Monthly Archives: Fevereiro 2015

Instórias #2

A cidade está a acordar quando Dionísio, taxista invulgarmente calado, está a terminar o seu turno. O cansaço da condução nocturna e das conversas habilmente evitadas acumula-se-lhe nos ombros e pesa-lhe nas pálpebras. Ao virar em direcção à garagem, o sol baixo das primeiras horas matinais incide-lhe directamente nos olhos e obriga-o a abrandar enquanto procura os óculos de sol no porta-luvas, às apalpadelas. Assim que se habitua à claridade da manhã, repara na fachada do número vinte, nas sombras dos cabos do eléctrico que se cruzam ao longo da parede, num padrão que se repete, com sorte e com sol, uma única vez por dia. Pensa nas pessoas que transporta no seu turno, nas histórias por norma complexas que lhes ouve e que o obrigam à devolução dos monossílabos estritamente necessários para fugir à falta de educação. O sol há-de erguer-se e deitar e camuflar as sombras dos cabos do eléctrico no leito cinzento do paralelo. E então será dia, a noite e o descanso de Dionísio. Por enquanto, a fachada da porta vinte lembra-lhe a hora a que se iniciará nova corrida nocturna.

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Toca piano e fala francês

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Instórias #1

O azar está à espreita e a coisa pode ficar preta de um momento para o outro. Sabes disso e avanças sem olhar para o lado. Queres passar despercebido e fazes uso do teu caminhar mais ligeiro. Só que o azar, que está à espreita, é predador e é felino, não tira os olhos de ti e ainda lhe sobram outros sentidos.
Sobes as escadas em espiral e foges à natural tentação de acender as luzes. Sentes o odor da madeira envelhecida dos degraus e sabes que estás próximo. Chegas à porta do terceiro esquerdo e bates. Sentes no teu peito algo que bate mais alto e insistentemente. Esperas. A Matilde não deverá tardar muito a abrir a porta, têm os minutos contados até chegar o marido dela.
Não consegues acalmar o que te bate no peito, é algo que não controlas. Com a respiração passa-se o mesmo. Tem sido isto desde que a Matilde te confessou que o casamento dela não ia bem. E sabendo tu que amigas não lhe faltam, começaste logo a magicar na razão de seres tu o confidente. Logo a Matilde.
Tentaste pensar na situação do marido, pensaste nas pernas dela. Tentaste pensar nas confusões que dali podiam vir, pensaste-lhe no pescoço, desvendado pelo cabelo.
A porta abre-se e surge um homem. Não estás preparado para isso, nunca foste homem de manter o sangue frio em situações adversas, o coração começa a bater descompassado, como que a anunciar algo pior, e desmaias, embatendo com estrondo na madeira gasta do patamar. O barulho desperta o prédio.
O azar, que está sempre à espreita, é felino, predador e traiçoeiro. Vários vizinhos assomam à porta. A Matilde também. No terceiro direito.

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O avançado que lia Lobo Antunes

Num clube de futebol das divisões distritais do interior do país jogava um avançado difícil de compreender. Quando chegou à aldeia apresentou-se como Álvaro e pouco mais. Veio a saber-se depois que veio da cidade e que deixou o emprego no ramo imobiliário que, nos melhores anos de mercado, lhe permitira acumular rendimentos consideráveis para a sua idade. Chegado à aldeia sem mulher ou filhos, cedo se percebeu que Álvaro tinha uma espécie de casamento com os livros, uma vez que dificilmente era visto sem a companhia destes. Assim que a hospitalidade do interior conseguiu puxar alguma conversa ao novo habitante da aldeia, descobriram que o futebol era outro dos seus interesses e rapidamente o conduziram ao campo onde aos domingos, entre as cervejas e as conversas de uma semana inteira, se puxava pelo esférico orgulho da terra. Bastaram alguns treinos para tirar duas conclusões: que era difícil compreender Álvaro e que os golos confirmavam que era ele o avançado de que a equipa precisava. Foi então sem espanto que, ao fim de algumas semanas, ao domingo, passou a carregar às costas o número nove. O que os colegas estranharam no avançado nos primeiros tempos de treino, passaram a estranhar os adeptos. Durante largos períodos de jogo, Álvaro parecia não estar em campo e movimentava-se de forma quase aleatória. Sucediam-se as jogadas em que se olhava para a área, se procurava a referência atacante da equipa e este parecia andar nos cus de judas, não se percebe bem a fazer o quê. Quando o questionavam, a resposta não só não ajudava a esclarecer como ainda reforçava a dificuldade em entendê-lo.
– Que estavas a fazer ali ao fundo naquela jogada em que o Batista sentou o lateral e queria cruzar?
– Parecia uma buganvília.
No entanto, Álvaro aparecia a espaços e fazia toda a diferença. Na ficha do jogo, no espaço reservado para os marcadores, o seu nome era uma constante, o que impossibilitava críticas e obrigava a que se habituassem a tão estranho comportamento. E então lá se acostumaram a olhar para um camisola nove de características que nem a memória de elefante do senhor Maximiano, adepto de futebol há quase oitenta anos, conseguia lembrar. Um jogador aparentemente desorientado que só as balizas e as estatísticas confirmavam como craque.
– Preferes que cruze ao primeiro poste, Álvaro?
– Cruza mal, que eles estão preparados para que cruzes bem. Jogador ao contrário de tudo o que vinha nos manuais de futebol, a verdade é que a ordem natural das coisas era o jogo terminar com golos seus. Também natural foi a vontade das pessoas da aldeia quererem saber o que tinha levado aquele homem bem sucedido da cidade a mudar-se para aquele canto esquecido por quase todos. O declínio do mercado imobiliário era notícia que passava a toda a hora na televisão do café do senhor José, mas não chegava como explicação. Álvaro lá ia respondendo como podia, afirmando que encontrara ali, longe das pressões da sociedade moderna, entre a quietude da paisagem e o tempo para a leitura, o esplendor de Portugal.
– O que é que tu tanto lês? – perguntou o senhor Dionísio.
– Romances, sobretudo. Lobo Antunes, de preferência.
– Que tem esse Lobo Antunes de especial?
– Tenho a sensação que me percebe. Escreve coisas que sinto e para as quais nunca tive palavras que chegassem. Seguiu-se um silêncio que Álvaro entendeu como incómodo pela sub-reptícia acusação de não o entenderem. Apressou-se a desfazê-lo:
– E enche os livros de palavras lindas como buganvílias.

