A piada infinita

A piada infinitaO historial clínico e o desfecho da vida de David Foster Wallace deixam entender que o autor pode ter sofrido bastante enquanto escrevia o livro, mas o leitor não precisava de sofrer na mesma medida. Uma coisa é o sofrimento causado por um conflito interno que o romance nos inflige, um aspecto que valorizo na leitura; outra coisa, completamente distinta, é o sofrimento gerado pela leitura em si. A piada infinita arrasta-se durante largos períodos de tempo por esta segunda situação.
O livro é uma enormíssima enciclopédia que aborda com especial atenção: o ténis e a procura do sucesso, do sonho; as adições de todo o tipo, com as suas euforias e decadências; a espionagem, a política e a contra-informação; a linguagem e os seus artifícios. Dado o tamanho e a abrangência da obra, compreendia-se desde logo que falhasse na constância de ritmo e clareza, que se dispersasse de vez em quando. O que não se compreende tão bem é que, mesmo tendo em conta que David Foster Wallace pretendia revolucionar a literatura, a obra assente num pretensiosismo que a torna muitas vezes artificial e excessiva, quer na linguagem, quer na realidade criada.

… coçando ruminativamente a irritação cutânea eletrolítica do lábio.

Este é só um exemplo de expressão que julgo que em nada serve o texto. Enquanto de debruça sobre a temática das adições, Foster Wallace também força em demasia o léxico farmacológico, deixando o leitor às aranhas com as substâncias e a consulta das notas para que é remetido, lá no final das mais de mil páginas de livro. E é esta “dança” constante entre a narrativa e as inúmeras e, em alguns casos, muito longas notas que acaba por ser outro dos problemas deste A piada infinita. É repetitivo, é cansativo e parece, grande parte das vezes, dispensável.
Em cada tema que toca, David Foster Wallace não se fica pela superfície e o que às vezes pode parecer interessante, outras vezes volta a ser excessivo. O leitor comum (que não seja, também ele, uma enciclopédia viva, que as há) sentirá aqui e ali dificuldades em entender determinadas passagens, determinadas abordagens. É quase certo que, terminado o livro, alguma coisa (para não dizer muita) terá escapado ao entendimento. As críticas terminam na edição, que é abundante em erros e imprecisões, e deixam de fora, por falta de termo de comparação, a já criticada tradução.
David Foster Wallace, não restam dúvidas, era muito talentoso. Há, neste livro, passagens brilhantes, personagens perfeitamente identificadas com e no meio, descrições de grande realismo e diálogos interessantes e desafiadores. O uso da linguagem, quando não cai no já referido excesso, é notável. O que acontece é que Foster Wallace era, na altura em que escrevia A piada infinita, um homem desequilibrado. E o romance, como muito bem referiu Mário Rufino na sua análise à obra, também resultou desequilibrado.
O essencial do livro consegue-se alcançar e sentir: esse romance turbulento e em constante mutação, como os tempos actuais. Mas sobra demasiado sofrimento na leitura.

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8 thoughts on “A piada infinita

  1. C. diz:

    Continuo curiosa, sobretudo em relação à linguagem utilizada a cada momento, como são feitas as transições (os ritmos das oscilações de humor que parecem estar presentes), no fundo como tudo acaba por servir a história, e no geral o que passa para o leitor- Que realidade e que ficção tem à sua frente.
    Vou aguardar uma temporada e preparar-me física e mentalmente para semelhante empresa.

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    • Carriço diz:

      As questões da linguagem são interessantes, mas nem sempre bem conseguidas (estamos a falar de uma empreitada de mais de mil páginas), e acabam por esgotar o fascínio antes do meio do livro.
      Força para essa leitura. No final, como esta história da literatura é tão subjectiva, até pode ficar com uma impressão completamente diferente da minha. 🙂

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  2. Gostei de ler esta crítica, até porque o livro gerou curiosidade e ainda não tinha tido tempo de ler nenhuma mas fico-me pela(s) opinião(ões) literária(s). O livro, passo…

    Obrigada, Carriço e bom fim-de-semana!

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  3. Valter diz:

    Ando com este livro há semanas suficientes para atentar no meu estado psicológico causado por IF: ora eufórico ora aborrecido. Isto nao é um livro, é um sacrifício que pede aos leitores muita perseverança, eu diria até que é uma espécie de treino militar. Mas depois reparo que nesta guerra, o leitor acaba por sair vencido e sem forças. Cada vez me convenço mais de que fui vítima do marketing editorial.

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    • Carriço diz:

      Senti o mesmo, caro Valter. Entrei na leitura cheio de vontade e expectativas, terminei-a rebentado.

      Boas leituras

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      • Valter diz:

        Boa tarde!
        Fico mais aliviado por saber que não sou o único a ter essa reacção.
        Devo, contudo, salvaguardar o seguinte: apesar de muitas descrições serem totalmente enfadonhas e até esgotantes, juntando a isto as múltiplas referências a medicamentos e drogas, à especificidade do ténis, às patologias mentais, às referências filosóficas e às frases completamente herméticas, há parágrafos que são de uma luminosidade e de uma lógica diáfana que me obrigam a parar, a desconstruir tudo o que pensava sobre X e a reconstruir o meu pensamento. Por esta via, a leitura não tem sido totalmente vã.
        Retribuo os votos de boas leituras! 🙂

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  4. Idebenone diz:

    ⁶ Quer dizer, é uma coisa meio Ovo x Galinha. Um dos ensaios de FLDFDJEMQLDT foi publicado em 2008 na revista piauí — precisamente A liberdade de ver os outros , chamado, no livro, de Isto é água. O próprio suicídio do autor (que motivou a inserção do texto na publicação) foi responsável pelo rumor crescente ao redor de sua obra. Houve uma mitificação — totalmente justificada, uma vez que seu trabalho é genial. No Brasil, o nome de DFW vem se consolidando desde então: primeiro em pequenos círculos, que foram se expandindo progressivamente até atingir um maior número de pessoas. Difícil saber exatamente ao quê isso se deve, mas o trabalho de Galera parece ter sido fundamental para que a coisa andasse mais depressa. Há, claro, o fato já mencionado de que o autor de Barba ensopada de sangue selecionou em FLDFDJEMQLDT os textos mais acessíveis de DFW para apresentar ao brasileiro, mas há, também, uma possível segunda razão para o hype em torno do escritor: Caetano Galindo vem comentando , no Blog da Companhia, sobre a difícil tarefa de verter o romance mais famoso de DFW para o português. Seus textos acabam deixando os leitores curiosos.

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