Monthly Archives: Novembro 2012

Fóssil vivo

Quando regressa a casa com a equipa, por mais alto que ponha o ar condicionado ou por mais finos que sejam os lençóis, Orin acorda com a sua marca escuramente impressa a suor no sítio onde dormiu; a marca seca devagar ao longo do dia até se tornar uma orla salgada e branca que mal se separa das restantes ténues silhuetas da semana, pelo que a sua imagem fossilizada em posição fetal se repete sobre a largura da cama como um baralho de cartas sobrepostas, como um rasto ácido ou uma exposição fotográfica temporizada.

David Foster Wallace, A piada infinita

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Eis que chegam as músicas de Natal


Título muito apropriado, não?

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Tijolo de papel

Chegou. Quase mil e quinhentos gramas de livro, outro tanto de expectativa. Que peso. Até para o ano.

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O tesouro

O tesouroO facto de Selma Lagerlöf ter sido a primeira mulher a ganhar o Nobel da literatura é já um considerável cartão de visita, mas não consigo deixar de lhe rasgar mais uns quantos elogios por este O Tesouro. O livro está muitíssimo bem escrito e estruturado, e os ambientes são descritos com o detalhe exclusivamente necessário. Não há, neste livro, lugar para o supérfluo, não há uma linha a mais, numa economia de palavras que atesta de forma inequívoca o talento de quem o escreveu. Selma Lagerlöf consegue, em menos de cem páginas, narrar uma história de amor muito peculiar, em que a personagem central se debate entre a força desse sentimento e o peso da consciência, a ideia de culpa. Explora-se relativamente bem, ainda que com menos detalhe e intensidade, atendendo à dimensão da obra, uma luta que Dostoiévski explorou em Crime e castigo. Sobre esta história invernosa, estende-se também um manto de algum misticismo – uma vez mais, nas medidas certas.  O tesouro é uma história arrebatadora, assente numa narrativa que em muito contribui para esse efeito pela simplicidade e pela ausência de adornos desnecessários. É uma recompensa rápida: excelente para qualquer leitor, ideal para os menos pacientes. Livro altamente recomendável.

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Armado em olheiro

Alex Sandro
Vai dar craque.

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Resistir à leitura

Ando a ler como quem é puxado e vai resistindo, de braço esticado para a frente, a manter a distância, a proteger-se e a evitar deixar-se ir. Vai contra a minha natureza de leitor, mas recuo o tronco em relação às pernas e peço ajuda à gravidade. É uma forma de resistência que disfarça uma ansiedade maior. A situação tem piada. Uma piada infinita. Uma piada que deve estar a chegar às minhas mãos.

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A viagem vertical

Federico Mayol é a personagem central de um romance que é, como o seu título desvenda, uma viagem sem regresso, vertical. Geograficamente, o ponto de partida é Barcelona e o percurso faz-se pelo Porto, por Lisboa e pela ilha da Madeira. A parte mais significativa desta viagem, porém, está na procura de Mayol em conhecer-se, descobrir-se, compreender-se e até reinventar-se. Uma viagem interior, até ao fundo de si mesmo. Vertical também por isso, portanto. Nesta abordagem, o ponto de partida – e dínamo – da viagem é o anúncio da separação, que põe em causa uma vida vivida em função de mulher e três filhos. As frustrações sempre se foram escondendo debaixo da larga gabardina que era a necessidade de trabalhar e sustentar a família. Uma viagem com estas características tem, obrigatoriamente, que questionar a vida. E a morte, que, como dizia Terrades, amigo de Mayol, se esconde nos relógios. Enrique Vila-Matas tem alguma dificuldade em escrever livros que não façam referência a outros livros e, por essa mesma razão, não é motivo de espanto que esta viagem contemple uma paragem na cultura.
Por muito que pesem as diferenças entre personagem e leitor, será difícil que este último se mantenha à margem de um mergulho semelhante ao de Mayol, ao que de mais fundo há em si, à sua Atlântida – afundar-se para se encontrar.
Vila-Matas pertence a um reduzido leque de autores que conseguem, com o mesmo livro, entretenimento e enriquecimento pessoal. A viagem vertical é um desses casos e merece toda a atenção.

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Entrevista à Booktailors

Se me bastam os prazeres e ensinamentos que retiro do que leio, a verdade é que me sobra contentamento por ter merecido o convite da Booktailors para uma entrevista. Enquanto leitor, não podia aspirar a muito mais. Abro o separador relativo às entrevistas e fico, algo envergonhado, a olhar para os outros nomes. Espero que esta não tenha sido uma relação parasita e que consigam encontrar algum interesse nas minhas respostas. Resta-me, incapaz de dissimular um certo orgulho, agradecer o convite. Foi um prazer.

