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Conversa de obras

Sobre o esqueleto que nos carrega a existência, o homem que conversava junto à janela da cantina carregava também os músculos naturais de quem faz da força aliada de trabalho.
(O cimento pesa mais quando seco e fino sobre os ombros do que compacto e duro debaixo dos pés.)
Sobre esses músculos, também talhados para a carga, trazia carne, mas pouca. O que o trabalho dá às fibras musculares tende a roubar à carne. A fechar o invólucro humano, tecidos e órgãos encontram-se cobertos por numerosas e finas camadas de pele. Hipoderme, derme, epiderme. O homem que conversava junto à janela da cantina castiga a pele para se proteger. Aguenta o sol e o calor dos dias mais quentes e suporta a chuva e o frio dos invernos mais rigorosos. Acima de pele, na parte interior do braço direito, traz um nome de mulher ou de menina. Em qualquer dos casos, será deste nome que lhe chegará aos braços muita da força que os músculos não lhe conseguem proporcionar. À hora de almoço, é tudo. Em horas de trabalho, sobre a pele e a tatuagem assenta ainda uma camada de poeira.
O homem que, entre duas colheradas, falava junto à janela da cantina, trazia as marcas da dureza do trabalho no corpo e na roupa e dizia que não tinha qualquer regalia. Não sabia o que eram subsídios. No final do mês levava para casa uma nota de quinhentos e fazia os descontos indispensáveis. Uma conversa pornográfica.

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