[Texto originalmente publicado em http://www.grama.pt e resgatado a um iminente desaparecimento.]

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Os céus de Nicanor

No esboço deste texto, sejamos objectivos quanto baste e viajemos até Barcelona. Na Escola Técnica Superior de Arquitectura, a leccionar a cadeira de Projectos Arquitectónicos, encontraremos o Professor Nicanor Garcia. Como em qualquer outra universidade, o que a generalidade dos alunos esperará dos professores é que cumpram o programa e, no final do ano, os aprovem. No caso específico do Professor Nicanor, será uma pena e uma grande perda que os alunos se cinjam ao que é de currículo. É que, fora das aulas, além de arquitecto com gabinete próprio, este docente universitário deixa cair o título de professor e carrega às costas uma arroba. É apenas @nicanorgracia, mas não deixa de ensinar.

Em Abril de 2012, depois de ler a notícia do lançamento da versão do Instagram para Android, Nicanor decidiu instalar a aplicação. Desde então, aproveitando a câmara digital compacta que usa para o trabalho, este arquitecto e professor não resiste a registar, e assim eternizar, algo circunstancial, mas com pequenas circunstâncias especiais. Essa é a história comum das suas fotografias. Qualquer sítio é bom para fotografar, porque em qualquer lugar acontecem coisas, só é preciso estar atento e descobri-las. Então, não será de espantar que um homem atento, como um arquitecto deve ser, encontre nas ruas de Barcelona, quer esteja em trabalho, quer esteja em passeio, composições incríveis. Naturalmente interessado em edifícios e na forma como estão construídos, Nicanor não ignora o que se passa nas ruas e as pessoas.

Se na sala de aulas o Professor Nicanor Garcia se vê obrigado a debitar teoria, na sua galeria do Instagram dá autênticas aulas práticas de arquitectura, sem se ficar pelos edifícios. Em cada um dos seus instantâneos há linhas fortes e conceitos de construção, mas há, essencialmente, toda uma vida arquitectada. E entre repetições infinitas de janelas, gente que espera, varandas que vivem a primavera e o colorido de roupa estendida a secar, há céus que foram feitos para contemplar.

Peguemos no verbo em que ficámos e contemplemos, então, o céu deste texto, que é como quem diz, a imagem que o encabeça. Vemos um teleférico que arrisca o funambulismo num pouco musical pentagrama aéreo, um homem que, indiferente ao número de degraus que tem de subir, se abeira o quanto pode do azul celeste para fazer o retrato do ar, uma chaminé que se alonga verticalmente para, numa involução industrial, aspirar o fumo e deixar à vista de todos a obra de Nicanor e a inversão que representa ter os ramos de uma árvore a descerem em direcção a uma nuvem, para fazerem cócegas no céu.

Por la mañana temprano, arrebujada bajo un cielo aplomado y espectral, la ciudad que se extiende allá abajo parece un espejismo chafado reverberando su descalabro de grises frente al mar, un decorado maltrecho que acabaran de repintar los ángeles nocturnos, esos que remiendan nuestros sueños al despuntar el día.

@nicanorgarcia pode muito bem ser um desses anjos.

[Texto inicialmente publicado em http://www.grama.pt e resgatado a um iminente desaparecimento.]

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A(s)simetria

A(s)simetria
O que parece simetria para quem olha é, na realidade, pura ilusão. Não importa a que distância se encontrem os elementos, é praticamente impossível que todas as persianas se abram na mesma medida e que as janelas se decorem da mesma forma. O filho da Dona Alice, do rés-do-chão direito, molhou os dois pares de chuteiras, que enfeitam a fachada, nos treinos da semana, que foi chuvosa. A Dona Etelvina, do segundo esquerdo, não teve que se preocupar com a rega dos vasos exteriores e pôde concentrar-se na outra janela, a mágica, mais abrigada e cómoda, ainda que nem sempre benéfica. Gasta em chamadas de valor acrescentado a diferença entre o que ganha de reforma e o que precisa para alimentação.
Para lá do que está à vista de quem passa, a simetria deixa de existir por completo. Num andar estão sorrisos pendurados sobre um berço de madeira e no outro estão cabeças vazias de pensamentos, que não conseguiram acompanhar o corpo e deixar o quarto de um hospital. A simetria, como qualquer conceito de ordem ou lógica é, pois, um engano do olhar.

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