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«Quando viajas com alguém», disse-me, «tens sempre a tendência para ver o que te rodeia com estranheza enquanto que, quando viajas só, o estranho és sempre tu».

Enrique Vila-Matas, A viagem vertical

Viagem interior

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Quando for pequenino…

… quero jogar como o Moutinho.

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Explicação dos pássaros

 

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O meu clube cabe em romances

Em A viagem vertical, Vila-Matas recorda uma página negra do desporto nacional (queria ter encontrado algum link com notícia, mas parece que é coisa apenas para romances). A equipa de hóquei em patins do FC Porto viajou para Barcelona para jogar uma final de uma competição europeia com uma comitiva reduzida. Alguns dos seus jogadores estavam hospitalizados, na sequência de agressões sofridas num jogo com o Benfica. O FC Porto perdeu com os catalães. O resto conta Mayol, o protagonista de A viagem vertical. Fica um breve excerto:

Foi assim que, transformado em jornalista desportivo – disse que era da revista Sport -, Mayol ficou a saber algo que nem remotamente teria suspeitado, ficou a saber que não era nenhuma tragédia ter perdido a Taça da Europa, pois o drama da expedição era muito diferente. Três dias antes, num jogo em Lisboa com o Benfica, alguns adeptos desta equipa tinham agredido brutalmente vários titulares do Porto.
Sobrepondo-se às sequelas físicas e morais provocadas por aquelas agressões brutais, tinham viajado a Barcelona deixando em hospitais de Lisboa três jogadores feridos. Um deles, Filipe Santos, com fractura do crânio. Era sobretudo a este jogador que desejavam dedicar a Taça da Europa e, não o conseguindo, sentiram uma forte depressão – da qual o massagista da equipa era claro exemplo -, uma depressão não por não terem conquistado a taça mas por não a poderem oferecer aos seus feridos. A única coisa que os preocupava – o único drama que estavam a viver – era a recordação permanente da desoladora paisagem por onde as suas vidas passeavam após a batalha campal de Lisboa.
Foi assim que Mayol, desejando averiguar o que sentia uma equipa quando abandonava Barcelona com uma derrota, descobriu que nem sempre as equipas vencidas são como imaginamos. Como tantas vezes na vida, há sempre um segundo drama oculto – muito mais sério que o primeiro -, escondido atrás da tragédia que é mais óbvia, mais visível. Mayol, ao dar-se conta de tudo isto, não só perdoou ao pobre enfermeiro melancólico, como também sentiu uma ternura infinita por aquela equipa derrotada, uma ternura que aumentou quando, ao chegar ao aeroporto do Porto, viu as mulheres e os filhos dos jogadores recebê-los contendo o choro, não pelo desastre de Barcelona – que sem dúvida era o menos -, mas pelas horas de angústia que estavam a partilhar com as famílias dos três feridos.

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Momento não tão infantil quanto isso

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Os peixes também sabem cantar

Não é preciso avançar muito pela bibliografia de Halldór Laxness para provar que a escrita do islandês é mais que merecedora do Nobel recebido. Este Os peixes também sabem cantar não é tão forte e cru como Gente independente, mas é mais um tratado sobre a Islândia e a sua história, o seu desenvolvimento. Bjartur, o determinado e resistente protagonista de Gente independente dá lugar a Álfgrímur, um jovem com uma vida  modesta e que não aspira a mais do que seguir as pisadas do avô (adoptivo) como pescador. A narrativa do livro vai-se encarregando de testemunhar as mudanças que o tempo operou no país e, consequentemente, no seu personagem principal. Álfgrímur é mais uma enternecedora criação de Laxness e Os peixes também sabem cantar é mais uma quase-epopeia. Vale toda a página virada.
Os livros deste autor são verdadeiros postais de um país a que o leitor dificilmente fica indiferente. Os costumes e os valores, as paisagens e a cultura. Ler Laxness é ficar com uma viagem por fazer.

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Inexplicável

Cheguei a casa a tempo de esquecer, num instante, tudo o que pareceu demorar: o Alfa cuja oscilação, em certas alturas, justifica o termo pendular, a distância e os três taxistas mudos – dois dos quais aceleras e um nervoso. A tempo de ouvir chamar “papazinho” e receber mimos de quem, aos dois anos, pareceu entender uma carência adulta.

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