Monthly Archives: Abril 2013

As duas caras da saudade


Interpretação para matar saudades do registo voz e piano de Chan Marshall, vídeo para trazer saudades do longo cabelo preto. E da franja.

Anúncios
Com as etiquetas ,

Instazulejo

image

Há algum tempo, decidi dar início a um levantamento de padrões de azulejos em Portugal. Ocorreu-me por os considerar parte da identidade nacional. O engraçado é que a iniciativa foi bem acolhida, com muitas manifestações de interesse. Não foi preciso muito tempo para ter a minha mãe a registar azulejos para me enviar. Voltou a não ser preciso muito tempo até que fossem amigos a fazê-lo. Tem sido uma viagem engraçada. Portugal de norte a sul em azulejos. No instagram, em #instazulejo.

Com as etiquetas ,

Amuleto

AmuletoBolaño pesa muito na hora de avaliar Bolaño. 2666 e Os detectives selvagens são daqueles livros que elevam a fasquia do que se pode esperar de determinado autor. Em Amuleto, há a mesma escrita acutilante e poética, há frases de grande efeito e personagens interessantes, mas o essencial do livro parece perder-se em círculos, sem rumo definido. Neste breve livro, o escritor chileno volta a ler-se com prazer, mas falha no essencial.
Quem leu Os detectives selvagens apreciará as referências às conhecidas e estimadas personagens de Arturo Belano e Ulisses Lima, e quem leu 2666 irá apreciar o esclarecimento acerca do título desse pesado livro.

… parece-se sobretudo com um cemitério, mas não com um cemitério de 1974, nem com um cemitério de 1968, nem com um cemitério de 1975, mas com um cemitério de 2666, um cemitério esquecido sob uma pálpebra morta ou nascida morta, as aquosidades desapaixonadas de um olho que por querer esquecer uma coisa acabou por esquecer tudo.

Quem leu um e outro, irá sentir que Roberto Bolaño podia fazer melhor. Amuleto entra directamente para o lado de Estrela distante, no fundo da tabela de preferências de livros do chileno.
Não é tempo perdido, mas podia ser tempo melhor aproveitado.

Com as etiquetas ,

Da solidão

O amor é assim, o calão é assim, as ruas são assim, os sonetos são assim, o céu das cinco da manhã é assim. A amizade, em compensação, não é assim. Na amizade nunca estamos sozinhos.

Roberto Bolaño, Amuleto

Com as etiquetas ,

214

image

Com as etiquetas ,

Da paternidade #18

Há coisas, como o olhar especial de uma criança para as pequenas coisas do mundo, que não cabem nos melhores livros de poesia. Hoje, com pouco mais de dois anos e meio, o Filipe decidiu explicar à tia aspectos de uma natureza mais que perfeita. Segundo ele, as aranhas comem flores e as gaivotas comem nuvens.

Com as etiquetas

Da paternidade #17

Os filhos distraem os pais, que tendem a considerá-los para sempre crianças. Esquecem-se o tempo e o tamanho. Até que um dia chega a hora de fazer a matrícula para o infantário e o tempo bate-nos à porta para dizer: olha como ele cresceu.

Com as etiquetas ,

Três vidas de santos

Três vidas de santos Eduardo Mendoza é mais um escritor a engrossar o aparentemente infindável filão literário catalão. Três vidas de santos junta três contos sobre outras tantas curiosas personagens. A baleia, o promeiro desses contos, apresenta-nos a história de um membro do clero que se vê retido num país que não o seu. Esse tempo funcionará como um autêntico auto-de-fé para mais do que um personagem. No segundo, O fim de Dubslav, o segundo dos contos presentes neste livro acaba por ser o menos conseguido. Nada parece legitimar o que se segue e o final surge forçado, mas a pena de Mendoza continua a não motivar reparos. Para o final fica aquele que julgo ser o mais feliz (e breve) dos três contos. O equívoco é um texto despretensioso, ligeiro e humorado, mas não larga o leitor antes do seu final. É, neste tom leve, uma interessante sátira à crítica literária e aos preconceitos intelectuais.
A cantera de Barcelona não se esgota em futebóis. Eduardo Mendoza é outro nome a pedir regresso às ruas dessa cidade.

