O avançado que lia Lobo Antunes

Num clube de futebol das divisões distritais do interior do país jogava um avançado difícil de compreender. Quando chegou à aldeia apresentou-se como Álvaro e pouco mais. Veio a saber-se depois que veio da cidade e que deixou o emprego no ramo imobiliário que, nos melhores anos de mercado, lhe permitira acumular rendimentos consideráveis para a sua idade. Chegado à aldeia sem mulher ou filhos, cedo se percebeu que Álvaro tinha uma espécie de casamento com os livros, uma vez que dificilmente era visto sem a companhia destes. Assim que a hospitalidade do interior conseguiu puxar alguma conversa ao novo habitante da aldeia, descobriram que o futebol era outro dos seus interesses e rapidamente o conduziram ao campo onde aos domingos, entre as cervejas e as conversas de uma semana inteira, se puxava pelo esférico orgulho da terra. Bastaram alguns treinos para tirar duas conclusões: que era difícil compreender Álvaro e que os golos confirmavam que era ele o avançado de que a equipa precisava. Foi então sem espanto que, ao fim de algumas semanas, ao domingo, passou a carregar às costas o número nove. O que os colegas estranharam no avançado nos primeiros tempos de treino, passaram a estranhar os adeptos. Durante largos períodos de jogo, Álvaro parecia não estar em campo e movimentava-se de forma quase aleatória. Sucediam-se as jogadas em que se olhava para a área, se procurava a referência atacante da equipa e este parecia andar nos cus de judas, não se percebe bem a fazer o quê. Quando o questionavam, a resposta não só não ajudava a esclarecer como ainda reforçava a dificuldade em entendê-lo.
– Que estavas a fazer ali ao fundo naquela jogada em que o Batista sentou o lateral e queria cruzar?
– Parecia uma buganvília.
No entanto, Álvaro aparecia a espaços e fazia toda a diferença. Na ficha do jogo, no espaço reservado para os marcadores, o seu nome era uma constante, o que impossibilitava críticas e obrigava a que se habituassem a tão estranho comportamento. E então lá se acostumaram a olhar para um camisola nove de características que nem a memória de elefante do senhor Maximiano, adepto de futebol há quase oitenta anos, conseguia lembrar. Um jogador aparentemente desorientado que só as balizas e as estatísticas confirmavam como craque.
– Preferes que cruze ao primeiro poste, Álvaro?
– Cruza mal, que eles estão preparados para que cruzes bem. Jogador ao contrário de tudo o que vinha nos manuais de futebol, a verdade é que a ordem natural das coisas era o jogo terminar com golos seus. Também natural foi a vontade das pessoas da aldeia quererem saber o que tinha levado aquele homem bem sucedido da cidade a mudar-se para aquele canto esquecido por quase todos. O declínio do mercado imobiliário era notícia que passava a toda a hora na televisão do café do senhor José, mas não chegava como explicação. Álvaro lá ia respondendo como podia, afirmando que encontrara ali, longe das pressões da sociedade moderna, entre a quietude da paisagem e o tempo para a leitura, o esplendor de Portugal.
– O que é que tu tanto lês? – perguntou o senhor Dionísio.
– Romances, sobretudo. Lobo Antunes, de preferência.
– Que tem esse Lobo Antunes de especial?
– Tenho a sensação que me percebe. Escreve coisas que sinto e para as quais nunca tive palavras que chegassem. Seguiu-se um silêncio que Álvaro entendeu como incómodo pela sub-reptícia acusação de não o entenderem. Apressou-se a desfazê-lo:
– E enche os livros de palavras lindas como buganvílias.

[Texto originalmente publicado em http://www.grama.pt e resgatado a um iminente desaparecimento.]

Anúncios
Com as etiquetas ,

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: