Não haverá melhor forma de espelhar esta sensação do que com o poema La ciudad, de Cavafis, encontrado nestas páginas:

 Dizes: «Irei a outras terras, a outros mares.
Procurarei uma cidade melhor que esta
em que os meus anseios nunca se cumpriram,
frio sepulcro do meu sentimento.
Até quando errará a minha alma neste labirinto?
Olhe para onde olhar, só vejo
as negras ruínas da minha vida,
tempo já consumido que aqui desperdicei.»
Não existem para ti outras terras, outros mares.
Esta cidade irá para onde tu fores.
Percorrerás as mesmas ruas sempre. Envelhecerás
nos mesmos arrabaldes. Nascer-te-ão cabelos brancos
numa casa igual.
Nunca abandonarás esta cidade. Para ti já não há outra,
nem barcos, nem caminhos que dela te libertem.
Porque não só perdeste aqui a tua vida:
em todo o mundo a dissipaste.

Na sua infância, o escritor catalão trabalhou como joalheiro e é precisamente com um trabalho de joalheria que os seus livros podem ser comparados. Sente-se, por melhor ou pior que seja o resultado final (pessoalmente, fui arrebatado pelos três que li), que há um cuidado extremo em cada palavra, em cada detalhe, o que os torna tão preciosos. Juan Marsé precisa e, mais que isso, merece chegar a mais leitores.

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2 thoughts on “O feitiço de Xangai

  1. C. diz:

    Fiquei com vontade (ainda mais) de ler este livro:D
    Esse poema de Kavafis é fantástico (a 1ª vez que o li não consegui avançar para o poema seguinte, fiquei a processá-lo durante um bom tempo. É o “problema” da poesia- um só poema pode ser um quebra-cabeças)

    Gostar

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