Com as etiquetas ,

Vários tons, a mesma cor

image

Com as etiquetas

Elementar, meu caro Watson

Com as etiquetas ,

Da infância

Quando agora recordo aqueles anos, faço-o com uma nostalgia que provém do presente, não do passado. Não tive uma infância feliz nem infeliz. Considerada objectivamente, poderia dizer que algumas nuvens a ensombraram. Mas a infância não se vive objectivamente.

Eduardo Mendoza, Três vidas de santos

Com as etiquetas ,

Misturem-se escritores, títulos de livros e futebol

É a receita do dia.

Com as etiquetas

Não humano

Não humanoTido como um dos escritores mais influentes do Japão, Osamu Dazai concebe, com este Não humano, um quase estudo antropológico. Yozo, a personagem central desta narrativa, não sente como os demais humanos e, muitas vezes, nem os percebe. É alicerçado nessa incompreensão que Yozo vai acumulando perguntas sobre a condição humana. À incompreensão segue-se o medo.

Tentei, na medida do possível, evitar envolver-me nas complicações sórdidas do ser humano. Tenho medo de ser sugado pelos seus remoinhos sem fundo.

Incapaz de entender o indivíduo, de lhe entender as acções e opções, Yozo tem, obrigatoriamente, dificuldades maiores para entender a sociedade, e acaba por agir de forma dissimulada para tentar encaixar nas suas muitas “regras”.
Perto do final do livro, muitas perguntas depois, a compreensão de Yozo para com a humanidade continuará a ser limitada.

Tudo passa.
Essa é a única coisa que achei assemelhar-se a uma verdade na sociedade dos seres humanos onde até agora vivi como se num inferno.

Não humano é escrito de uma forma simples, muito directa e sem grandes floreados. É um livro cru como o tema pede. É impossível que o leitor termine a leitura sem se questionar, e é aí que reside a força maior deste livro de Dazai.

Com as etiquetas ,

16

image

Com as etiquetas , ,

Boa versão, ó filha!


[Mais uma sugestão Slowcoustic. A merecer atenção.]

Com as etiquetas

Arco-íris da gravidade

Arco-íris da gravidadeUm homem pode ser de agarrar o touro pelos cornos, por maior que este seja, e não mais o largar até que este se imobilize, mas precisará de algum tempo até conseguir agarrar um novo touro, igualmente corpulento, sem ter de o largar precocemente. Pois foi precisamente por falta de tempo entre A piada infinita e Arco-íris da gravidade que não tive como levar a leitura deste último até ao fim. Bastaram cerca de duzentas enfadonhas e complicadas páginas para que tivesse de largar o livro, exausto. Não por ser pior que o já referido livro de David Foster Wallace, entenda-se. É igualmente duro e igualmente penoso de ler. Acontece que tive forças para suportar Foster Wallace, mas ainda não tinha recuperado do esforço despendido nessa tarefa, o que hipotecou as hipóteses de mostrar igual resistência frente a Thomas Pynchon. Acabo por juntar os dois autores norte-americanos no mesmo saco (o que até se compreende, uma vez que um, o mais velho, é assumida referência de outro) e confessar duas colossais desilusões. Esperava tudo e recebi alguma coisa, mas paguei com sofrimento desigual. Do autor de Arco-íris da gravidade, já tinha lido Vício intrínseco, livro menos ambicioso, algures entre o policial, a comédia e o noir, mas capaz de entreter. Em relação a este, a fasquia nunca esteve tão alta como em relação ao primeiro, pelo que a desilusão foi menor. Ainda assim, somado um e outro, não consigo garantir que regresse à escrita de Thomas Pynchon. Por muito que a crítica literária se desdobre em elogios e superlativos, prefiro encostar-me à leitura do muito e bom que sobra. E sobre Pynchon já escrevi muito.
Desisti de uma leitura antes do fim pela segunda vez, se não estou em erro. Era desumano insistir. E por ser desumano insistir, passei à leitura de Não humano, de Osamu Dazai.

Com as etiquetas ,
%d bloggers like this: