Monthly Archives: Junho 2013

O pintor debaixo do lava-loiças

O pintor debaixo do lava-loiçasAo segundo livro lido, arrisco já uma promessa de fidelidade para com a obra de Afonso Cruz. Sem prazos, sem imposições, ao ritmo que os dias ditarem, hei-de ir palmilhando a bibliografia deste autor. A surpresa começou por dar-se com Os livros que devoraram o meu pai, um pequeno grande livro sobre o qual já aqui se escreveram umas linhas. Precisamente por essa primeira experiência, foi com alguma cautela e sem expectativas muito elevadas que decidi abordar O pintor debaixo do lava-loiças – cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal. O livro é semelhante em muita coisa: tamanho, simplicidade de linguagem, narrativa linear, metáforas e aforismos brilhantes. Difere na história e no propósito. O essencial, para não se repetir. Afonso Cruz volta a apresentar uma personagem fantástica (em abono da verdade, mais do que uma, já que o mordomo, por exemplo, ainda que secundário para a história, é brilhante), ingénua e ávida de sabedoria, traços que já se percebiam em Elias Bomfim, o jovem de Os livros que devoraram o meu pai. O livro acompanha a aventura do crescimento de Jozef Sors, as suas escolhas e as suas descobertas. É uma viagem empolgante e sempre interessante. No epílogo, Afonso Cruz desvenda que a personagem central do livro é baseada na vida de Ivan Sors, um pintor que os seus avós acolheram (esconderam?) em casa nos tempos da PIDE. A partir disto e de dois quadros que conheceu, o autor parte para a construção de um belíssimo livro, um livro que merece toda a atenção. Simples e imaginativo. Recomendo sem reservas e sem restrições. É livro para todos.

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Portugalidade

– Para que fique claro, a portugalidade define-se assim: o nosso sucesso é uma ponte entre dois fracassos. Para ver a quantidade de pessimismo que existe em cada português: uma ponte entre dois fracassos. Nós somos um povo fatal, caro senhor, fatal: para nós, o destino está escrito. Ah, se ao menos soubéssemos ler!

Afonso Cruz, O pintor debaixo do lava-loiças

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Paradiso

ParadisoA recomendação de Julio Cortázar foi mais do que suficiente para me levar a uma determinada busca por este livro de Lezama Lima. Fora do circuito comercial mais abrangente, foi na biblioteca que o consegui encontrar. Se outro mérito não tivesse, esse já ninguém lho roubava. Mas Paradiso é, obviamente, mais. Muito mais. As primeiras páginas deslumbram pela linguagem. É um trabalho de filigrana constante, cada palavra escolhida a dedo, colocada no lugar certo e brilhantemente acompanhada. O autor, cubano, sempre se dedicou à poesia e terminou os seus dias a definir-se como poeta. Um poeta que tentou um poema em prosa. E é precisamente isso que se sente em Paradiso, que há uma força oculta na palavra, uma melodia à espreita.
A história começa com a estranha doença de José Cemi, mas aquilo a que habitualmente chamamos história vai perdendo importância à medida que se vai fazendo o retrato social de uma época e acaba por se deixar para segundo plano assim que são encetadas as conversas (filosóficas, quase sempre) entre Cemi e os seus amigos universitários.
A sexualidade, particularmente a homossexualidade, está muito presente, assim como a arte e a poesia enquanto tema propriamente dito, razões pelas quais Paradiso também é entendido como uma espécie de autobiografia do autor.
O maior problema de Paradiso acaba mesmo por ser a sua dimensão: é grande naquilo a que se propõe, é grande na riqueza linguística e é grande em tamanho. Daí que, muitas vezes, passado o espanto pela escrita, aborreça e custe. Em suma, não é um livro fácil e não deve ser escolha de quem pretenda relaxar e usufruir. Paradiso interessará, essencialmente, aos apaixonados das letras.

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