Monthly Archives: Fevereiro 2013

Trazer um peso ao peito

Os noticiários repetem, a um ritmo quase diário, histórias de gente a quem a vida trocou as voltas. É impossível ficar indiferente a estes relatos, mas a repetição dá uma falsa e incompreensível sensação de normalidade. É assim. É a vida. Tem que ser. Mas a mesma notícia, sem o distanciamento promovido pela televisão, toma outros contornos. A realidade bate à porta com outra violência quando a porta nos está mais próxima. É a vida a trocar as voltas a quem andou às voltas connosco. Gente com quem sorrimos e com quem passámos bons momentos. Gente que nos ajudou uma vez e outra. Gente com quem aprendemos e a quem, na medida do possível, nos demos. É assim, mas não devia ser. É a vida, mas não devia ser. Tem que ser. Tem? Então, perdoem-me o egoísmo e a injustiça que este meu desejo possa carregar, mas metam uma televisão entre mim e estas notícias.
É coisa para deixar qualquer um desfeito, começar a semana com um peso destes ao peito.

Com as etiquetas ,

E vice-versa

Se há coisa que me desagrada na escrita, é o prejuízo para a leitura.

Com as etiquetas ,

O homem sentimental

O homem sentimentalJuan Benet escreve sobre este livro, no primeiro epílogo (há dois), que não traz, como história, novidade. É o típico desenrolar de um triângulo amoroso, com as suas particularidades, mas a respeitar o essencial do que é uma narrativa clássica sobre um amor a três. É o tipo de narrativa que, todos sabemos, deve rumar a uma qualquer fatalidade e à separação das personagens. Aconteça o que acontecer, o que não se pode esperar é que se dê o final feliz de dois à custa da desgraça de um. O epílogo final é do próprio Javier Marías, que explica como nasceu esta sua história, a partir de duas imagens, e a forma como a foi construindo, sem ter ideia de para onde se dirigia. Para o autor espanhol, conhecer o desfecho logo à partida é coisa para o aborrecer, por isso prefere ir tenteando e escrevendo quase à deriva, à mercê de momentos em que as possibilidades de escolha são múltiplas. E é desta escrita um pouco intuitiva que se retira o melhor deste O homem sentimental. Há uma narrativa coerente, ainda que não surpreendente, e há um autor competente.

Com as etiquetas ,

Hoje queria dar-te…

…um coulant de avelã, um passeio junto ao mar, um jogo de futebol, o calor abrasador de Badajoz, uma conversa com o Cesar Millan, as canoas de Avis, a oportunidade de vermos O fabuloso destino de Amélie Poulain pela primeira vez, concertos de Antony and The Johnsons, uma noite de golos celebrados aos saltos no Dragão, uma noite de jantar e cinema e pipocas, um chá quente numa noite fresca de Verão, um jogo de voleibol de praia, um almoço diferente no trabalho, o sorriso de todos os teus alunos e ex-alunos de karaté, tempo para tocares guitarra, a oportunidade de termos um filho pela primeira vez, igualzinho ao que temos, uma noite inteira a olhá-lo para ver se está bem, um segundo filho, uma viagem de sonho a um lugar de azuis impossíveis de esquecer, uma viagem a um lugar de sorrisos impossíveis de esquecer, um Vitara azul cheio de passado, concertos de Andrew Bird, um passeio pelas ruas desertas de Figueira e Barros, uma varanda, muitas kimmidoll, uma conversa com a Mafalda Veiga, uma viagem ao Japão, a vista desimpedida da Praia dos Salgados, um concerto de Ray LaMontagne, leitão para o jantar, um terraço, mais tempo para estarmos com o nosso filho, uma surpresa doce, um dia de casamento sem lágrimas, um jantar no DOC, um concerto da Dave Matthews Band, um infantário para gerires e fazeres uso da tua sensibilidade para as crianças, um mergulho com os golfinhos, uma peça de teatro interminável, uma casa pequena com um jardim grande, um concerto de Jeff Buckley, uma partida de mahjong, tempo para explorares a Bimby como gostas, um passeio à Régua, um passeio a cavalo, um parque infantil igualzinho ao do Alvor, um ramo de girassóis, um concerto de Bon Iver, os anos que não te dei, um pequeno-almoço na cama, um marido que não se esquecesse de ser carinhoso e, se possível, que esse marido fosse eu, um sem fim de camisolas com carapuço, um dia de casamento com os mesmos amigos compreensíveis e divertidos, um concerto de Elliott Smith, um dojo com as melhores condições para ensinares karaté, girassóis para o jardim grande da casa pequena que te queria dar, concertos de Kings of Convenience, a oportunidade de leres A insustentável leveza do ser pela primeira vez, tempo para vermos séries, um jantar no Castas & Pratos, uma noite quente na esplanada do Páteo Real, um concerto de Damien Rice, todos os anos que me restam, os petiscos do Montinho, um serão de Fawlty Towers, telegramas de chocolate, um concerto de Ben Harper, um post-it a dizer que te amo.
Há coisas que não basta querer. Dar-te tempo e passado. Há coisas para as quais um dia não chega. Dar-te nesse curto período o melhor de sete anos e o que nesses sete anos não foi possível. Há coisas para as quais não tenho dinheiro. Faço figas para que as palavras ainda valham alguma coisa.

Com as etiquetas

Fim-de-semana pode dizer-se assim…

Com as etiquetas ,

PUB

image

Relembrar. Só para que não percam um grama. Hoje escreveu-se um pouco da história de valter hugo mãe. É espreitar.

Com as etiquetas ,

A dama de espadas

A dama de espadas Serão breves, as considerações que farei a este também breve livro de Pushkin. O autor, considerado por muitos como o maior poeta russo, pisou o terreno da prosa algumas vezes. Entre essas incursões, encontra-se este A dama de espadas. A narrativa decorre em torno de uma condessa muito rica e de uma pobre protegida sua. Os ingredientes principais da trama são recorrentes na literatura russa: o amor, o jogo, a fortuna e o crime. Nada de novo, mas contado com a simplicidade e acerto dos homens a quem a escrita tocou com generosidade.
A dama de espadas é ideal para intercalar leituras mais extensas e exigentes.

Com as etiquetas ,

Divulgação

image

Com as etiquetas ,

Uma viagem inacabada

Hoje dei por mim perdido numa surpreendente viagem entre o Chile e Paris. As palavras, quando bem escritas, têm esse poder. Foi uma viagem inacabada. Uma parte de uma viagem feita de mais umas quantas partes. Hoje não posso dizer mais. Um dia hei-de voltar a falar desta viagem. Um dia muita gente há-de falar desta viagem.

Com as etiquetas
%d bloggers like this: